Fotógrafo vê fantasma na Rua da Estrela

 

O fantasma da Rua da Estrela


Wanda Cunha


A Prefeitura  de São Luís, por meio da secretaria municipal de Turismo promoveu, mês passado, o Concurso de Fotografia “Um Olhar sobre São Luís” . Podiam participar fotógrafos profissionais e amadores residentes e domiciliados em território nacional. Fiquei entusiasmada com a idéia e me predipus a fazer parte dos concorrentes. Não era o valor de R$ 1.000,00 que me seduzia. Era o amor exacerbado pela ilha. Filma-la era um pretexto para rodeá-la, paquerá-la, amá-la. Dar a volta ao redor do seu paisagismo, subir suas ladeiras, descer seus becos.... Assim, tirei um final de semana para namorá-la e me deixar seduzir pelos seus encantos.

O tempo estava temperamental: ora o sol brilhava radiante, ora o céu nublava. Na litorânea, uma carreata de um candidato a prefeito de São Luís. Driblei as filas de puxa-sacos e fui parar na Lagoa da Jansen, triste Lagoa da Jansen, esquecida em pleno domingo sob o silêncio do mau humor de um final de semana desocupado  e o mau cheio dos esgotos. E, ao longe, uma canoa e um pescador, ambos também tristes, como se estivessem sobre uma lagoa de lágrimas, levados pelo remo do descaso e da exclusão.

Atravessei a ponte, vi a beira-mar, triste beira-mar no suplício da baixa-mar. Tudo era tão triste que até a maré era vazante, deixando uma solidão na ociosidade do cais.  A cidade antiga estava vazia, o Reviver parecia viver ao léu  pra não dizer que  estava in extremis. Casarões esquecidos...e alguns turistas fazendo a ceia nas calçadas... Tirei foto das escadarias, dos prédios e azulejos. De repente, a câmera detectou a paisagem de um fantasma na rua da Estrela: era um prédio habitado por brenhas com a fachada sombria, o telhado de folhas verdes, como se ainda sobejasse a esperança de que seria restaurado, sem janelas, sem azulejos, quase também sem histórias...

Nas vésperas de seus 396 anos, vi, então, no foco da máquina, a minha São Luís largada, com uma área territorial de 831,7 km 2 de abandono. E aquele prédio era apenas um entre tantos outros, muitos dos quais transformados em estacionamento com a capacidade de tirar de São Luís o título de patrimônio histórico e cultural da humanidade. Situada entre as Baías de São José e São Marcos, verifiquei que São Luís  estava mesmo era entre a baia do prefeito que saía e a baia do prefeito que chegava. E nada pude fazer, senão permitir que a melancolia invadisse a minha alma são-luisense, enquanto eu guardava a minha máquina fotográfica e as imagens produzidas na algibeira desta crônica.

Se concorri ao concurso de fotografia promovido pela Prefeitura de São Luís? Não, mas descobri que o fotógrafo é o poeta das imagens e das luzes que vira repórter, ou contador de histórias produzidas em estúdios para sobreviver; um profissional iluminado que, de sol a sol, de flash a flash, de luz a luz, de imagem a imagem, é o artista – altruísta - a revelar o outro,  enquanto  fica atrás das câmeras.

 


Uma homenagem aos 396 anos da Cidade de São Luís