Blog de wanda.cunha


13/06/2008


Letra da música Nossas Bodas

 


Em homenagem ao meu marido, Washington Menezes, que me atura há precisamente 24 anos (sem que eu fale nos 9 anos de namoro, quando eu o aturei)


BODAS DO NOSSO CASAMENTO (13 de junho, Dia de Santo Antônio)


Washington, eu e o nosso amor (beijos e beijos)


Minha pele pede a teu tato delírios do maracá

Matraco na tua boca toadas ao te beijar.

Minha pele pede a teu tato sussurros do maracá.

Matraco na tua boca toadas ao te beijar.

 

Por São Pedro, por São Paulo, por São Felipe, por São Tiago.

Jurei por todos os santos que serias meus afagos.

 

Santo Antônio é o sinônimo

das bodas do nosso casamento

 

Eu fiz de ti o homônimo

de todos os meus pensamentos.

 

Fogos, folguedos, fogos, fogueiras, fogos, foguetes...

tudo é teu corpo ardendo ao  meu

tudo é teu corpo sobre o meu

tudo é teu corpo dentro do meu.

Categoria: poesia
Escrito por wanda.cunha às 11h02
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10/06/2008


EM NOME DE MINHA ANGÚSTIA

 

 

Wanda Cristina

 

 

Sempre que a angústia bate à minha porta, lembro-me desta poesia de  Cassiano Ricardo: “Diante da vida fugidia, conservemo-nos serenos. Cada minuto da vida nunca é mais; é sempre menos. Ser é apenas uma parte do não-ser e não, do ser. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.” Lembro-me desses versos, porque eles traduzem a temporaneidade, a transitoriedade da espécie humana.

Essa história de viver é complicada, porque a vida é a causa da morte. Logo, a morte é uma conseqüência da vida. Morrer e viver são palavras intrinsecamente relacionadas. Assim, não podemos dizer onde começa uma e onde a outra termina. E isso muito me aflige, principalmente quando olho para o lado e vejo que as paredes já não são as mesmas, os muros já não são os mesmos; as janelas das casas mudaram; os carros que transitam nas ruas são diferentes dos de antes; as ruas já têm outra pavimentação e até as avenidas viraram enormes viadutos que levam a vários lugares, muitos dos quais, estranhos, quando até os lugares, antigamente, eram poucos,  pequenos e conhecidos de todos nós.

São Luís, por exemplo, São Luís mudou demais. Antigamente era uma ilha grande, grande mesmo, porque cheia de verde. As praças eram verdadeiras ágoras, feitas para o encontro dos pássaros e dos poetas. Hoje, a Upaon-açu cresceu de tal forma que, dentro dela, sentimo-nos distantes, distantes de suas ladeiras, de sua aparência colonial, de seus sobradões antigos, os quais só encontramos no antigo centro. Tudo ficou descentralizado, inclusive os amigos, os conhecidos. Outrora, víamos com freqüência os nossos vizinhos. O que era uma ilha grande, agora é um arquipélago, porque ilhas são os homens que nela habitam, cercados de solidão por todos os lados.

Esta semana, quando li nos jornais a notícia da morte do eminente advogado Clineu Coelho, percebi que, com o passar dos dias, separamo-nos de nós mesmos, das pessoas com as quais mantivemos uma íntima relação de amizade e de convívio. Clineu Coelho era uma relíquia sentimental do meu passado... Um advogado brilhante e  humanitário. Um intelectual que cultuava frases filosóficas e poesias memoráveis. Pensava como um causídico e  sentia como um poeta.

 Amigo da família, inúmeras vezes freqüentei sua casa. Nos meus tempos de meninice, meu pai, de vez em quando, tirava um pouco do nosso domingo para levar uma prosa com Clineu, naquela sua  casa grande, abraçada por um jardim enorme, ali, perto do Lítero Recreativo Português. Lá, estava a nos esperar, com doces e sucos, dona Dina. Na verdade, ela era o melhor doce da casa, um doce de pessoa, que conversava com a minha Plácida. Eram duas plácidas trocando idéias, enquanto esperavam a prosa do Carlos e do Clineu acabar.

O escritório de Clineu ficava na rua do Sol, ao lado do Colégio “Nina Rodrigues”. Carlos Cunha e Clineu também proseavam no decorrer da semana. Ora na lanchonete do Almir, ora no seu próprio escritório advocatício, ora no Colégio, ora na João Lisboa, ora entre doses de luares e de estrelas nas noites boêmias do Hotel Central e Moto Bar... De quando em vez, eu ouvia um chamar o outro de irmão. Era uma amizade feita entre  poesias e petições jurídicas, aulas e audiências, domingos e segundas. Antigamente, também, as amizades faziam parte do cotidiano, e as pessoas se respeitavam, até quando brincavam. Os amigos estavam presentes em todas as horas. Hoje, até as horas se ausentam, como se houvesse uma fenda no tempo pela qual passado, presente e futuro escapam sem deixar vestígios.

A morte de Clineu me angustia muito!... A morte de Clineu me angustia de tal forma que as minhas palavras saem secas de dentro de mim. Nem as lágrimas conseguem molhá-las. A aridez está no meu estado de espírito e no espírito deste Estado. O Maranhão  perdeu  um homem de valores profissional e humano. Perdeu também parte da autenticidade da história cultural de seu povo. Sim, a cultura do Maranhão, em sua dinamicidade, vai perdendo paulatinamente a sua identidade primitiva. Morreram Clineu, Waldelino Cécio, Alexandre Júnior e tantos e tantos outros maranhenses respeitáveis!... E o meu medo é ver exaurir da curta memória do povo as histórias que eles fizeram e as histórias que eles contavam. Enquanto cresce o número de jamaicanos, os nossos atenienses estão partindo em busca da Grécia de Deus. Sem muita delonga, não vai mais haver a lembrança do tempo em que o Maranhão ainda era Atenas Brasileira. Não haverá discursos nos bares, poesias nas praças, poetas nas ruas, livrarias nos becos, nem advogados como Clineu....

Quando li nos jornais a notícia da morte de Clineu Coelho, lamentei o tempo que perdi por não inventar prosa aos domingos para trocar com ele e encher minhas filhas dos doces de dona Dina... Era um amigo de verdade!....  Quando meus irmãos e eu ficamos órfãos, vi nossa tristeza no semblante dele. Tentando conter a ausência do irmão que perdera, criou palavras  de resignação para nós - os filhos - que ficávamos nesta vida dissimulada...

Agora, foi a vez de Clineu partir. Não tenho uma palavra de resignação para dar a Dona Dina e ao seu filho!... Não tenho uma palavra de resignação para dar a mim mesma!...

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h47
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O bêbado e outros poetas - 1ª parte

Wanda Cunha

 

 

 

Um bêbado entrou no Bar dos Poetas, um lugar noturno bem freqüentado pela nata literária da Cidade. Ali, havia saraus de que participavam os melhores artistas. Naquele dia, atores declamavam os poetas de que mais gostavam, sob o aplauso de uma sociedade cheia de salamaleques.  Todos bem alinhados e comedidos, tentaram obumbrar a presença do bêbado, cabelos desgrenhados, com andar cambaleante e descomedido, que se refestelou numa mesa próxima do palco e gritou ao garçom uma dose de pinga. Foram muitas doses que o suor pingava. Começou o show. Um elenco, ao fundo musical de um piano, declamava grandes poetas do Brasil.

A primeira poesia era de  João Cabral de Melo Neto:

-         “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.

O bêbado, que parecia não ouvir coisa algum,  interrompeu o espetáculo com um grito que soou no ouvido de todos:

-         Galo que precisa de outro galo é fresco. Cadê as galinhas daqui, cara?

O ator ignorou a intromissão do bêbado e prosseguiu sua apresentação. A platéia permaneceu silente. Aplausos no final. Outro ator  anuncia nova poesia do poeta

 

João Cabral de Melo Neto:

“catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na da folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar”.

E o bêbado tornou-se a intrometer:

o que boiar é merda.

Desta vez, a platéia fez um coro de chateação:

-         ah!...

Mas o ator seguinte ignorou o intrometimento do alcoolizado e declamou

 

Mário Quintana:

“O cronista escolheria a palavra do dia: ‘Árvore’, por exemplo, ou ‘Menina’.

Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.

Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página...”

E o bêbado interrompeu:

-         Cadê os pais dessa menina. Será que eles não sabem que o mundo está cheio de tarados?....

 

 

 

 

surge, trazendo à baila um poesia de Drummond:

-         “lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

E o bêbado conformado:

-         melhor é o mudo, que não precisa lutar.

 

 

 

 

 

 

Outro poeta declamava Quintana:

“Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico:

‘Acabaram-se os bondes amarelos!’

Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros.

Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo:

‘Acabaram-se as tias solteironas...’

Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema...”

 

E o bêbado bradou:

-         Nesse bar só tem prostituta!....

 

 

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h37
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O Bêbado e os Poetas

Wanda Cunha

 

Outro poeta declamava Marina Colasanti:

 

“Todos os dias esvaziava

uma garrafa, colocava

dentro sua mensagem, e a

entregava ao mar.

Nunca recebeu resposta.

Mas tornou-se alcoólatra.”

 

E o bêbado apoquentou-se:

 

- alcoólatra é a mãe.

 

 

Outro poeta declama Drummond:

“gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro

Inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

E não quer sair.”

E o bêbado sugere:

- toma lacto purga, cara!...

 

Um poeta declama Augusto dos Anjos:

 

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!”

E o bêbado é oportuno:

-         Já que tu ta dando o fósforo, dá também o cigarro que o meu acabou.

 

Outro poeta declama Augusto dos Anjos:

 

“Homem, carne sem luz, criatura cega,

Realidade geográfica infeliz,

O Universo calado te renega

E a tua própria boca te maldiz!

 

E o bêbado

-         na hora H, dizem que bêbado é que gosta de provocar.

 

Um poeta declamara Oswald de Andrade:

 

“que há por aí?

Amor

Chuva ao longe

Jogo

Mormaço

Mentira

Radar”

E o bêbado responde:

-         só pinga, meu, só pinga.

 

Um poeta declamava Manuel Bandeira:

“Quando o enterro passou

os homens que se achavam no café

tiraram o chapéu maquinalmente

saudavam o morto distraídos’...

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h36
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O bêbado e os poetas

Wanda Cunha

O bêbado levantou-se zangado:

-         por que não me convidaram  para a sentinela?

 

O poeta declamava Cecília Meireles:

“Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar.

-         depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

E o bêbado:

-         depois dizem que eu é que sou o bêbado.

 

Outro poeta declamada a Modinha que inspirou Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias:

“Quando estava em minha terra

acompanhado ou sozinho

cantava de noite e de dia

ao pé dum copo de vinho”.

 

E o bêbado:

-         Vinho só na Semana Santa.

 

Outro poeta declamava Bandeira:

“Vou-me embora pra Psárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei”.

 

E o bêbado:

-         posso ir contigo, meu?

 

Outro poeta declamava Drummond:

 

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma...”

E o bêbado:

Isso é um caminho ou é uma pedreira?

 

Outro poeta declamava João Cabral de Melo neto:

 

“Ao olho mostra a integridade

de uma coisa num bloco, um ovo.

Numa só matéria unitária,

Maciçamento ovo, num todo.

 

E o bêbado interrompe:

Mas é o ovo cozido, frito ou estrelado?

 

 

 

 

 

 

 

 

Categoria: cronica
Escrito por wanda.cunha às 20h32
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