A reeleição dos buracos


Foto de buracos localizados na Cidade Operária, em 05/10/08, dia de eleições e aniversário da Constituição brasileira.


Por Wanda Cunha

 


Estou pensando seriamente em deixar de dirigir. Fa-lo-ei, se for o caso, por dois motivos: o primeiro é que já não se fazem motoristas como antigamente, que o diga a última quadrilha de vendedores de cartas de habilitação recém-descoberta; o segundo é que os buracos das ruas estressam quaisquer cristãos.

 

A cada  dia, chego à conclusão de que o jornalista e escritor Carlos Cunha não era apenas um homem polivalente em suas atividades intelectuais e profissionais; era, também, um jornalista de todas as épocas que continua atualíssimo, apesar  do esquecimento a que  os seus contemporâneos e conterrâneos tentam deixá-lo.  Em crônica datada de 1967, Carlos Cunha dizia o seguinte:

 

“Alguns motoristas da Ilha, meus amigos, ontem chamaram-me a atenção para o buraco da Rua José Bonifácio, em frente ao Instituto "Zoé Cerveira". Há mais de três meses, deixei o Jornal do Dia, mas recordo que muito antes mesmo de me afastar daquele matutino, já os repórteres davam em cima do Prefeito, chamando a sua atenção para o problema. Ingressei nas fileiras do Jornal Pequeno, e, aqui, também assisto, constantemente, sair na primeira ou última página, notícia sobre o buraco, dando a sua dimensão, a sua idade, os prejuízos que causa aos veículos, em suma, pela primeira vez, em toda a minha vida, leio a biografia de um buraco.

 

Mas meus amigos motoristas também me disseram que o buraco completou, recentemente, o seu primeiro aniversário de existência. Sendo assim, devo repetir aqui a célebre frase dos cronistas sociais, registrando o fato como ele deve ser registrado, porque não seria possível que um buraco tão popular, não gozasse o direito de ter o seu nome em Jornal. Pois bem, amigos, leitores, o buraco da Rua José Bonifácio assiste a passagem do seu primeiro aniversário, vê transcorrer no jardim florido de sua existência, a passagem de sua primeira primavera. Os fãs do buraco da José Bonifácio já compraram uma velinha e estão mandando preparar o bolinho. Antes de julho passar, será celebrada missa em ação de graça e o buraco também será batizado com o nome de Epitácio, numa homenagem ao maior desarrumador de cidades que é o Senhor Epitácio Afonso Pereira.”

 

A crônica de Carlos Cunha não é apenas um retrato vivo da São Luís de ontem. Muito mais que isso, é uma reprodução fidedigna da São Luís de hoje. O que me deixa dizer que, politicamente, no pulo de um século para o outro, São Luís não mudou. Os políticos continuam sendo os mesmos, pequeninos políticos, frutos de votos também pequenos, porque pequena ainda é a democracia. E tanto é verdade que se multiplicaram os buracos e já não há como acender a velinha da primeira primavera da existência de um buraco, se os inúmeros buracos  vêem transcorrer, na nebulosidade de suas existências, a passagem de inúmeras primaveras das quais brotam, inclusive, gardênias que viram primeiras damas municipais. Mas os invernos, que vão e voltam, continuam levando a culpa pelos buracos, ainda que, há algum tempo, já não encontrem espaço para reconstruir novos buracos com suas chuvas.  Por isso, os papagaios prefeitos comem milho e as periquitas chuvas levam a fama.

 

A Cidade Operária, por exemplo, com um número considerável de eleitores, com aproximadamente 200.000 habitantes, vive cheia de buracos há anos, igual à Rua José Bonifácio, ludibriada pelas cuspidelas dos serviços de obras públicas municipais. Se vivo fosse, Carlos Cunha assistiria a novos descasos, posto que a pessoa de Epitácio, agora, é a pessoa do Palácio que, literalmente, não consegue sair do palácio de sua  vaidade e inoperância. Assim, em vez de colocar asfaltos nas ruas, vive a colocar bodoques no rosto para tapar os buracos que lhe causam as rugas da idade.

 

O governo fica sediado no palácio, mas foi Palácio quem assediou o Governo com a intenção de duas gestões que não levaram o município a progresso algum. E o pior é que os buracos não estão apenas nas ruas e ladeiras; os buracos estão por todo o canto. O povo, se assim o quisesse, até que poderia batizar os buracos, desta feita,  em nome do epitáfio da esperança das pessoas que ainda se dão o luxo de votar nos fazedores de buraco. Por falar nisso, parabéns ao TSE pela feliz propaganda política: quem quer mais quatro anos de um ir-e-vir que não leva a lugar algum?

 

E, por falar em eleição, ontem (cinco de outubro de 2008, aniversário também da Carta Magna) foi o dia da “cidadania”, da “democracia”; o dia “D”.  Eu particularmente acho que ontem foi o dia “D”eles.  Quem pegou seu quinhão,  está feliz da vida. Quem  perdeu a mamata, não perdoa ao eleitorado. E quem foi para o segundo turno, espera o final da partilha. Quem será o novo prefeito? Alguns apostam no velho; outros apostam no novo. Eu, particularmente, aposto nos buracos. Eles conseguem ser tão novos quanto velhos. Sai prefeito e entra prefeito; e eles, os buracos, permanecem fiéis, constantes, perseverantes aos olhos e aos pés do povo.