A História da Garota que Acreditava em Noel
HEXA É A HISTÓRIA, DE WANDA CUNHA
http://www.youtube.com/watch?v=CxLrHGExmEY
Classificação: 
Marchinha de Wanda Cunha fazendo uma retrospectiva dos títulos mundiais do futebol conquistados pelo Brasil, nas vozes de Carol e Ana Tereza. Confira!...
Beija-flor no paraíso, música carnavalesca maranhense
http://http://www.youtube.com/watch?v=Trs5ULM_TpY
Classificação: 
Música Carnavalesca, intitulada Beija-flor no paraíso, de autoria de Wanda Cunha e Carol Cunha, interpretada por Carol e Ana Tereza que ficou entre as finalistas do IX Festival Maranhense de Música Carnavalesca.
Beija-flor no paraíso (música carnavalesca maranhense)
http://http://www.youtube.com/watch?v=PSQCS518sdk
Classificação: 
Beija-flor no paraíso, música carnavalesca de autoria de Wanda Cunha e Carol, interpretada por Carol e Ana Tereza.
Os cemitérios também conversam
Wanda Cunha
- É hoje! – alertou o Gavião.
- O que é que é hoje? – indagou curiosamente o Parque da Saudade.
- É hoje que os parentes dos meus finados devem acertar as contas com a gerência. Se não pagarem os atrasados dos jazigos até hoje, vai haver desapropriação dos túmulos.
- Desapropriação?! – Indagou surpreso o Jardim da Paz.
- Isso mesmo, cara – respondeu o cemitério da Madre de Deus – Eu não deveria me chamar Cemitério do Gavião; eu deveria ser o Cemitério dos Gaviões. Tudo quanto é gavião chega e vai levando o que há em mim. Desde flores até os azulejos mais trabalhados. Tudo os gaviões roubam. Agora, querem roubar até o sossego dos meus finados, o direito que eles têm de descansar em paz.
- Quer dizer que tu achas que a gerência tá errada de cobrar os impostos? – interrogou o Parque no bairro de Vinhais.
- Só a palavra “imposto” já está errada. O que é imposto é obrigado. Acontece que esse imposto é uma taxa por determinado serviço, mas esse serviço pertinente ao imposto cobrado não existe, é mole? Até depois de morto o cara paga imposto, ta certo? Ainda bem que hoje é Dia de Todos os Santos, aos quais peço um milagre para que meus mortos continuem descansando com a graça de Deus – retrucou Gavião.
- Há quanto tempo que os garis não apareciam para dar uma limpeza geral em vocês? – questionou Jardim da Paz
O Parque da Saudade respondeu primeiro:
- Desde o último Dia de Finados.
- Pois é. Aqui só funciona assim. Durante o ano todinho é um descaso, quando chega no Dia de Finados, é que se lembram da gente, ta certo? – Falou revoltado o Jardim da Paz.
Mas a revolta maior era do Gavião:
- Tu não tens muito que reclamar: tu és o Jardim da Paz, a palavra já está dizendo: jardim da paz. Lá na estrada do Ribamar não existem os túmulos e catacumbas cheias de apetrechos que chamam a simpatia dos ladrões em todos os sentidos. Amigo, eu tenho uma média de 16000 catacumbas e catatais. Sem contar que os administradores não administram, os parentes dos mortos também não cuidam dos túmulos, e como é que eu fico? Eu guardo os restos mortais de ilustres figuras da sociedade maranhense....e, no entanto, ninguém procura me conservar.
- Ilustres por ilustres, companheiro, eu tenho também os meus!... retrucou o Parque da Saudade.
- Mas eu sou mais tradicional!... Antes, era só eu. Vocês chegaram depois – Convenceu-se o Cemitério do Gavião.
- OK. Não adianta excesso de vaidade. O correto é que amanhã seremos o centro das atenções, limpinhos à espera dos vivos, observou o Jardim da Paz.
- Literalmente vivos – tornou a lamuriar-se o Gavião – Vivos que cobram a vela mais cara, que cobram os santinhos mais caros, que vendem tudo mais caro, até água pra molhar as plantas. Querem ver plantas caras, só no Dia de Finados, inclusive as flores.
- Tenho que tirar o chapeu para ti, Gavião – concordou o Parque da Saudade – Tem uma galera que já demarcou o feudo do estacionamento. O negócio começa bem aqui, na minha esquina e vai além da praça do Letrado, onde a demarcação dos estacionamentos já foi feita previamente.
- É puro comércio!... Estão fazendo de uma culto de fé e de um culto de amor aos que já morreram uma maneira de ganhar dinheiro, ponderou Jardim da Paz.
- Eu penso que essa é a contribuição que os mortos deixam aos vivos, possibilitando que o não empregado ganhe uns trocados para comer; caso contrário, eles entram no rol dos finados. O que eu acho chato é que quando o Dia de Finados acabar, como os outros anos, ficaremos todos sujos outra vez, com coroas de flores jogadas ao chão, fósforos, caixa de velas. Voltaremos à estaca zero... – Observou o Parque dos Vinhais.
- O pior é que não é dessa materialidade que os finados precisam – refletiu Jardim da Paz. Como diz meu nome: os finados querem paz, um jardim de paz.
- Aqui, eles só deixam saudades – lembrou bem o Parque dos Vinhais.
- E, isso aí, os gaviões daqui da terra é que deturpam as coisas – completou o Cemitério da Madre de Deus.
Discussão das fontes na Vila das Mentiras
Por Wanda Cunha
- Águas lindas e cristalinas, águas minhas, existe fonte mais linda do que eu, que ainda estou viva? – questionava a Fonte das Pedras.
- A fonte mais linda!?... Quaquaraquáquá. Eis aqui a fonte mais linda debruçada sobre o meu Ribeirão - contrapôs-se a Fonte do Ribeirão.
A Fonte das Pedras ironizou:
- No teu ribeirão, tu afogas as mágoas, por isso estás entre as Ruas das Barrocas e dos Afogados.
- Não é por menos que estás entre os aclives das ruas do Mocambo e da Inveja. Tens inveja de mim – contestou a fonte vizinha da Rua do Sol.
- Fico em frente à Rua São João. E fui cenário de uma das belas histórias de São Luís. Em 31 de outubro de 1615, foi aqui que os portugueses acamparam com o objetivo de expulsar os franceses que tentavam construir sua França Equinocial. Jerônimo de Albuquerque aportou com sua tropa a mando de Alexandre de Moura - argumentou a Fonte das Pedras, vizinha do Mercado Central.
- Tu foste instrumento de guerra. Eu fui construída para fornecer água potável à população de São Luís, no Governo de Fernando Antônio de Noronha, em 1796 – Não deixou por menos a Fonte do Ribeirão.
- Tenho mais história do que tu, sua boba, e sou símbolo de nacionalidade, de luta pela brasilidade. – Elogiou-se a Fonte das Pedras.
- Quem prova que seríamos piores nas mãos dos franceses do que o fomos sob o domínio português? Será que estaríamos abandonadas como estamos, se os franceses tivessem conseguido fixar a França Equinocial nesta terra de Javiré? Te olha, Fonte das Pedras, estás largada nas mãos dos administradores, descendentes de Jerônimo de Albuquerque.
- Sim, sim – ponderou a Fonte das Pedras – Somos filhas da colônia de Portugal, e ambas estamos abandonadas. Mas eu guardo a história colonial com muito orgulho.
- Quem não te conhece, filha de bárbaros!... Pensas que a história não guarda que tu foste construída nos idos de 1641, durante a invasão dos holandeses? Consegues te vestir de descendentes de heróis; no entanto, és filha de invasores. Os holandeses te construíram – admoestou a Fonte do Ribeirão.
- Ora, ora!... Todos foram invasores: portugueses, franceses, holandeses...Quem não o foi? – retrucou Fonte das Pedras.
- E por que queres arrotar arrogância? – indagou Fontes do Ribeirão.
- Tu és uma traidora. Todos sabem que guardas em tuas galerias a cauda da serpente que um dia vai destruir a ilha.
A fonte do Ribeirão caiu nas gargalhadas:
- Quaquaquaquáaaaaaa............ Que idiota que és!... Como podes acreditar em tamanha calúnia?!... Vieira, em seu Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, em 1654, já dizia que o Maranhão é a Vila das Mentiras, que aqui tudo não passa de mentiras. Segundo ele aqui todos mentem, inclusive os céus e o sol. A história da serpente é mais uma mentira. E maranhense é tão mentiroso que deu à mentira o nome de lenda.
- Patrimônio histórico e cultural é o que somos. Como disse Vieira, a mentira é filha primogênita do ócio. Por isso, a mentira fica por conta dos políticos que ainda hoje governam o Maranhão, quer da direita, quer da esquerda – intrometeu-se uma terceira fonte.
- Quem és tu? – indagou a Fonte do Ribeirão.
- Mais um monumento esquecido pelos administradores. Saem governos, entram governos... e nós continuamos esquecidos, lembrados apenas nos projetos falaciosos dos discursos dos palanques. Dizem que estão a fazer uma recuperação nos meus paralelepípedos. Contudo, mais da metade das verbas destinadas a obras e serviços públicos já se encontra nas contas bancárias dos laranjas dos corruptos que administram.
- Sim, quem és? Com que nome és conhecida? – Reiterou a Fonte do Ribeirão.
Triste e cabisbaixa, sem delongas de narrativas históricas, a fonte respondeu e se isolou em seu terminal:
- Eu sou a Fonte dos Bispos.
A reeleição dos buracos

Estou pensando seriamente em deixar de dirigir. Fa-lo-ei, se for o caso, por dois motivos: o primeiro é que já não se fazem motoristas como antigamente, que o diga a última quadrilha de vendedores de cartas de habilitação recém-descoberta; o segundo é que os buracos das ruas estressam quaisquer cristãos.
A cada dia, chego à conclusão de que o jornalista e escritor Carlos Cunha não era apenas um homem polivalente em suas atividades intelectuais e profissionais; era, também, um jornalista de todas as épocas que continua atualíssimo, apesar do esquecimento a que os seus contemporâneos e conterrâneos tentam deixá-lo. Em crônica datada de 1967, Carlos Cunha dizia o seguinte:
“Alguns motoristas da Ilha, meus amigos, ontem chamaram-me a atenção para o buraco da Rua José Bonifácio, em frente ao Instituto "Zoé Cerveira". Há mais de três meses, deixei o Jornal do Dia, mas recordo que muito antes mesmo de me afastar daquele matutino, já os repórteres davam em cima do Prefeito, chamando a sua atenção para o problema. Ingressei nas fileiras do Jornal Pequeno, e, aqui, também assisto, constantemente, sair na primeira ou última página, notícia sobre o buraco, dando a sua dimensão, a sua idade, os prejuízos que causa aos veículos, em suma, pela primeira vez, em toda a minha vida, leio a biografia de um buraco.
Mas meus amigos motoristas também me disseram que o buraco completou, recentemente, o seu primeiro aniversário de existência. Sendo assim, devo repetir aqui a célebre frase dos cronistas sociais, registrando o fato como ele deve ser registrado, porque não seria possível que um buraco tão popular, não gozasse o direito de ter o seu nome
A crônica de Carlos Cunha não é apenas um retrato vivo da São Luís de ontem. Muito mais que isso, é uma reprodução fidedigna da São Luís de hoje. O que me deixa dizer que, politicamente, no pulo de um século para o outro, São Luís não mudou. Os políticos continuam sendo os mesmos, pequeninos políticos, frutos de votos também pequenos, porque pequena ainda é a democracia. E tanto é verdade que se multiplicaram os buracos e já não há como acender a velinha da primeira primavera da existência de um buraco, se os inúmeros buracos vêem transcorrer, na nebulosidade de suas existências, a passagem de inúmeras primaveras das quais brotam, inclusive, gardênias que viram primeiras damas municipais. Mas os invernos, que vão e voltam, continuam levando a culpa pelos buracos, ainda que, há algum tempo, já não encontrem espaço para reconstruir novos buracos com suas chuvas. Por isso, os papagaios prefeitos comem milho e as periquitas chuvas levam a fama.
A Cidade Operária, por exemplo, com um número considerável de eleitores, com aproximadamente 200.000 habitantes, vive cheia de buracos há anos, igual à Rua José Bonifácio, ludibriada pelas cuspidelas dos serviços de obras públicas municipais. Se vivo fosse, Carlos Cunha assistiria a novos descasos, posto que a pessoa de Epitácio, agora, é a pessoa do Palácio que, literalmente, não consegue sair do palácio de sua vaidade e inoperância. Assim, em vez de colocar asfaltos nas ruas, vive a colocar bodoques no rosto para tapar os buracos que lhe causam as rugas da idade.
O governo fica sediado no palácio, mas foi Palácio quem assediou o Governo com a intenção de duas gestões que não levaram o município a progresso algum. E o pior é que os buracos não estão apenas nas ruas e ladeiras; os buracos estão por todo o canto. O povo, se assim o quisesse, até que poderia batizar os buracos, desta feita, em nome do epitáfio da esperança das pessoas que ainda se dão o luxo de votar nos fazedores de buraco. Por falar nisso, parabéns ao TSE pela feliz propaganda política: quem quer mais quatro anos de um ir-e-vir que não leva a lugar algum?
E, por falar em eleição, ontem (cinco de outubro de 2008, aniversário também da Carta Magna) foi o dia da “cidadania”, da “democracia”; o dia “D”. Eu particularmente acho que ontem foi o dia “D”eles. Quem pegou seu quinhão, está feliz da vida. Quem perdeu a mamata, não perdoa ao eleitorado. E quem foi para o segundo turno, espera o final da partilha. Quem será o novo prefeito? Alguns apostam no velho; outros apostam no novo. Eu, particularmente, aposto nos buracos. Eles conseguem ser tão novos quanto velhos. Sai prefeito e entra prefeito; e eles, os buracos, permanecem fiéis, constantes, perseverantes aos olhos e aos pés do povo.
Fotógrafo vê fantasma na Rua da Estrela

O fantasma da Rua da Estrela
Wanda Cunha
A Prefeitura de São Luís, por meio da secretaria municipal de Turismo promoveu, mês passado, o Concurso de Fotografia “Um Olhar sobre São Luís” . Podiam participar fotógrafos profissionais e amadores residentes e domiciliados em território nacional. Fiquei entusiasmada com a idéia e me predipus a fazer parte dos concorrentes. Não era o valor de R$ 1.000,00 que me seduzia. Era o amor exacerbado pela ilha. Filma-la era um pretexto para rodeá-la, paquerá-la, amá-la. Dar a volta ao redor do seu paisagismo, subir suas ladeiras, descer seus becos.... Assim, tirei um final de semana para namorá-la e me deixar seduzir pelos seus encantos.
O tempo estava temperamental: ora o sol brilhava radiante, ora o céu nublava. Na litorânea, uma carreata de um candidato a prefeito de São Luís. Driblei as filas de puxa-sacos e fui parar na Lagoa da Jansen, triste Lagoa da Jansen, esquecida em pleno domingo sob o silêncio do mau humor de um final de semana desocupado e o mau cheio dos esgotos. E, ao longe, uma canoa e um pescador, ambos também tristes, como se estivessem sobre uma lagoa de lágrimas, levados pelo remo do descaso e da exclusão.
Atravessei a ponte, vi a beira-mar, triste beira-mar no suplício da baixa-mar. Tudo era tão triste que até a maré era vazante, deixando uma solidão na ociosidade do cais. A cidade antiga estava vazia, o Reviver parecia viver ao léu pra não dizer que estava in extremis. Casarões esquecidos...e alguns turistas fazendo a ceia nas calçadas... Tirei foto das escadarias, dos prédios e azulejos. De repente, a câmera detectou a paisagem de um fantasma na rua da Estrela: era um prédio habitado por brenhas com a fachada sombria, o telhado de folhas verdes, como se ainda sobejasse a esperança de que seria restaurado, sem janelas, sem azulejos, quase também sem histórias...
Nas vésperas de seus 396 anos, vi, então, no foco da máquina, a minha São Luís largada, com uma área territorial de
Se concorri ao concurso de fotografia promovido pela Prefeitura de São Luís? Não, mas descobri que o fotógrafo é o poeta das imagens e das luzes que vira repórter, ou contador de histórias produzidas em estúdios para sobreviver; um profissional iluminado que, de sol a sol, de flash a flash, de luz a luz, de imagem a imagem, é o artista – altruísta - a revelar o outro, enquanto fica atrás das câmeras.
Letra da música Nossas Bodas
Em homenagem ao meu marido, Washington Menezes, que me atura há precisamente 24 anos (sem que eu fale nos 9 anos de namoro, quando eu o aturei)
BODAS DO NOSSO CASAMENTO (13 de junho, Dia de Santo Antônio)
Washington, eu e o nosso amor (beijos e beijos)
Minha pele pede a teu tato delírios do maracá
Matraco na tua boca toadas ao te beijar.
Minha pele pede a teu tato sussurros do maracá.
Matraco na tua boca toadas ao te beijar.
Por São Pedro, por São Paulo, por São Felipe, por São Tiago.
Jurei por todos os santos que serias meus afagos.
Santo Antônio é o sinônimo
das bodas do nosso casamento
Eu fiz de ti o homônimo
de todos os meus pensamentos.
Fogos, folguedos, fogos, fogueiras, fogos, foguetes...
tudo é teu corpo ardendo ao meu
tudo é teu corpo sobre o meu
tudo é teu corpo dentro do meu.
EM NOME DE MINHA ANGÚSTIA
Wanda Cristina
Sempre que a angústia bate à minha porta, lembro-me desta poesia de Cassiano Ricardo: “Diante da vida fugidia, conservemo-nos serenos. Cada minuto da vida nunca é mais; é sempre menos. Ser é apenas uma parte do não-ser e não, do ser. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.” Lembro-me desses versos, porque eles traduzem a temporaneidade, a transitoriedade da espécie humana.
Essa história de viver é complicada, porque a vida é a causa da morte. Logo, a morte é uma conseqüência da vida. Morrer e viver são palavras intrinsecamente relacionadas. Assim, não podemos dizer onde começa uma e onde a outra termina. E isso muito me aflige, principalmente quando olho para o lado e vejo que as paredes já não são as mesmas, os muros já não são os mesmos; as janelas das casas mudaram; os carros que transitam nas ruas são diferentes dos de antes; as ruas já têm outra pavimentação e até as avenidas viraram enormes viadutos que levam a vários lugares, muitos dos quais, estranhos, quando até os lugares, antigamente, eram poucos, pequenos e conhecidos de todos nós.
São Luís, por exemplo, São Luís mudou demais. Antigamente era uma ilha grande, grande mesmo, porque cheia de verde. As praças eram verdadeiras ágoras, feitas para o encontro dos pássaros e dos poetas. Hoje, a Upaon-açu cresceu de tal forma que, dentro dela, sentimo-nos distantes, distantes de suas ladeiras, de sua aparência colonial, de seus sobradões antigos, os quais só encontramos no antigo centro. Tudo ficou descentralizado, inclusive os amigos, os conhecidos. Outrora, víamos com freqüência os nossos vizinhos. O que era uma ilha grande, agora é um arquipélago, porque ilhas são os homens que nela habitam, cercados de solidão por todos os lados.
Esta semana, quando li nos jornais a notícia da morte do eminente advogado Clineu Coelho, percebi que, com o passar dos dias, separamo-nos de nós mesmos, das pessoas com as quais mantivemos uma íntima relação de amizade e de convívio. Clineu Coelho era uma relíquia sentimental do meu passado... Um advogado brilhante e humanitário. Um intelectual que cultuava frases filosóficas e poesias memoráveis. Pensava como um causídico e sentia como um poeta.
Amigo da família, inúmeras vezes freqüentei sua casa. Nos meus tempos de meninice, meu pai, de vez em quando, tirava um pouco do nosso domingo para levar uma prosa com Clineu, naquela sua casa grande, abraçada por um jardim enorme, ali, perto do Lítero Recreativo Português. Lá, estava a nos esperar, com doces e sucos, dona Dina. Na verdade, ela era o melhor doce da casa, um doce de pessoa, que conversava com a minha Plácida. Eram duas plácidas trocando idéias, enquanto esperavam a prosa do Carlos e do Clineu acabar.
O escritório de Clineu ficava na rua do Sol, ao lado do Colégio “Nina Rodrigues”. Carlos Cunha e Clineu também proseavam no decorrer da semana. Ora na lanchonete do Almir, ora no seu próprio escritório advocatício, ora no Colégio, ora na João Lisboa, ora entre doses de luares e de estrelas nas noites boêmias do Hotel Central e Moto Bar... De quando em vez, eu ouvia um chamar o outro de irmão. Era uma amizade feita entre poesias e petições jurídicas, aulas e audiências, domingos e segundas. Antigamente, também, as amizades faziam parte do cotidiano, e as pessoas se respeitavam, até quando brincavam. Os amigos estavam presentes em todas as horas. Hoje, até as horas se ausentam, como se houvesse uma fenda no tempo pela qual passado, presente e futuro escapam sem deixar vestígios.
A morte de Clineu me angustia muito!... A morte de Clineu me angustia de tal forma que as minhas palavras saem secas de dentro de mim. Nem as lágrimas conseguem molhá-las. A aridez está no meu estado de espírito e no espírito deste Estado. O Maranhão perdeu um homem de valores profissional e humano. Perdeu também parte da autenticidade da história cultural de seu povo. Sim, a cultura do Maranhão, em sua dinamicidade, vai perdendo paulatinamente a sua identidade primitiva. Morreram Clineu, Waldelino Cécio, Alexandre Júnior e tantos e tantos outros maranhenses respeitáveis!... E o meu medo é ver exaurir da curta memória do povo as histórias que eles fizeram e as histórias que eles contavam. Enquanto cresce o número de jamaicanos, os nossos atenienses estão partindo em busca da Grécia de Deus. Sem muita delonga, não vai mais haver a lembrança do tempo em que o Maranhão ainda era Atenas Brasileira. Não haverá discursos nos bares, poesias nas praças, poetas nas ruas, livrarias nos becos, nem advogados como Clineu....
Quando li nos jornais a notícia da morte de Clineu Coelho, lamentei o tempo que perdi por não inventar prosa aos domingos para trocar com ele e encher minhas filhas dos doces de dona Dina... Era um amigo de verdade!.... Quando meus irmãos e eu ficamos órfãos, vi nossa tristeza no semblante dele. Tentando conter a ausência do irmão que perdera, criou palavras de resignação para nós - os filhos - que ficávamos nesta vida dissimulada...
Agora, foi a vez de Clineu partir. Não tenho uma palavra de resignação para dar a Dona Dina e ao seu filho!... Não tenho uma palavra de resignação para dar a mim mesma!...
O bêbado e outros poetas - 1ª parte
Wanda Cunha
Um bêbado entrou no Bar dos Poetas, um lugar noturno bem freqüentado pela nata literária da Cidade. Ali, havia saraus de que participavam os melhores artistas. Naquele dia, atores declamavam os poetas de que mais gostavam, sob o aplauso de uma sociedade cheia de salamaleques. Todos bem alinhados e comedidos, tentaram obumbrar a presença do bêbado, cabelos desgrenhados, com andar cambaleante e descomedido, que se refestelou numa mesa próxima do palco e gritou ao garçom uma dose de pinga. Foram muitas doses que o suor pingava. Começou o show. Um elenco, ao fundo musical de um piano, declamava grandes poetas do Brasil.
A primeira poesia era de João Cabral de Melo Neto:
- “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.
O bêbado, que parecia não ouvir coisa algum, interrompeu o espetáculo com um grito que soou no ouvido de todos:
- Galo que precisa de outro galo é fresco. Cadê as galinhas daqui, cara?
O ator ignorou a intromissão do bêbado e prosseguiu sua apresentação. A platéia permaneceu silente. Aplausos no final. Outro ator anuncia nova poesia do poeta
João Cabral de Melo Neto:
“catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar”.
E o bêbado tornou-se a intrometer:
o que boiar é merda.
Desta vez, a platéia fez um coro de chateação:
- ah!...
Mas o ator seguinte ignorou o intrometimento do alcoolizado e declamou
Mário Quintana:
“O cronista escolheria a palavra do dia: ‘Árvore’, por exemplo, ou ‘Menina’.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página...”
E o bêbado interrompeu:
- Cadê os pais dessa menina. Será que eles não sabem que o mundo está cheio de tarados?....
surge, trazendo à baila um poesia de Drummond:
- “lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.
E o bêbado conformado:
- melhor é o mudo, que não precisa lutar.
Outro poeta declamava Quintana:
“Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico:
‘Acabaram-se os bondes amarelos!’
Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros.
Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo:
‘Acabaram-se as tias solteironas...’
Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema...”
E o bêbado bradou:
- Nesse bar só tem prostituta!....
O Bêbado e os Poetas
Wanda Cunha Outro poeta declamava Marina Colasanti: “Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar. Nunca recebeu resposta. Mas tornou-se alcoólatra.” E o bêbado apoquentou-se: - alcoólatra é a mãe. Outro poeta declama Drummond: “gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro Inquieto, vivo. Ele está cá dentro E não quer sair.” E o bêbado sugere: - toma lacto purga, cara!... Um poeta declama Augusto dos Anjos: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!” E o bêbado é oportuno: - Já que tu ta dando o fósforo, dá também o cigarro que o meu acabou. Outro poeta declama Augusto dos Anjos: “Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! E o bêbado - na hora H, dizem que bêbado é que gosta de provocar. Um poeta declamara Oswald de Andrade: “que há por aí? Amor Chuva ao longe Jogo Mormaço Mentira Radar” E o bêbado responde: - só pinga, meu, só pinga. Um poeta declamava Manuel Bandeira: “Quando o enterro passou os homens que se achavam no café tiraram o chapéu maquinalmente saudavam o morto distraídos’...
O bêbado e os poetas
Wanda Cunha
O bêbado levantou-se zangado:
- por que não me convidaram para a sentinela?
O poeta declamava Cecília Meireles:
“Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar.
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
E o bêbado:
- depois dizem que eu é que sou o bêbado.
Outro poeta declamada a Modinha que inspirou Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias:
“Quando estava em minha terra
acompanhado ou sozinho
cantava de noite e de dia
ao pé dum copo de vinho”.
E o bêbado:
- Vinho só na Semana Santa.
Outro poeta declamava Bandeira:
“Vou-me embora pra Psárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei”.
E o bêbado:
- posso ir contigo, meu?
Outro poeta declamava Drummond:
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma...”
E o bêbado:
Isso é um caminho ou é uma pedreira?
Outro poeta declamava João Cabral de Melo neto:
“Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria unitária,
Maciçamento ovo, num todo.
E o bêbado interrompe:
Mas é o ovo cozido, frito ou estrelado?
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