MULHERES DE ATENAS DOMINAM OS DEUSES
Wanda Cunha
O que está acontecendo no Maranhão? É certo que, aqui - por questões etimológicas, maranhas nunca faltaram. Observam-se, todavia, as exonerações em massa dos ocupantes de cargos de confiança, que já não são confiáveis ao novo governo e o corte dos vales-transporte e das vantagens dos indefesos funcionários públicos. Logo, se enxugaram a folha de pagamento do funcionalismo público estadual, coisa pior está ocorrendo nos bastidores.
Dizem as más línguas que só há duas alternativas: ou o governo da rosa deixou um rombo tamanho, de tal forma que o marido da magna não está sabendo administrar o Estado, no estado em que as coisas estão; ou o problema é meramente político: estão aquecendo as asas de cera de todos os ícaros que se diziam adeptos da carnavalesca Alexandria.
Com a campanha dos candidatos à Prefeitura e à Câmara Municipal, por debaixo dos panos rola a grana que os pobres barnabés deixaram de receber. E a alta verba que foi cortada em Brasília deve ter tomado um outro rumo, que só se poderá perscrutar, ante os “favores” que alguns candidatos privilegiados fizerem ao povo, com seus ares de moços bons.
Os professores estaduais também estão entre a cruz e a espada: ou aceitam, calados, as retaliações que lhes são feitas pelo governo que rompe com a velha oligarquia, da qual já foi afilhado; ou resolvem colocar suas esperanças sobre o salamaleque do improvisado coração de leão que, no cargo de candidato da rosa, tenta convencer cidadãos e eupátridas, por meio de sua alegoria de palavras e mise-en-scène. E o único prejudicado será a classe estudantil que terá de esperar o dia 23 de agosto para continuar o ano letivo que, certamente, será letárgico.
Tudo são, como diz a música, palpites, pois há os que vêem o que a Veja diz e há os que dizem o que não se vê a olho nu, pois a verdade e a mentira podem estar em todo canto. Dizem amiúde, inclusive, que os outros candidatos querem tirar proveito da briga de titãs. E quem quiser, pode até acreditar em Prometeu, mas que não acredite em quem prometeu, sem nunca ter cumprido, e vai prometer de novo para continuar não cumprindo.
Na condição da Atenas Brasileira que já fomos, queremos crer que estamos em vésperas dos jogos gregos, não os que serão realizados na Grécia, sob o nome de olimpíadas, mas os que já se realizam no santuário da nossa Olímpia, em homenagem aos nossos deuses, que ora querem ser prefeitos, ora querem ser governadores, ora querem ser deputados, ora querem ser senadores. E todos eles pretendem apenas ser os donos do Maranhão, como se estas terras já não tivessem um dono.
O pior é que o espírito macedônio também baixou nestas plagas. Ainda assim, o antigo império de Alexandre, o Grande, foi tão-somente plagiado pelo da magna, que paulatinamente perde seu domínio, mediante sua própria insensatez. Enquanto Alexandre, após dominar o império persa, casou-se com a princesa Roxana, filha de Dario III, para garantir a boa relação entre persas e macedônios, a sua substituta, na história política do Maranhão, rompeu com todas as Roxeanas que cruzaram seu caminho.
O Farol da Educação, que hoje deveria ser Farol de Alexandria, não chega a ser nem uma coisa nem outra. É um candeeiro de penúria que só vai se apagar, quando surgirem as primeiras luzes de votos nas urnas. Antes disso, contudo, quem é de esquerda, ainda vai para a direita; quem é de direita, ainda vai para a esquerda; e quem é inimigo de seu pior inimigo, haverá de ser amigo do dito cujo ou até contraparente, conforme as conveniências. Cairão as máscaras, mas o teatro grego continuará sendo o mesmo, cheio de persona grata de araque.
É lamentável, entretanto, que o povo ainda não tenha percebido que o governo de Clístenes é coisa do passado, e que a democracia desta Atenas é um mar de lamas, cujo senhor fica a administrá-lo, em sua polis, como um eterno filo-basileu.
Destarte, devemos – a mercê de tudo que já foi dito - observar o exemplo dessas mulheres de Atenas, hoje, não mais excluídas. Afinal, paira no ar um único fato, verdadeiramente comprovado: tudo está acontecendo em nome da magna, tudo está acontecendo em nome da rosa.
(São Luís, 14/08/2004) - Esta crônica não pôde ser publicada em jornal algum, em razão dos comprometimentos políticos a que a imprensa no Maranhão está sujeita; ou melhor, em razão dos comprometimentos políticos a que os proprietários de jornais estão sujeitos.

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