Blog de wanda.cunha


25/04/2013


Pra não dizer que não falei da chuva

             

                                   Wanda Cunha

 

 

Quando a cidade anuncia chuva,

Nada é tão assombroso quanto às crateras

Elas  ironizam a prestação dos carros.

Na hibernal baderna do trajeto

Tentamos ser Deus, onipresentes,

Mas estamos ausentes, descrentes,

Perdidos na nossa desbotada cidadania.

A Cidade menstrua a mesmice política

A bela e a fera Cidade de azulejos

Mastiga o azul e o pejo na hora do voto.

 

Perfeito sabor do que foi e do que é

                      para não deixar de ser o que o Estado quer.

Jogo de palavras ou jogo de silêncio?

Jogo de bichos que não dão no sorteio.

 

Dou um doce a quem me disser

Quem pichou meu muro de amargura!...

Desce daí, moleque!...

Nada de empinar papagaio!...

Papagaio faz a trama

e periquito leva a fama.

Quando faltar a esperança,

Acabará  essa democracia.

Posso cair do galho da metáfora!...

Mas minha liberdade nunca terá tombamento...

E assim, enquanto a chuva chibatava a cidade,

Fiz esta música no engarrafamento.

 

 

Escrito por wanda.cunha às 23h33
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MATERNIDADE MARLY SARNEY: um presente de grego às mães

Wanda Cunha 

Nas vésperas do Dia das Mães, resolvi comemorar a data com uma crônica à Maternidade Marly Sarney. Minha filha deu à luz naquele hospital, na Cohab/Anil, dia 29.02.12 (quarta-feira). Minha neta, Wanda Vitória,  chegou ao mundo anunciando que faz jus ao nome: é uma vitoriosa. Nasceu com 34 semanas em um hospital público, em um ano bissexto, no dia 29 de fevereiro,  cercada do mau humor dos (as) médicos (as) e enfermeiros (as) e sob o patrocínio dos 90% do atendimento grosseiro e ditatorial que norteia aquela instituição.

Tiradas as honrosas exceções, os médicos daquela maternidade não conseguem erguer a cabeça para olhar nos olhos dos pacientes que estão sob o seu atendimento. As carrancas transparecem por trás das máscaras cirúrgicas que trazem sobre as faces. As máscaras,  não sabemos se servem para impedir a contaminação de microrganismos existentes na boca e nariz da equipe ou para enfatizar seu papel protetor para o profissional de saúde contra a contaminação  do paciente, inclusive, a contaminação social.

Esses profissionais – em sua maioria – evitam se dirigir aos assistidos e, quando o fazem, falam monossilabicamente, e só evitam os monossílabos quando querem censurar o paciente com a voz arrogante de donos do mundo e da ciência. Parecem absortos nos seus invólucros de médicos. Mas será que é isso que rege a profissão? Como disse o Dr. José Carlos Ramos Castillo, em seu artigo intitulado “É o profissional de saúde ‘dono’ de seus pacientes?”,  “não se pode deixar de lado que o objetivo da Medicina desde a época de Hipócrates, e por extensão, de qualquer profissão de saúde, é servir ao paciente da melhor forma possível...”

 

A carapuça aqui serve para a maioria, mas não se pode deixar de aplaudir aqueles médicos que contrários à classe a que pertencem, conversam com seus pacientes e chegam a ser pacientes na hora do atendimento, respeitando as fragilidades e peculiaridades dos seus assistidos. Lá mesmo, havia um médico – diga-se de passagem – da nova geração (médico bem jovial), que da sete da manhã a sete da noite daquele dia, (observei-o atentamente) atendia a várias parturientes com uma calmaria!... Para dizer que não era igual à maioria, ele falava pouco e tinha uma facilidade de ensimesmar-se, enquanto as enfermeiras faziam a sua parte. Foi ele que, após nove horas sofridas de espera de dilatação da minha filha parturiente, levou-a para a sala de parto  e ajudou-a a ter um parto normal. Observei: cumpriu seu papel com muito profissionalismo.

 

Mas, no geral, acredito que a regra da maternidade seja deixar que a parturiente se “vire” sozinha. Se não tem dilatação, tasca remédio para aumentar a dor e dilatar. Se tem dilatação, deixa a paciente à míngua à esperar que a criança seja expulsa do ventre pela lei natural das coisas. E se a parturiente gritar em razão da dor, ou leva repreensão ou pega um chá de solidão, enquanto todos os profissionais fazem ouvido de mercador. Só para se ter uma idéia, do lado esquerdo à cama da minha filha, uma parturiente recebeu o toque do médico. Ele disse: - ela já está pronta para parir. E deu às costas. O bebê nasceu sozinho. E, se não fossem os gritos dos que ali estavam presentes, nem os enfermeiros apareceriam para cortar o cordão umbilical. Pelo descaso, a mulher levou mais de oito pontos. “O médico, quando reclamado, ainda disse que criança nasce aqui, ali, acolá, sem necessidade da presença do médico...” Então para que servem as maternidades? Para que servem os médicos?

 

Outro ranço que não é apenas da Maternidade Marly Sarney é o fato de que os pacientes que são conhecidos ou familiares de algum servidor, enfermeiro ou médico, têm tratamento especial. Digo-lhes: minha neta teve que ir para o balão de oxigênio e eu não pude ir vê-la, só dá uma olhadinha de longe, mas o filho de uma parturiente, que era prima de uma enfermeira de lá, que estava ao lado da minha filha, recebeu a visita de toda a família da parturiente, inclusive periquito, papaguaio, pintos e galinha, para não ser hiperbólica.  Para ser bem tratado dentro de hospital tem que ter um QI? (quem indica). Melhor que isso tem que ser um Pc (parente ou conhecido).

 

E por falar em lei, naquele hospital é proibido aos familiares dos pacientes entrar com celulares, mas os funcionários do hospital podem ficar fazendo festival de ligações, enquanto as paridas e parturientes pedem bom atendimento. Sabe que há uma lei municipal que proíbe uso de telefone nos estabelecimentos bancários,  mas nas maternidades, é novidade. No fundo – acredito – eles querem evitar que sejam registrados, nas câmeras dos celulares, os absurdos que ocorrem nos corredores e enfermarias daquele hospital.

 

É preciso mudar a concepção de que o atendimento público é um serviço para indigente e seres subumanos. Trata-se de um ranço que vem se alastrando, mormente, em relação às  assistências médica e hospitalar.  Quem mantém essas instituições públicas e quem paga aos servidores  que nela trabalham é o povo. São muitos os impostos que sobrecarregam o bolso do cidadão brasileiro e, no final das contas, ele não tem direito a um tratamento digno. É hora de acabar com essa mentalidade retrógrada, chega de cultura atrasada. O povo merece respeito.  E quem disser que tudo que falei nesta crônica é mentira, que atire a primeira pedra!....

 

 

 

 

 

Escrito por wanda.cunha às 23h31
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Quem soltou o ladrão?

 Wanda Cunha

 

 

Etiquetaste a ética

Mobilizaste a moral.

Desceste o morro em baladas

De baladeiras que viraram balas.

Viraste marginal na zona sul das metrópoles

Viraste personagens das notícias de televisão

Desarticulaste a arte de sorrir nas ruas

Ficaste solidária à solidão

E não inventaste nada que não fosse a falta de invenção.

Treinaste a tristeza em todos os semblantes

E prendeste todos os meus conhecidos em seus medos

E soltaste o ladrão.

Demoliste a democracia com um discurso curto de opressão.

Quebraste as vidraças das janelas de todos os olhos

Subiste os muros dos puros que não tinham cerca elétrica

E tiraste a paz do país na hora da missa da eleição.

E eu fui testemunha de todos os teus pecados

Fui vítima de todos  os teus crimes.

Dos crimes militares, dos crimes civis.

Fera que fere o irmão,

És só... sociedade.

És só uma... humanidade.

Idade das pedras dos homens

Idade dos homens de pedra.

Que animalesca civilização!...

 

 

Escrito por wanda.cunha às 23h22
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13/08/2010


Wanda Cunha canta Roberto Carlos

Escrito por wanda.cunha às 22h10
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A História da Garota que Acreditava em Noel

Categoria: poesia
Escrito por wanda.cunha às 22h05
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12/06/2010


 
 

HEXA É A HISTÓRIA, DE WANDA CUNHA

http://www.youtube.com/watch?v=CxLrHGExmEY

Classificação:

Marchinha de Wanda Cunha fazendo uma retrospectiva dos títulos mundiais do futebol conquistados pelo Brasil, nas vozes de Carol e Ana Tereza. Confira!...

Categoria: Link
Escrito por wanda.cunha às 09h00
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20/01/2010


 
 

Beija-flor no paraíso, música carnavalesca maranhense

http://http://www.youtube.com/watch?v=Trs5ULM_TpY

Classificação:

Música Carnavalesca, intitulada Beija-flor no paraíso, de autoria de Wanda Cunha e Carol Cunha, interpretada por Carol e Ana Tereza que ficou entre as finalistas do IX Festival Maranhense de Música Carnavalesca.

Categoria: Link
Escrito por wanda.cunha às 00h32
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Beija-flor no paraíso (música carnavalesca maranhense)

http://http://www.youtube.com/watch?v=PSQCS518sdk

Classificação:

Beija-flor no paraíso, música carnavalesca de autoria de Wanda Cunha e Carol, interpretada por Carol e Ana Tereza.

Categoria: Link
Escrito por wanda.cunha às 23h55
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Os cemitérios também conversam

Wanda Cunha

 

- É hoje! – alertou o Gavião.

- O que é que é hoje? – indagou curiosamente o Parque da Saudade.

- É hoje que os parentes dos meus finados devem acertar as contas com a gerência. Se não pagarem os atrasados dos jazigos até hoje, vai haver desapropriação dos túmulos.

- Desapropriação?! – Indagou surpreso o Jardim da Paz.

- Isso mesmo, cara – respondeu o cemitério da Madre de Deus – Eu não deveria me chamar Cemitério do Gavião; eu deveria ser o Cemitério dos Gaviões. Tudo quanto é gavião chega e vai levando o que há em mim. Desde flores até os azulejos mais trabalhados.  Tudo os gaviões roubam. Agora, querem roubar até o sossego dos meus finados, o direito  que eles têm de descansar em paz.

- Quer dizer que tu achas que a gerência tá errada de cobrar os impostos? – interrogou o Parque no bairro de Vinhais.

- Só a palavra “imposto” já está errada. O que é imposto é obrigado. Acontece que esse imposto é uma taxa por determinado serviço, mas esse serviço pertinente ao imposto cobrado não existe, é mole? Até depois de morto o cara paga imposto, ta certo? Ainda bem que hoje é Dia de Todos os Santos, aos quais peço um milagre para que meus mortos continuem descansando com a graça de Deus – retrucou Gavião.

- Há quanto tempo que os garis não apareciam para dar uma limpeza  geral em vocês? – questionou Jardim da Paz

O Parque da Saudade respondeu primeiro:

-  Desde o último Dia de Finados.

- Pois é. Aqui só funciona assim. Durante o ano todinho é um descaso, quando chega no Dia de Finados, é que se lembram da gente, ta certo? – Falou revoltado o Jardim da Paz.

Mas a revolta maior era do Gavião:

- Tu não tens muito que reclamar: tu és o Jardim da Paz, a palavra já está dizendo: jardim da paz. Lá na estrada do Ribamar não existem os túmulos e catacumbas cheias de apetrechos que chamam a simpatia dos ladrões em todos os sentidos. Amigo, eu tenho uma média de 16000 catacumbas e catatais. Sem contar que os administradores não administram, os parentes dos mortos também não cuidam dos túmulos, e como é que eu fico? Eu guardo os restos mortais de ilustres figuras da sociedade maranhense....e, no entanto, ninguém procura me conservar.

- Ilustres por ilustres, companheiro, eu tenho também os meus!... retrucou o Parque da Saudade.

- Mas eu sou mais tradicional!... Antes, era só eu. Vocês chegaram depois – Convenceu-se o Cemitério do Gavião.

- OK. Não adianta excesso de vaidade. O correto é que amanhã seremos o centro das atenções, limpinhos à espera dos vivos, observou o Jardim da Paz.

- Literalmente  vivos – tornou a lamuriar-se o Gavião – Vivos que cobram a vela mais cara, que cobram os santinhos mais caros, que vendem tudo mais caro, até água pra molhar as plantas. Querem ver plantas caras, só no Dia de Finados, inclusive as flores.

- Tenho que tirar o chapeu para ti, Gavião – concordou o Parque da  Saudade – Tem uma galera que já demarcou o feudo do estacionamento. O negócio começa bem aqui, na minha esquina e vai além da praça do Letrado, onde a demarcação dos estacionamentos já foi feita previamente.

- É puro comércio!... Estão fazendo de uma culto de fé  e de um culto de  amor aos que já morreram uma maneira de ganhar dinheiro, ponderou Jardim da Paz.

- Eu penso que essa é a contribuição que os mortos deixam aos vivos, possibilitando que o não empregado ganhe uns trocados para comer; caso contrário, eles entram no rol dos finados. O que eu acho chato é que quando o Dia de Finados acabar, como os outros anos, ficaremos todos sujos outra vez, com coroas de flores jogadas ao chão, fósforos, caixa de velas. Voltaremos à estaca zero... – Observou o Parque dos Vinhais.

- O pior é que não é dessa materialidade que os finados precisam – refletiu Jardim da Paz. Como diz meu nome: os finados querem paz, um jardim de paz.

- Aqui, eles só deixam saudades – lembrou bem o Parque dos Vinhais.

- E, isso aí, os gaviões daqui da terra é que deturpam as coisas – completou o Cemitério da Madre de Deus.

 

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 23h45
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Discussão das fontes na Vila das Mentiras

 

Por Wanda Cunha

 

- Águas lindas e cristalinas, águas minhas, existe fonte mais linda do que eu, que ainda estou viva? – questionava a Fonte das Pedras.

- A fonte mais linda!?... Quaquaraquáquá. Eis aqui a fonte mais linda debruçada sobre o meu Ribeirão -  contrapôs-se a Fonte do Ribeirão.

A Fonte das Pedras ironizou:

- No teu ribeirão, tu afogas as mágoas, por isso estás entre as Ruas das Barrocas e dos Afogados.

- Não é por menos que estás entre os aclives das ruas do Mocambo e da Inveja. Tens inveja de mim – contestou a fonte vizinha da Rua do Sol.

- Fico em frente à Rua São João. E fui cenário de uma das belas histórias de São Luís.  Em 31 de outubro de 1615, foi aqui que os portugueses acamparam com o objetivo de expulsar os franceses que tentavam construir sua França Equinocial. Jerônimo de Albuquerque aportou com sua tropa a mando de Alexandre de Moura - argumentou a Fonte das Pedras, vizinha do Mercado Central.

- Tu foste instrumento de guerra. Eu fui construída para fornecer água potável à população de São Luís, no Governo de Fernando Antônio de Noronha, em 1796 – Não deixou por menos a Fonte do Ribeirão.

- Tenho mais história do que tu, sua boba, e sou símbolo de nacionalidade, de luta pela brasilidade.  – Elogiou-se a Fonte das Pedras.

- Quem prova que seríamos piores nas mãos dos franceses do que o fomos sob o domínio português? Será que estaríamos abandonadas como estamos, se os franceses tivessem conseguido fixar a França Equinocial nesta terra de Javiré? Te olha, Fonte das Pedras, estás  largada nas mãos dos administradores, descendentes de Jerônimo de Albuquerque.

- Sim, sim – ponderou a Fonte das Pedras – Somos filhas da colônia de Portugal, e ambas estamos abandonadas. Mas eu guardo a história colonial com muito orgulho.

- Quem não te conhece, filha de bárbaros!... Pensas que a história não guarda que tu foste construída nos idos de 1641, durante a invasão dos holandeses? Consegues te vestir de descendentes de heróis; no entanto, és filha de invasores. Os holandeses te construíram – admoestou a Fonte do Ribeirão.

- Ora, ora!... Todos foram invasores: portugueses, franceses, holandeses...Quem não o foi?    retrucou Fonte das Pedras.

- E por que queres arrotar arrogância? – indagou Fontes do Ribeirão.

- Tu és uma traidora. Todos sabem que guardas em tuas galerias a cauda da serpente que um dia vai destruir a ilha.

A fonte do Ribeirão caiu nas gargalhadas:

- Quaquaquaquáaaaaaa............ Que idiota que és!... Como podes acreditar em tamanha calúnia?!... Vieira, em seu Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, em 1654, já dizia que o Maranhão é a Vila das Mentiras, que aqui tudo não passa de mentiras. Segundo ele aqui todos mentem, inclusive os céus e o sol. A história da serpente é mais uma mentira. E maranhense é tão mentiroso que deu à mentira o nome de lenda.

- Patrimônio histórico e cultural é o que somos. Como disse Vieira,  a mentira é filha primogênita do ócio. Por isso, a mentira fica por conta dos políticos que ainda hoje governam o Maranhão, quer da direita, quer da esquerda – intrometeu-se uma terceira fonte.

- Quem és tu? – indagou a Fonte do Ribeirão.

- Mais um monumento esquecido pelos administradores. Saem governos, entram governos... e nós continuamos esquecidos, lembrados apenas nos projetos falaciosos dos discursos dos palanques. Dizem que estão a fazer uma recuperação nos meus paralelepípedos. Contudo, mais da metade das verbas destinadas a obras e serviços públicos já se encontra nas contas bancárias dos laranjas dos corruptos que administram.

- Sim, quem és? Com que nome és conhecida? – Reiterou a Fonte do Ribeirão.

Triste e cabisbaixa, sem delongas de narrativas históricas,  a fonte respondeu e se isolou em seu terminal:

- Eu sou a Fonte dos Bispos.

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 23h41
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23/11/2008


 http://br.youtube.com/watch?v=wfm_0ry9-Lw

Escrito por wanda.cunha às 22h37
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07/10/2008


A reeleição dos buracos


Foto de buracos localizados na Cidade Operária, em 05/10/08, dia de eleições e aniversário da Constituição brasileira.


Por Wanda Cunha

 


Estou pensando seriamente em deixar de dirigir. Fa-lo-ei, se for o caso, por dois motivos: o primeiro é que já não se fazem motoristas como antigamente, que o diga a última quadrilha de vendedores de cartas de habilitação recém-descoberta; o segundo é que os buracos das ruas estressam quaisquer cristãos.

 

A cada  dia, chego à conclusão de que o jornalista e escritor Carlos Cunha não era apenas um homem polivalente em suas atividades intelectuais e profissionais; era, também, um jornalista de todas as épocas que continua atualíssimo, apesar  do esquecimento a que  os seus contemporâneos e conterrâneos tentam deixá-lo.  Em crônica datada de 1967, Carlos Cunha dizia o seguinte:

 

“Alguns motoristas da Ilha, meus amigos, ontem chamaram-me a atenção para o buraco da Rua José Bonifácio, em frente ao Instituto "Zoé Cerveira". Há mais de três meses, deixei o Jornal do Dia, mas recordo que muito antes mesmo de me afastar daquele matutino, já os repórteres davam em cima do Prefeito, chamando a sua atenção para o problema. Ingressei nas fileiras do Jornal Pequeno, e, aqui, também assisto, constantemente, sair na primeira ou última página, notícia sobre o buraco, dando a sua dimensão, a sua idade, os prejuízos que causa aos veículos, em suma, pela primeira vez, em toda a minha vida, leio a biografia de um buraco.

 

Mas meus amigos motoristas também me disseram que o buraco completou, recentemente, o seu primeiro aniversário de existência. Sendo assim, devo repetir aqui a célebre frase dos cronistas sociais, registrando o fato como ele deve ser registrado, porque não seria possível que um buraco tão popular, não gozasse o direito de ter o seu nome em Jornal. Pois bem, amigos, leitores, o buraco da Rua José Bonifácio assiste a passagem do seu primeiro aniversário, vê transcorrer no jardim florido de sua existência, a passagem de sua primeira primavera. Os fãs do buraco da José Bonifácio já compraram uma velinha e estão mandando preparar o bolinho. Antes de julho passar, será celebrada missa em ação de graça e o buraco também será batizado com o nome de Epitácio, numa homenagem ao maior desarrumador de cidades que é o Senhor Epitácio Afonso Pereira.”

 

A crônica de Carlos Cunha não é apenas um retrato vivo da São Luís de ontem. Muito mais que isso, é uma reprodução fidedigna da São Luís de hoje. O que me deixa dizer que, politicamente, no pulo de um século para o outro, São Luís não mudou. Os políticos continuam sendo os mesmos, pequeninos políticos, frutos de votos também pequenos, porque pequena ainda é a democracia. E tanto é verdade que se multiplicaram os buracos e já não há como acender a velinha da primeira primavera da existência de um buraco, se os inúmeros buracos  vêem transcorrer, na nebulosidade de suas existências, a passagem de inúmeras primaveras das quais brotam, inclusive, gardênias que viram primeiras damas municipais. Mas os invernos, que vão e voltam, continuam levando a culpa pelos buracos, ainda que, há algum tempo, já não encontrem espaço para reconstruir novos buracos com suas chuvas.  Por isso, os papagaios prefeitos comem milho e as periquitas chuvas levam a fama.

 

A Cidade Operária, por exemplo, com um número considerável de eleitores, com aproximadamente 200.000 habitantes, vive cheia de buracos há anos, igual à Rua José Bonifácio, ludibriada pelas cuspidelas dos serviços de obras públicas municipais. Se vivo fosse, Carlos Cunha assistiria a novos descasos, posto que a pessoa de Epitácio, agora, é a pessoa do Palácio que, literalmente, não consegue sair do palácio de sua  vaidade e inoperância. Assim, em vez de colocar asfaltos nas ruas, vive a colocar bodoques no rosto para tapar os buracos que lhe causam as rugas da idade.

 

O governo fica sediado no palácio, mas foi Palácio quem assediou o Governo com a intenção de duas gestões que não levaram o município a progresso algum. E o pior é que os buracos não estão apenas nas ruas e ladeiras; os buracos estão por todo o canto. O povo, se assim o quisesse, até que poderia batizar os buracos, desta feita,  em nome do epitáfio da esperança das pessoas que ainda se dão o luxo de votar nos fazedores de buraco. Por falar nisso, parabéns ao TSE pela feliz propaganda política: quem quer mais quatro anos de um ir-e-vir que não leva a lugar algum?

 

E, por falar em eleição, ontem (cinco de outubro de 2008, aniversário também da Carta Magna) foi o dia da “cidadania”, da “democracia”; o dia “D”.  Eu particularmente acho que ontem foi o dia “D”eles.  Quem pegou seu quinhão,  está feliz da vida. Quem  perdeu a mamata, não perdoa ao eleitorado. E quem foi para o segundo turno, espera o final da partilha. Quem será o novo prefeito? Alguns apostam no velho; outros apostam no novo. Eu, particularmente, aposto nos buracos. Eles conseguem ser tão novos quanto velhos. Sai prefeito e entra prefeito; e eles, os buracos, permanecem fiéis, constantes, perseverantes aos olhos e aos pés do povo.

 

 


Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 00h30
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05/09/2008


Fotógrafo vê fantasma na Rua da Estrela

 

O fantasma da Rua da Estrela


Wanda Cunha


A Prefeitura  de São Luís, por meio da secretaria municipal de Turismo promoveu, mês passado, o Concurso de Fotografia “Um Olhar sobre São Luís” . Podiam participar fotógrafos profissionais e amadores residentes e domiciliados em território nacional. Fiquei entusiasmada com a idéia e me predipus a fazer parte dos concorrentes. Não era o valor de R$ 1.000,00 que me seduzia. Era o amor exacerbado pela ilha. Filma-la era um pretexto para rodeá-la, paquerá-la, amá-la. Dar a volta ao redor do seu paisagismo, subir suas ladeiras, descer seus becos.... Assim, tirei um final de semana para namorá-la e me deixar seduzir pelos seus encantos.

O tempo estava temperamental: ora o sol brilhava radiante, ora o céu nublava. Na litorânea, uma carreata de um candidato a prefeito de São Luís. Driblei as filas de puxa-sacos e fui parar na Lagoa da Jansen, triste Lagoa da Jansen, esquecida em pleno domingo sob o silêncio do mau humor de um final de semana desocupado  e o mau cheio dos esgotos. E, ao longe, uma canoa e um pescador, ambos também tristes, como se estivessem sobre uma lagoa de lágrimas, levados pelo remo do descaso e da exclusão.

Atravessei a ponte, vi a beira-mar, triste beira-mar no suplício da baixa-mar. Tudo era tão triste que até a maré era vazante, deixando uma solidão na ociosidade do cais.  A cidade antiga estava vazia, o Reviver parecia viver ao léu  pra não dizer que  estava in extremis. Casarões esquecidos...e alguns turistas fazendo a ceia nas calçadas... Tirei foto das escadarias, dos prédios e azulejos. De repente, a câmera detectou a paisagem de um fantasma na rua da Estrela: era um prédio habitado por brenhas com a fachada sombria, o telhado de folhas verdes, como se ainda sobejasse a esperança de que seria restaurado, sem janelas, sem azulejos, quase também sem histórias...

Nas vésperas de seus 396 anos, vi, então, no foco da máquina, a minha São Luís largada, com uma área territorial de 831,7 km 2 de abandono. E aquele prédio era apenas um entre tantos outros, muitos dos quais transformados em estacionamento com a capacidade de tirar de São Luís o título de patrimônio histórico e cultural da humanidade. Situada entre as Baías de São José e São Marcos, verifiquei que São Luís  estava mesmo era entre a baia do prefeito que saía e a baia do prefeito que chegava. E nada pude fazer, senão permitir que a melancolia invadisse a minha alma são-luisense, enquanto eu guardava a minha máquina fotográfica e as imagens produzidas na algibeira desta crônica.

Se concorri ao concurso de fotografia promovido pela Prefeitura de São Luís? Não, mas descobri que o fotógrafo é o poeta das imagens e das luzes que vira repórter, ou contador de histórias produzidas em estúdios para sobreviver; um profissional iluminado que, de sol a sol, de flash a flash, de luz a luz, de imagem a imagem, é o artista – altruísta - a revelar o outro,  enquanto  fica atrás das câmeras.

 


Uma homenagem aos 396 anos da Cidade de São Luís


Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h17
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13/06/2008


Letra da música Nossas Bodas

 


Em homenagem ao meu marido, Washington Menezes, que me atura há precisamente 24 anos (sem que eu fale nos 9 anos de namoro, quando eu o aturei)


BODAS DO NOSSO CASAMENTO (13 de junho, Dia de Santo Antônio)


Washington, eu e o nosso amor (beijos e beijos)


Minha pele pede a teu tato delírios do maracá

Matraco na tua boca toadas ao te beijar.

Minha pele pede a teu tato sussurros do maracá.

Matraco na tua boca toadas ao te beijar.

 

Por São Pedro, por São Paulo, por São Felipe, por São Tiago.

Jurei por todos os santos que serias meus afagos.

 

Santo Antônio é o sinônimo

das bodas do nosso casamento

 

Eu fiz de ti o homônimo

de todos os meus pensamentos.

 

Fogos, folguedos, fogos, fogueiras, fogos, foguetes...

tudo é teu corpo ardendo ao  meu

tudo é teu corpo sobre o meu

tudo é teu corpo dentro do meu.

Categoria: poesia
Escrito por wanda.cunha às 11h02
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10/06/2008


EM NOME DE MINHA ANGÚSTIA

 

 

Wanda Cristina

 

 

Sempre que a angústia bate à minha porta, lembro-me desta poesia de  Cassiano Ricardo: “Diante da vida fugidia, conservemo-nos serenos. Cada minuto da vida nunca é mais; é sempre menos. Ser é apenas uma parte do não-ser e não, do ser. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.” Lembro-me desses versos, porque eles traduzem a temporaneidade, a transitoriedade da espécie humana.

Essa história de viver é complicada, porque a vida é a causa da morte. Logo, a morte é uma conseqüência da vida. Morrer e viver são palavras intrinsecamente relacionadas. Assim, não podemos dizer onde começa uma e onde a outra termina. E isso muito me aflige, principalmente quando olho para o lado e vejo que as paredes já não são as mesmas, os muros já não são os mesmos; as janelas das casas mudaram; os carros que transitam nas ruas são diferentes dos de antes; as ruas já têm outra pavimentação e até as avenidas viraram enormes viadutos que levam a vários lugares, muitos dos quais, estranhos, quando até os lugares, antigamente, eram poucos,  pequenos e conhecidos de todos nós.

São Luís, por exemplo, São Luís mudou demais. Antigamente era uma ilha grande, grande mesmo, porque cheia de verde. As praças eram verdadeiras ágoras, feitas para o encontro dos pássaros e dos poetas. Hoje, a Upaon-açu cresceu de tal forma que, dentro dela, sentimo-nos distantes, distantes de suas ladeiras, de sua aparência colonial, de seus sobradões antigos, os quais só encontramos no antigo centro. Tudo ficou descentralizado, inclusive os amigos, os conhecidos. Outrora, víamos com freqüência os nossos vizinhos. O que era uma ilha grande, agora é um arquipélago, porque ilhas são os homens que nela habitam, cercados de solidão por todos os lados.

Esta semana, quando li nos jornais a notícia da morte do eminente advogado Clineu Coelho, percebi que, com o passar dos dias, separamo-nos de nós mesmos, das pessoas com as quais mantivemos uma íntima relação de amizade e de convívio. Clineu Coelho era uma relíquia sentimental do meu passado... Um advogado brilhante e  humanitário. Um intelectual que cultuava frases filosóficas e poesias memoráveis. Pensava como um causídico e  sentia como um poeta.

 Amigo da família, inúmeras vezes freqüentei sua casa. Nos meus tempos de meninice, meu pai, de vez em quando, tirava um pouco do nosso domingo para levar uma prosa com Clineu, naquela sua  casa grande, abraçada por um jardim enorme, ali, perto do Lítero Recreativo Português. Lá, estava a nos esperar, com doces e sucos, dona Dina. Na verdade, ela era o melhor doce da casa, um doce de pessoa, que conversava com a minha Plácida. Eram duas plácidas trocando idéias, enquanto esperavam a prosa do Carlos e do Clineu acabar.

O escritório de Clineu ficava na rua do Sol, ao lado do Colégio “Nina Rodrigues”. Carlos Cunha e Clineu também proseavam no decorrer da semana. Ora na lanchonete do Almir, ora no seu próprio escritório advocatício, ora no Colégio, ora na João Lisboa, ora entre doses de luares e de estrelas nas noites boêmias do Hotel Central e Moto Bar... De quando em vez, eu ouvia um chamar o outro de irmão. Era uma amizade feita entre  poesias e petições jurídicas, aulas e audiências, domingos e segundas. Antigamente, também, as amizades faziam parte do cotidiano, e as pessoas se respeitavam, até quando brincavam. Os amigos estavam presentes em todas as horas. Hoje, até as horas se ausentam, como se houvesse uma fenda no tempo pela qual passado, presente e futuro escapam sem deixar vestígios.

A morte de Clineu me angustia muito!... A morte de Clineu me angustia de tal forma que as minhas palavras saem secas de dentro de mim. Nem as lágrimas conseguem molhá-las. A aridez está no meu estado de espírito e no espírito deste Estado. O Maranhão  perdeu  um homem de valores profissional e humano. Perdeu também parte da autenticidade da história cultural de seu povo. Sim, a cultura do Maranhão, em sua dinamicidade, vai perdendo paulatinamente a sua identidade primitiva. Morreram Clineu, Waldelino Cécio, Alexandre Júnior e tantos e tantos outros maranhenses respeitáveis!... E o meu medo é ver exaurir da curta memória do povo as histórias que eles fizeram e as histórias que eles contavam. Enquanto cresce o número de jamaicanos, os nossos atenienses estão partindo em busca da Grécia de Deus. Sem muita delonga, não vai mais haver a lembrança do tempo em que o Maranhão ainda era Atenas Brasileira. Não haverá discursos nos bares, poesias nas praças, poetas nas ruas, livrarias nos becos, nem advogados como Clineu....

Quando li nos jornais a notícia da morte de Clineu Coelho, lamentei o tempo que perdi por não inventar prosa aos domingos para trocar com ele e encher minhas filhas dos doces de dona Dina... Era um amigo de verdade!....  Quando meus irmãos e eu ficamos órfãos, vi nossa tristeza no semblante dele. Tentando conter a ausência do irmão que perdera, criou palavras  de resignação para nós - os filhos - que ficávamos nesta vida dissimulada...

Agora, foi a vez de Clineu partir. Não tenho uma palavra de resignação para dar a Dona Dina e ao seu filho!... Não tenho uma palavra de resignação para dar a mim mesma!...

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h47
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