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19/05/2008


ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DE UMA TOADA, de Wanda Cristina


Wanda Cristina


 

CARLOS CUNHA, O CAÇADOR DA ESTRELA VERDE

 


Melodia: Chagas da Maioba

Letra: Wanda Cunha

 


 

Carlos Cunha,

Ó poeta, ó rouxinol,

Tu foste caçar estrelas,

Acender lâmpadas do sol.

 

Não voltaste da viagem

E a Maioba saudosista

Presta aqui esta homenagem

Ao professor e ao jornalista.

 

O Colégio “Nina Rodrigues”

E o “Jornal Posição”

São  exemplos da cultura

Que deixaste ao Maranhão.

 

Trovador e declamador,

Membro da Academia,

Historiador e escritor,

Patrono da boemia.

 

Quem é imortal

Não deixa só a saudade

Deixa a obra e deixa a vida

Como herança pra Cidade.

 


 

 

 

 

FIGURAS DE LINGUAGEM ENCONTRADAS NA MÚSICA:

 

FIGURAS DE PENSAMENTO:

 

EUFEMISMO:  Consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, consiste em suavizar alguma idéia desagradável.

PROSOPOPÉIA OU PERSONIFICAÇÃO: consiste em atribuir a seres inanimidados predicados que são próprios de seres animados.

GRADAÇÃO ou CLÍMAX: consiste na apresentação de idéias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax).

 

APÓSTROFE: é a invocação ou chamamento de alguém ou de alguma coisa. Corresponde estilisticamente ao vocativo.

METÁFORA: consiste no emprego de uma palavra fora do seu emprego próprio, tendo como base uma comparação subentendida, já que a conjunção comparativa  como  não aparece claramente.

PERÍFRASE OU ANTONOMÁSIA: É o emprego de uma expressão que identifica coisa ou pessoa, salientando suas qualidades ou um fato notável pelo qual ele é conhecida.

 


 Artigo: Aspectos Lingüísticos de uma toada, de Wanda Cristina 

 

 


O presente trabalho objetiva fazer um estudo de uma música, tipicamente maranhense, por intermédio da qual, serão estudados os aspectos lingüísticos da letra, observadas as figuras de linguagem, da mesma forma que se preocupará em estabelecer o contexto histórico a que a música sob análise refere-se.

Esta autora escolheu como objeto de análise a toada de bumba-meu-boi de matraca, intitulada “Carlos Cunha, o Caçador da Estrela Verde”, de autoria melódica de Chagas da Maioba e de letra da escritora Wanda Cunha.

Antemão, no que tange ao contexto histórico, há de se dizer que a toada refere-se a um grande representante da cultura maranhense, Carlos Cunha, poeta, escritor, jornalista, educador, historiador, que, ao longo de sua vida profissional, prestou relevantes serviços à cultura do Maranhão, ora fundando instituições respeitáveis, como o Colégio “Nina Rodrigues”,  escola de cunho socializado com a qual levava educação  aos estudantes de baixa renda; ora fundando jornais, como o jornal posição, órgão de imprensa através do qual combatia o sistema e os malversadores do dinheiro público.

Escrito por wanda.cunha às 21h37
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ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DA LETRA DE UMA TOADA, de Wanda Cristina


 

                                               

    Cont...


                                            A letra da toada estabelece esse perfil de Carlos Cunha, conforme se observa abaixo:

 Carlos Cunha,

Ó poeta, ó rouxinol,

Tu foste caçar estrelas,

Acender lâmpadas do sol.

 

A estrofe acima, de começo, já estabelece um perfil de Carlos Cunha. Os versos trazem a primeira metáfora, através do vocativo ó rouxinol. Tem-se, nesse caso, um apóstrofe,  a invocação ou chamamento do poeta Carlos Cunha. Dentro do ponto de vista figurado, rouxinol, ainda que, no seu sentido etimológico, seja a “designação comum de aves passeriformes”, no texto significa uma “pessoa que canta muito bem, que tem linda voz”. Essa metáfora foi usada para traduzir as belas poesias que o poeta fazia, muitas das quais cantadas por compositores como Oberdan Oliveira, por exemplo. Da mesma forma que traduz a facilidade que ele  tinha de “Cantar”, ou seja, celebrar em poesia as emoções e realidades do povo com o qual conviveu Verifica-se que essa relação entre poesia e canto estabelece-se pela contigüidade que há entre o poeta e o rouxinol. Os apóstrofes ó poeta e ó rouxinol  estão vizinhos para configurar exatamente essa relação entre poesia e canto.

No terceiro e quarto versos, “Tu foste caçar estrelas,/ acender lâmpadas do sol”, tem-se o início de um eufemismo que vai se concretizar na próxima estrofe  (Não voltaste da viagem, para não dizer: morreste). Concomitantemente, esses mesmos versos trazem à baila duas obras literárias do poeta “O Caçador da Estrela Verde” e “As lâmpadas do Sol”, que deram alusão ao título da toada.  Considerando que  “O caçador da estrela verde” é uma perífrase do escritor Carlos Cunha, a autora da letra usou a expressão “Caçar Estrelas” para lembrar a perífrase e, ao mesmo tempo, demonstrar a suavidade da partida, da viagem que o poeta fez para a morte, usando expressões eufemísticas, também observadas em “acender as lâmpadas do sol”.

Essa análise é corroborada na segunda estrofe, conforme se vê:

Não voltaste da viagem

E a Maioba saudosista

Presta aqui esta homenagem

Ao professor e ao jornalista.

 

Tem-se, portanto, que o poeta não voltou da viagem na qual foi caçar estrelas e acender lâmpadas do sol. Na verdade, o poeta morreu. Algo que está literalmente entendido no adjetivo “saudosista”, dado à Maioba,  É a super-estimação que o cantador Chagas, representante máximo do folguedo folclórico que é a Maioba, faz ao passado que traduz Carlos Cunha. As palavras professor e jornalista são usadas como antonomásia de Carlos Cunha.

 

 

Escrito por wanda.cunha às 21h24
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ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DA LETRA DE UMA TOADA, de Wanda Cristina


Cont...


No que tange à terceira estrofe, a relação entre as antonomásias professor e jornalista se consolidam com os substantivos Colégio “Nina Rodrigues” e “Jornal Posição”. O colégio está para o professor, como o jornal está para o jornalista.

O Colégio “Nina Rodrigues”

E o “Jornal Posição”

São  exemplos da cultura

Que deixaste ao Maranhão.

 

Na quarta estrofe, os adjetivos dados a Carlos Cunha também assumem uma gradação na qual é traçado um perfil de perífrases, cujas amarras são acentuadas no último verso “patrono da boemia”, para identificar, entre outras características de Carlos Cunha, o seu lado boêmio, marcante em escritores do seu tempo e, em particular, no escritor homenageado na toada.

 

Trovador e declamador,

Membro da Academia,

Historiador e escritor,

Patrono da boemia.

 

Na última estrofe, verfica-se:

 

Quem é imortal

Não deixa só a saudade

Deixa a obra e deixa a vida

Como herança pra Cidade.

 

A palavra imortal já sugere um aspecto figurado específico, posto que independentemente de significar  o eterno, o que não morre, também é usada para denominar membros de academias, como o foi Carlos Cunha. Ademais, a palavra saudade, que caracteriza a perpetuação da lembrança do que está distante ou que partiu, também estabelece uma relação semântica  como o que o poeta deixou. No mais, a letra se encerra com uma comparação e uma prosopopéia. Comparação, quando compara a obra e a vida do poeta com uma herança que ele deixou. E a prosopopéia está quando ele humaniza a cidade, como se fosse uma mãe, herdeira do seu filho morto. 

 

 

 

 

 

 

Escrito por wanda.cunha às 21h19
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08/04/2008


ENTRE TRÊS REIS

 



 

Por  Wanda Cunha 


 


Lendo o livro monográfico do escritor José Ribamar Sousa Reis, “Raposa: seu presente, sua gente, seu futuro, acabamos por vislumbrar  toda a praia da Raposa, cuja “comunidade  – conforme citação do professor Ramiro Azevedo, que o Reis oportunamente transcreveu -  tem como chefe o próprio mar”.

Obra eminentemente de investigação, por meio da qual o autor ratifica sua verve de estudioso e repórter, “RAPOSA: seu presente, sua  gente, seu futuro” é um trabalho que transmuda a face de um município  que  timidamente se deixa abraçar pelo Curupu no triângulo amoroso que ambos fazem com a Praia do Carimã.

Vale salientar a ousadia com que Reis desenvolveu seu trabalho minudente, adentrando questões que envolvem a educação, a política, a cultura, a saúde e a sociedade raposenses.

No delinear de cada página, desenvolvem-se os aspectos geográfico, histórico e econômico do Município, inspirados em obras de estudiosos renomados e, subsidiariamente, em informações que o autor constatou  in loco.

Fidedigno na transcrição do povo  raposense, o escritor engolfa-se no passado histórico da  Raposa, buscando a intrínseca relação existente entre sua gente e outros povos vizinhos do Maranhão, dentre os quais o cearense. As mazelas do lugarejo se confrontam com a Vila do Bem Viver.  Pesca e artesanato debruçam-se sobre as mesmas tradições, encorpando uma biografia suntuosa de um Município que desponta no mapa geopolítico maranhense.

Para um escritor que é versátil em sua arte de bem escrever, não faltam as poesias extraídas das veias de Stella Leonardos, do poeta repentista Cosmo  Saldanha da Silva, o velho Cornélio, nem aquela de própria lavra, que fez em homenagem a Chico Noca. Ainda há as letras de toadas, poesias e contos, com os quais ele mescla o seu itinerário monográfico. Consegue, também, ilustrar sua obra com um fragmento de “O Dono do Mar”, do escritor José Sarney, romance magnífico que dispensa o parentesco literário com “Os trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo.

 A parte iconográfica de “Raposa: seu presente, sua gente, seu futuro” também é cúmplice da preocupação organizacional do autor, o qual chega a ser fiel, inclusive, à realidade circundante da orla marítima. As minúcias se beijam no fecundar de novas informações e tomam conta do texto, como o próprio mar da praia.

Ademais, na alma do artista, sobejam inspirações, motivo por que já pretende estender o mesmo projeto aos demais municípios maranhenses. Uma pretensão digna de louvores, mas que requer tempo e a boa vontade de administradores que venham a patrocinar a obra, com interesses  que sejam eminentemente em prol da cultura do Maranhão.

Para quem teve oportunidade de ler o contista José Ribamar  Sousa dos Reis, em obras do quilate de “Sertão de Minha Terra”, terá a condição de conhecer e admirar a versatilidade deste escritor, que tece a ficção com a mesma ousadia de quem tece a obra de pesquisa. Enveredando pela narrativa rápida, ele consegue esculpir os fatos, fazendo do enredo um deleite do leitor. Assim, desenrola o tempo cronológico como se trouxesse na caneta o fio de Ariadne com o qual desnuda o labirinto literário da prosa. Dá a cada espaço da narrativa uma característica próxima do ambiente em que vive a gente sofrida  do sertão de sua terra. Narra os fatos, comumente, na terceira pessoa, dando prevalência ao narrador objetivo que o é. Ademais,  artesoa um discurso direto, através do qual ele repassa a linguagem simples de cada personagem, porque sabe abocanhar com arte   diversos dialetos brasileiros.

Dentro de uma outra perspectiva, Reis, em “FLOR MULHER”, transforma-se em um romeiro da poesia propriamente dita,  ocasião em que seus versos são, comumente, livres e brancos, arborizados de uma polivalência vocabular que sugere uma simbologia que escapa dos termos dicionarizados. A partir do título “Flor Mulher” – Reis  metaforiza seu espaço poético, partindo da comparação implícita entre a mulher e a flor. Põe à margem toda a sua verbalização até então denotativa para adentrar  o espaço conotativo da obra lírica. E o faz como um posseiro do vernáculo intimista dos poetas.

O mestre Antonio Cândido, quando fala de “Marília de Dirceu”, diz com propriedade, que Gonzaga, “mais do que o cantor de Marília,  é o cantor de si mesmo”. Parodiando o mestre, poderíamos dizer, sem quaisquer sombras de dúvida, que o eu-lírico de “Flor Mulher”,  desmente a preocupação pela temática feminina e  coloca a temática masculina como sendo aquela que revela a idéia imagística da flor, senão vejamos: “aparentemente durmo./Sonhando com o amor./Coisas do passado/que no presente marcaram/lembranças das aventuras de outrora,/marcas indeléveis de anos dourados/que o vento do tempo eternizou./Acalanto esperanças do hoje ser amanhã. / Só que o amanhã passou/ levando consigo o homem/ que se rejuvenesce nas encruzilhadas/do amor.”

As três faces do Reis que procuramos mostrar neste pequeno trabalho ainda são poucas para que avaliemos o escritor que amadurece a cada obra.  Bom para o Maranhão que ainda consegue sentir-se o pai dos filhos  áticos. Regozijamo-nos com esta fortuna que  ainda persiste.

 

Escrito por wanda.cunha às 19h07
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14/03/2008


CARLOS CUNHA E A TROVA NO MARANHÃO


Por Wanda Cristina

 


Neste bate-papo, vou falar sobre Carlos Cunha, o trovador. Mas o leitor sabe o que é trovador, sem necessariamente ter que falar no trovadorismo medieval? Trovador é o que faz trova. A trova, por seu turno, é aquela quadra, formada por quatro versos, que rimam de forma alternada, ou seja, o primeiro rima com o terceiro e o segundo com o quarto (ABAB). Abaixo, por exemplo, uma trova que Carlos Cunha fez a São Luís:

 

“São Luís é uma cidade

Que se veste de azulejos

O mar, quando tem saudade,

Banha seu rosto de beijos!”

 

Pra falar em trova, basta que eu diga: é uma quadra popular. Mas, para falar do trovador Carlos Cunha (CC), tenho que retomar o ano de 1970,  quando ele publicou o seu terceiro livro, intitulado Eu e a Academia Maranhense de Trovas, um verdadeiro registro de nascimento da trova no Maranhão, onde expõe o estatuto da Academia, os principais artigos que fizera em prol de sua fundação e algumas de suas produções como trovador.

Pra começar, em meados da década de sessenta, CC foi à Bahia fazer um curso de cabo. Em lá chegando, conheceu as maiores expressões da literatura baiana, dentre as quais Jorge Amado e outros intelectuais que dividiam a mesma roda boêmia de Salvador.

Entre baianos, manteve contato com muitos trovadores, posto que a trova era uma manifestação folclórica do Nordeste brasileiro. Em retornando ao Maranhão e usando a sua pena de jornalista, convocou todos os trovadores, por meio da imprensa, para uma sessão na qual seria estabelecido o Movimento dos Trovadores Maranhenses. Dessa iniciativa, ele, juntamente com outros trovadores, do quilate de Virgílio Domingos Filho, Carlos Cardoso e outros, fundaram a Academia Maranhense de Trovas (AMT), da qual fora o seu primeiro presidente.

No sábado do dia 07 de dezembro de 1968. às 15h horas, na Rua do Sol, 156, nasceu a Academia Maranhense de Trovas.

No dia 03 de maio do ano seguinte, na sede da Academia Maranhense de Letras, na Rua Cel. Colares Moreira, 84, em sessão solene presidida pelo Exm° Sr, Governador do Estado, José Sarney, e secretariada pelo poeta-trovador Carlos Cardoso, a primeira Diretora da AMT fora empossada: Carlos Cunha, presidente; Vice-presidente: L. Porciúncula de Moraes; 1° Secretário: Carlos Cardoso; 2° Secretário: Nicanor Azevedo; Tesoureiro: Antônio Alves Monteiro e Bibliotecário: Virgílio Domingues da Silva.

A AMT, a partir de então, continuou a receber, nos seus quadros, ilustres trovadores, da essência de Conceição de Maria Gomes de Oliveira, Antônio Alves Monteiro, Vicente Maya, Olímpio Cruz, Florise Pérola Castro Vasconcelos, Dagmar Desterro e Silva, Emilio  Azevedo, Fernando Viana, Sá Vale Filho e outros.

Florise Pérola (apud CRISTINA, 1999, p.12) em matéria publicada exclusivamente pelo jornal “Atos e fatos”, informa que, naquela época, para ocupar uma cadeira da Academia Maranhense de Trovas, o candidato teria que escrever cem trovas, as quais seriam julgadas por um dos membros da entidade. As cem trovas de Florise deram-lhe o passaporte para entrar na Casa dos Menestréis.

No início da década de setenta, os trovadores fundaram o jornal “O Coruja” e “ Cantinho do Trovador”, seção dominical do jornal “O Imparcial”, por meio dos quais divulgavam o espírito do movimento. A entidade ganhou respaldo em outros Estados. Seus representantes passaram a participar de eventos trovadorescos fora do Maranhão, trazendo vários diplomas de honra ao mérito pelas trovas apresentadas.

Quando da comemoração do Dia do Trovador, em 18 de julho, organizavam-se caravanas de menestréis, que percorriam, em festivais, vários municípios maranhenses, dentre os quais Barra do Corda, Coroatá, Codó, Caxias, Timon e a cidade vizinha, Teresina. Ainda no início de 70, Carlos Cunha foi eleito Delegado da União Brasileira dos Trovadores no Maranhão. No dia 23 de março de 1971, o presidente da União Brasileira de Trovadores (UBT), Luís Otávio, cognominado o “príncipe dos trovadores brasileiros”, instalou a UBT de São Luís, quando empossou a diretoria da União e proferiu palestra sob o tema “A importância da trova na Literatura Brasileira”.

Sobre o trovador Carlos Cunha, escreve Félix Aires (apud CUNHA, [197-], p.7-9), no prefácio da obra Azulejos e Vitrais, de Carlos Cunha, feito em um único exemplar, em datilografia.

 

“A trova pode inspirar um belo feito, serenizar uma alma prevenir um cometimento, avisar a sociedade, auxiliar o regime, porque significa a preferência do público, porque não toma o precioso tempo de ninguém. Sintetiza um mundo de coisas, na insignificância de suas quatro linhas, arma com isso a urna dos nossos votos mais altos e elege somente os mais dignos! A trova requer uma linguagem própria, uma suavidade que só a inspiração sabe ensinar”. (..) Carlos Cunha é o marco que separa dias, épocas literárias no Maranhão. Antes dele não existia esse movimento de renovação. Valores isolados se distanciavam, nem mesmo havia a comunhão que hoje se distingue, a força que ora se prepara, o reduto que se adestra uníssona, construindo o seu tempo. Jovem, vibrante, rebelde, incontestado – um agitador – poder-se-ia dizer, mas, oportuno e construtivo. Às vezes briga pela rutilância do bom nome da terra amada. Quebra lanças pelos companheiros. Mete a mão no bolso e paga as despesas. Constrói oportunidade e defende causas. Grita e abre caminho, da mesma forma que concorda e harmoniza atividades. Vale-se do verbo e faz o diálogo. Capaz de encomendar as flores todas dos jardins maranhenses para enfeitar sua deusa. Jovem, aprende; professor, ensina; poeta, canta; jornalista, discute; declamador, surpreende! Cavalheiro, honra sua geração, a que ele chama de maior, sem demolir os novos valores, porque conhece a humildade, e sabe do que sempre acontece ao que se exalta. O equilíbrio está na sensatez que forma virtude.

 

Escrito por wanda.cunha às 17h19
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13/03/2008


A ESTRUTURA SIMBOLISTA NOS TÍTULOS DA OBRA DE CARLOS CUNHA - Por Wanda Cristina


Parte  I

Hoje vou falar sobre os títulos dos livros de Carlos Cunha. Em princípio, devo dizer que expressividade oriunda dos títulos dos livros de Carlos deve-se, quiçá, à sua experiência na área jornalística. Nas redações de jornais, aprendeu, entre outras coisas, que o título serve de sustentação para curiosidade do leitor em relação à notícia. É o elo entre texto e leitor que objetiva a leitura, à luz do entusiasmo, do interesse e da atualidade.

No jornalismo, o leitor adentra a notícia levado pelo interesse que o título desperta. Em sendo assim, o título é a tradução sucinta da notícia, o seu resumo, a sua razão aparente, o seu (pré)texto. Para tanto, deve ter como alvo a curiosidade do leitor. Com o intuito de transformar um (pré)leitor em leitor de suas obras literárias, Carlos Cunha usou o mesmo artifício de convencimento comum no jornalismo, que seria o cuidado na elaboração dos nomes dados às obras.

Títulos inexpressivos podem permitir que a notícia ou uma obra passe in albis[1], mesmo que, em seu interior, título e livro sejam interessantes. Logo, o título é a fachada, o carro-chefe, a porta de entrada, a chamada do leitor para qualquer matéria, quer jornalística, quer literária. Por isso, nos jornais impressos, a primeira página sempre fica reservada para as manchetes, que são títulos expressos que direcionam o leitor aos textos existentes no interior do periódico.

Na revista, este papel cabe com mais rigor à capa. Uma boa capa de revista induz o leitor a escancará-Ia aos olhos. No livro, o escritor deve ter o cuidado de compartilhar a sugestão do título com o artista que faz a capa, porque, capa e título devem formar um conjunto perfeito como eficiente (pré)texto da obra literária. E nisso Carlos Cunha foi original.

Há vários autores que acabam por repetir títulos já usados em outras obras. Com CC foi diferente. Os tropos trabalhados por Carlos Cunha são duais, cuja ordem sintagmática, geralmente, aglomera sujeito e adjunto adnominal, que ficam dispersos das suas relações oracionais com o predicado que, implicitamente, seria o texto literário. A maioria dos títulos é feita a partir de um sintagma nominal que se biparte em outros, como é o caso de As Lâmpadas do Sol, Rosa de Alumínio, O Caçador da Estrela Verde, Cancioneiro do Menino Grande.

Assim, na fusão, na combinação ou reunião de dois ou mais elementos sintagmáticos, vai haver um determinante que estabelece elo de subordinação com o determinado, capaz de formar uma unidade locucional, como Rosa de Alumínio, em que alumínio é determinante de rosa.

Os títulos de Carlos Cunha levam à existência de um paradoxo que entremostra o cruzamento de significados aparentemente opostos, criando um discurso dialético entre o determinante e o determinado.

Essa ramificação sintagmática permite que os títulos sejam expressivos e, ao mesmo tempo, sugestivos, o que lhes confere a condição de simbolistas. Observa-se amiúde o cromatismo que emerge, por exemplo, de As Lâmpadas do Sol. Vê-se a presença do sol, que indica luz. E só há cor, onde há luz. Somente o preto resiste à ausência da luz, até porque não caracteriza uma cor, pois, na verdade, é a ausência dela. Logo o sol, no título em análise, é aquele que brilha, que irradia, que ilumina e do qual se extraem as cores.

As Lâmpadas, nas quais se encontra a energia elétrica, são transformadas em energia térmica, porque dotadas de calor humano e luminosidade espiritual, oriunda do sol. É a luz que sai pelas frestas dos títulos para adentrar a receptividade do leitor. As lâmpadas, pelo artificialismo a que estão sujeitas, surgem apagadas, em tom escuro, mas recebem o clarão emergente do Sol, cuja vogal o conota uma alegria mística. É a natureza do sol se contrapondo ao artifício das Lâmpadas. Mas como as lâmpadas pertencem ao sol (AS LÂMPADAS DO SOL), elas estão sempre dotadas de luz natural, que é, em conseqüência, profundamente humana e espiritual.

Como a obra enfoca um panorama da cultura maranhense, apresentando escritores e obras, à luz de um estudo crítico literário, eles conotam o elemento determinado, representado pelas lâmpadas; e o sol, em sendo determinante, conota o próprio Maranhão, celeiro de artistas e pensadores. Contudo, vale salientar que o próprio Carlos Cunha sempre esteve ligado intimamente ao sol, sem contar que durante muito tempo morou na Rua do Sol, onde deixou páginas do seu cotidiano, principalmente ligadas à Educação maranhense.

Em O Caçador da Estrela Verde, a sugestão ainda é de cores. Traz-se à baila a classificação que Arthur Rimbaud[2] deu às vogais. Sob este ponto de vista, verifica-se que o caçador traduz aquele que, em estando num mundo negro, com a predominância da vogal a, tenta, através da Estrela Verde, onde há o predomínio da vogal e, buscar um tempo de luz, feito com luta, em prol da esperança. É o caçador no mundo das guerras visíveis, como a do Vietnã, contemporânea de Carlos Cunha. A Estrela Verde seria um tempo novo, em busca das igualdades sociais e de um estado de espírito mais saudável. Em sendo O Caçador da Estrela Verde, o seu livro de memórias, Carlos Cunha demonstra que tudo que fez ao longo da vida, como homem e profissional, fê-Io em favor de um mundo saudável para ele e para os seus semelhantes.

Nesse patamar, estrela e sol são elementos interplanetários dos quais o escritor tomou posse para construir o seu ideário de justiça. Esse ideário parece distante, entre as nuvens, fazendo do escritor, em suas memórias, um nefelibata. Mas ele acredita nesse mundo e, por isso, transforma  as suas memórias em um longo percurso à Estrela Verde, da qual deseja ser um habitante.

Em Ballet de Santos e Demônios, vê-se a representação dramática entre o bem e o mal, a combinar a dança, a música e a pantomina da alma dos homens, sob a sugestão dos defeitos e virtudes, do bom e do ruim, de que eles são feitos; a dança entre o bem e o mal. A dobra da consoante I traduz a dupla face do ser humano, em sua dicotômica condição de matéria e espírito, entre a treva e a luz (I entre as vogais a e e sobre as quais falava Rimbaud).



[1] Verbete: in albis

(in álbiç) [Lat., ‘em branco’.]

1. Sem noção alguma daquilo que deveria saber; sem a menor sombra de conhecimento: estar, ficar in albis. (Dicionário Aurélio Buarque – eletrônico)

[2] Poeta simbolista francês cujo propósito era que o leitor, através das palavras, percebesse as sutilezas das sensações. Deu cor às vogais e procurou regular as formas e movimentos de cada consoante , inventando um verbo poético que chegasse a todos os sentidos. Para ele, a vogal a traduzia a cor negra; a e, a cor branca; a i, a cor vermelha; a o, a cor azul; a u, a cor verde).

Escrito por wanda.cunha às 16h30
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A ESTRUTURA SIMBOLISTA NOS TÍTULOS DA OBRA DE CARLOS CUNHA - Por Wanda Cristina

Parte II

Quando arrolada a Rosa de Alumínio, cai-se no vislumbre da natureza através da rosa, denotando ternura e feminilidade, enquanto alumínio é algo másculo e resistente, de natureza química. Há a antítese do que é frágil enquanto rosa e do que é durável como alumínio. Dois extremos que se permeiam e se completam para formar o sentido escultural de um discurso poético, feito em forma de título. Ainda, retoma-se a condição do duelo entre a naturalidade que vem da rosa e a artificialidade que vem do alumínio. A primeira, produto do Deus; o segundo, produto do homem, como a sugerir que o homem modifica a natureza. Por isso a rosa não é apenas rosa.

Considerando que a predominância, nesse trabalho, são palestras sobre a Universidade Maranhense, dir-se-ia que tal entidade de ensino superior, sujeita aos problemas por que passa, mas em resistindo a eles, acaba sendo uma rosa de alumínio.

Também em A Páscoa das Gaivotas, o título sugere a música, que bem se expressa através da palavra páscoa, que sinonimiza festas: a dos pastores nômades, na época pré-mosaica, a da saída dos hebreus do Egito ou a da ressurreição de Cristo. Mas, no caso, a música vem atrelada às gaivotas, que também são cobertas de penas coloridas, mormente brancas e cinzas. Também se observa que, se há festa., e se a festa é das gaivotas, elas cantam e dançam em vôos ritmados, dando mais ênfase à musicalidade sugerida. Interessante notar que, nesse livro, a capa é toda azul contrastando com uma afirmação de Picasso, cuja tipologia é feita em branco, dando mais singeleza ao cenário no qual se edificou o título (v. Anexo 5.2). As gaivotas seriam os artistas plásticos maranhenses, na festa de suas produções artísticas, reunidas por Carlos Cunha.

Em Pesadelos da Ilha, há a presença da personificação, da prosopopéia. A Ilha vê-se diante dos maus sonhos, que fazem a ciranda da obscuridade, do ininteligível e da névoa, trazidos à tona por Mallarmé. "Sugerir, eis o sonho". A sugestão, neste título, é de pesadelos, que são névoas dos fatos produzidos pela sociedade de uma ilha, os quais conotam maldade, maldição, razão por que ela não consegue dormir feliz. Aqui o título é mais mallarmeico, mais nebuloso. No livro, enquanto ratifica a frase de James Joyce, que a "história do homem é feita de pesadelos" (Op. cit.), Carlos Cunha acaba por acrescentar que os homens, em desempenhando mal os seus papéis na história, transferem os seus pesadelos à ilha em que vivem.

Moinhos da Memória são lembranças espicaçadas, trituradas que estão em constante processo de rotatividade. É como se os fatos ocorridos fossem cereais que jogados nos moinhos das memórias se transformassem em farinhas das idéias. Moer memória é lembrar sempre; é nunca esquecer. Os moinhos da memória são máquinas de lembranças. Aqui, também, a preocupação do artista em deixar sempre vivo algo que poderia ter sido esquecido e que deve continuar existindo, mesmo que seja nas lembranças. Quando, nesse livro, faz um estudo crítico dos escritores nacionais, fá-lo no sentido de registrar e deixar para a posterioridade a literatura brasileira do seu tempo.

Em No Porão da Eternidade, há, em primeiro momento, uma idéia de escuridão e solidão, trazida sob a túnica da palavra porão, que remete ao lugar entre o chão e o assoalho ou entre o convés mais baixo de um navio e o teto do duplo-fundo ou o fundo, onde residem a solidão e as coisas esquecidas ou em desuso. Conquanto, em parceria com a palavra eternidade, o porão passa a ser um lugar que guarda o imperecível. A eternidade parece oculta ou resguardada num local sombrio, melancólico, fúnebre. Não lembra a morte, mas lembra um outro lado da vida, cheio de espiritualidade, na qual ficam guardadas as coisas etéreas, distantes, longínquas da matéria. Como Moinhos da Memória, a proposta é eternizar, deixar para a posteridade aqueles que tão bem representaram o seu tempo.

O Lado Visível traduz a idéia de que, se existe um lado visível, deve haver um outro que o complete. Não pode existir uma metade sem uma outra para que, juntas, formem o todo. Assim, também é o lado, algo partido, fragmentado, desinteiro. E se existe um lado e este lado está visível, deve haver um outro lado que ninguém vê, e este lado é o espírito. Então, o lado visível dá idéia do conhecido, do claro, do óbvio. E o que é visível, está no plano material, no plano terreno, no plano social, econômico, no plano político vigentes. E é só através da existência, da percepção deste lado visível, que se tem conhecimento de que há o outro lado: o espiritual. Essa percepção do lado visível é uma característica simbolista, porque foi a partir da percepção de um mundo conhecido e que já o não satisfazia, que o poeta simbolista foi à cata de sua espiritualidade. No livro, dentro de uma proposta jocosa, aponta alguns aspectos folclóricos da vida política maranhense, visivelmente observáveis no cotidiano.

Cancioneiro do Menino Grande inspira novamente a canção, a musicalidade; traz de volta a idade média, a lira que era cúmplice das cantigas; também, traz de volta Orfeu. O menino grande é um fazedor de cantigas, mas o fato de ele ser menino e de ser grande é que cria o fenômeno do paradoxo e esse paradoxo, por ser paradoxo, tem duas faces. E a primeira seria o fato de, embora passados os anos, ele cresceu, mas não envelheceu, continuou menino. A segunda seria o fato de o menino ser grande, por ser bom. A estrutura semântica da segunda face do paradoxo é que toma verdadeira a primeira face. Grande seria sinônimo de bom, porque grandeza é sinônimo de generosidade. O menino era bom, tão bom, que cresceu, mas não envelheceu, não mudou, não se corrompeu. Por isso, a vida do menino, sempre foi feita de cantigas, de canções, de música; a vida do menino sempre foi um cancioneiro.

Carlos Cunha, em entrevista a Jorge Nascimento (1983, p. 45), em reportagem poética publicada sob o título de Carlos Cunha: um homem dominado por forças estranhas, aponta as suas origens simbolistas, dentro de um patamar eminentemente espiritual:

 

Sou espiritualista. Sinto, exercendo poder sobre todas as coisas, uma força superior. O homem sempre teve necessidade de acreditar em alguma coisa. Eu acredito e respeito esta força absolutamente transcendental, desconforme, infinita, que criou o homem e todas as coisas conhecidas e desconhecidas ainda dentro do universo. Amo a vida e respeito profundamente a morte.

 

Sobre a música existente na poesia de Carlos Cunha, assim se pronuncia o jornalista e escritor Walbert Pinheiro (1968, não paginado):

 

Cheguei a pensar, certa época, que Carlos Cunha de poesia soubesse apenas dizê-la. Julguei que Carlos Cunha fosse apenas o melhor declamador do Maranhão e um dos melhores que já ouvi. Mas ele se revelou, pouco depois, o poeta. Sua poesia, é certo, ainda não está definida, mas ele já é um maravilhoso encantador de serpentes. A música de seus versos sabe domar e encantar. Também seria demais que um declamador daqueles fosse apenas um declamador. É preciso ser poeta para dizer assim, com tanto sentimento, com tanta força, com tanta alma, com tanta comunicabilidade.

Não me causou, assim, tanta surpresa, o poeta que Carlos Cunha estava tirando do tabuleiro de sua alma, mas, positivamente, não pensei que esse poeta surgisse tão marcadamente espontâneo.

 

 


Escrito por wanda.cunha às 16h23
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1. CARLOS CUNHA E MARANHÃO SOBRINHO: EXPRESSÕES MÍSTICAS E RELIGIOSAS, por Wanda Cunha

 

 


PARTE I


Resolvi confrontar duas Terezas: a de Carlos Cunha, em “Soneto para Catedral”;  e a de Maranhão Sobrinho, em “Sóror Teresa”.

Quando os formalistas russos rejeitaram o estudo da gênese literária, contrapondo-se à sociologia e ao biografismo, requereram a análise textual fechada, porque admitiam ser o texto um sistema fechado, fato gerador, quiçá, de uma análise estática, sem condições de exame das relações que o texto poderia estabelecer com outros elementos extratextuais. Porém, Jakobson e Tynianov, conforme a professora Tânia Carvalhal (1998, p. 46-47) ao suplantarem o formalismo escolástico, que preferia a catalogação dos fenômenos às suas análises, contrapuseram-se às idéias do comparativista que tinha por alvo uma imagem ou um tema ou mesmo um verso ao longo de textos diferenciados. Dentro desse prisma, não é mais considerado o elemento em si, mas a função que cada um exerce em cada contexto. Destarte, embora o elemento rastejado seja o mesmo, transformar-se-á em outro, dada a nova função que lhe foi conferida.

A priori, lê-se Soneto Para a Catedral (CUNHA, 1989, p. 23)

 

Eu vi Tereza no teu altar rezando

Preces de amor na festa do noivado.

Era um anjo, sereno, imaculado;

Ou, uma rosa em paixão se confessando

 

Depois, eu vi Tereza iluminando

 Teu simbolismo em ouro cravejado,

 Eu vi Cristo sorrir crucificado

 Vendo no altar Tereza se casando.

 

Hoje, porém, a rosa já não brilha;

Já não sinto e ouço a voz da minha filha

Que tão cedo partiu para a eternidade

 

E o Cristo que sorriu para Tereza

No mesmo altar solução de tristeza

Procurando conter minha saudade.

 

 

Em “Soneto para Catedral”, Carlos Cunha rejuvenesce o poema de forma fixa de Petrarca, usando também a métrica de dez sílabas para, em rimas alternadas, traçar o perfil afetivo e imagístico da catedral.

Maranhão Sobrinho que, na visão de Antônio Lobo (1970, p. 51-53), é um poeta romântico, parnasiano e simbolista, também versou sob a mesma temática no soneto intitulado Soror Teresa, publicado em seu livro Papéis Velhos e transcrito em Os Novos Atenienses (Id. Ibid., p.54). E, em confronto,  os versos de M. Sobrinho e os de Carlos Cunha estão próximo tão-somente pelas aparentes espiritualidades a que ambos os textos remetem.

Lê-se Sóror Teresa, de Maranhão Sobrinho:

 

... E um dia as monjas foram dar com

ela morta, da cor de um sonho de noivado.

no silêncio cristão da estreita cela, lábios

nos lábios de um Crucificado... somente a

luz de uma piedosa vela ungia, como um

óleo derramado.

o aposento tristíssimo daquela

que morrera num sonho, sem pecado...

 

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,

E ninguém soube de que dor escrava

Morrera a divinal Soror Teresa...

Não creio que do amor a morte venha,

Mas sei que a vida da Soror boiava

Dentro dos olhos do Senhor da Penha...

 


CONTINUA....


Escrito por wanda.cunha às 01h19
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2. CARLOS CUNHA E MARANHÃO SOBRINHO, EXPRESSÕES MÍSTICAS E RELIGIOSAS, de Wanda Cristina


Parte II


Carlos Cunha e Maranhão Sobrinho foram tidos, pelas suas gerações, como irrequietos, mas não é essa similitude de gestos que aproxima os dois poetas; é a similitude das expressões místicas e religiosas. Maranhão Sobrinho, no soneto ora transcrito, também vai trabalhar o decassílabo em rimas alternadas, sob a mesma temática. Embora usando a expressão divinal, coloca soror Teresa num plano de devoção humana. Já Carlos Cunha, ao desfechar os três últimos decassílabos, adentra o fenômeno do antropomorfismo, transfere ao Cristo sua condição humana de chorar e sentir saudades de Tereza.

Os tropos de Soneto Para a Catedral fazem a cadeia da religiosidade a que está ligado o eu-poético. Já em Soror Teresa, a cadeia de religiosidade já não está ligada eu-poético, mas a soror Teresa. A começar do título, o soneto de Carlos Cunha já sugere a prevalência do plano espiritual. O soneto poderia ser intitulado tão-somente Tereza, como Soror Teresa, de Maranhão Sobrinho ou O Adeus Para Teresa, de Castro Alves. Nesse aspecto, o poeta omite a figura da mulher, transferindo essa feminilidade à própria Catedral. É, pois, a catedral a musa do poeta, com os seus ícones dotados de sublimidade e mistério, cuja figura arquitetônica e espiritual vê-se descrita em todos os quartetos e tercetos, invocando não o aspecto físico, mas transcendental. Os substantivos que configuram essa assertiva são: altar, preces, festa de noivado, Cristo, eternidade, que se acasalam aos verbos, mormente no gerúndio: rezando, confessando, iluminando, casando. Essas rimas no gerúndio são características do impressionismo, no sentido de fazer valer a continuidade da ação. Sabe-se que o impressionismo (disponível na Internet no endereço http://members.xoom.com/XMCM/ink_br/impressionismo.htm) foi uma atitude na expressão de que se serviram, também, os simbolistas.

 

O impressionismo se caracterizou por ser um estilo fundamentalmente sensorial, no qual a natureza não era vista de forma objetiva e sim, interpretada (o que valia era a verdade do artista). Nele houve a valorização do anacoluto, da metáfora, da comparação e o uso de formas verbais como o gerúndio, o imperfeito do indicativo, o infinitivo precedido pelo "a" e outras, dando a idéia de continuidade da ação.

 

Em Soror Tereza, a imagem que se aproxima da catedral, enquanto alusão arquitetônica, é o mosteiro, cuja presença é secundária e visivelmente masculina. Sóror Tereza está fisicamente no mosteiro, mas a sua presença vai figurar nos olhos do Senhor da Penha, encerrando um comentário do eu-poético, que, por sinal, é um narrador, dada a consistência narrativa e descritiva que flui do texto. Os adjetivos também conotam a essência da religiosidade. No plano de Carlos Cunha, encontram-se imaculado, crucificado e sereno; no Plano de Maranhão Sobrinho, crucificado, piedosa, cristão e divinal.

As expressões simbolismo em ouro cravejado e rosa em paixão são os dois perfis do soneto de Carlos Cunha, sinonimizando, respectivamente, a catedral e Tereza. Anjo é a palavra que, embora ligada à Tereza, completa a mobília cristã que se aninha no plano metafórico do poeta, ressaltando o ser transitório que é Tereza, efêmero, frágil e puro, estabelecendo equanimidade à rosa, com a qual faz alternância nos dois últimos versos do primeiro quarteto.

O que estabelece a prevalência da Catedral sobre Tereza é o fato de que tudo ocorreu dentro da Catedral, dentro do aspecto religioso; Tereza estava dentro da Catedral; e que, depois que Tereza saiu da catedral, ainda assim, era como se a catedral, configurando a religiosidade, continuasse a existir num plano superior, tornando efusiva a transcendência.

Contrariamente, o que estabelece a prevalência de Soror Tereza sobre o mosteiro é que tudo ocorreu dentro de soror, através de um profundo sentimento de fé.

Noivado e casando, dentro do plano semântico do soneto de Carlos Cunha, conotam um rito social. No soneto de Maranhão Sobrinho, o termo noivado estabelece-se no plano cristão. A morte surge sobre a descrição da vela e justifica-se pelo adjetivo divinal. Soror não era do mosteiro; Soror era de Deus.

Vida e morte explicadas. Tereza já não estava na catedral, enquanto ser vivente, mas só a Catedral, esponjando eternidade, era capaz de deixar Tereza ressuscitada aos quatro cantos do seu simbolismo em ouro cravejado. É a figura de Cristo quem traz Tereza de volta, no seu antropomorfismo de sentir tristeza para conter a saudade do eu-poético. Catedral é, pois, símbolo da personificação. A morte da filha marcou o poeta, conforme depoimento abaixo transcrito (NASCIMENTO, 1983, p. 46):

 

Sou um homem marcado por profundas emoções. Nada me deixou na vida mais abatido do que a ausência de Teresa (filha mais velha do professor Carlos Cunha), mas sou e nasci dotado de forças estranhas. Renovo-me diariamente, assim como morro e nasço todos os dias

 

Faz-se a observação de que a filha mais velha do professor Carlos Cunha não foi Tereza, mas Isabel, embora sendo  aquela que o acompanhava em recitais de poesias, declamando textos de Jorge de Lima, Fernando Pessoa, José Régis, Murilo Mendes e Manuel Bandeira, porque herdara do pai a arte de declamar.

 


 

Escrito por wanda.cunha às 01h11
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E POR FALAR NO POETA, de Wanda Cristina

Trago alguns estudos sobre Carlos Cunha, mas não tenho pressa em publicá-los, nem sei se serei eu a publicá-los. A essência, por exemplo, do poeta ainda não foi difundida. Guardo um perfil do Carlos Cunha que sabia burilar com maestria os versos da medida velha. Também tenho  o registro do poeta que, em sendo contemporâneo do Modernismo, também soube dar aos versos brancos e livres à sua verve literária. Mas sem postergar esses dois extremos de sua poética, Carlos Cunha deixou para a posteridade uma safra de sonetos que se filia, sob o lume de um estilo humanístico inusitado, à corrente petrarquiana.

A leveza em trabalhar versos considerados da medida nova, faz dos seus decassílabos uma obra escultural, sem encarniçar o que os parnasianos chamaram de  arte pela arte, pois, se nos sonetos carloscunhianos há o prumo pela forma, também há o quilate, em prol do conteúdo.

Mas hoje eu prefiro falar sobre o poeta Carlos Cunha simbolista, que fazia denúncias sociais por meio da sinestesia, dentro de um discurso multicor, da mesma forma que o fizera Cruz  e Souza ao trabalhar “formas claras, formas alvas, formas fluidas e cristalinas” sob o espírito da denúncia e do protestos, reivindicando à luz da estética literária, da mesma forma que o fez Carlos Cunha ([197-], p. 45) em poemas como o abaixo transcrito:

 

POEMA SEM NÓDOA DO TEMPO LIQUEFEITO (Luiz Carlos da Cunha, conhecido como Carlos Cunha, maranhense)

 

Eu procurava, no meu subúrbio colorido,

Acender o lume das auroras, mas as minhas manhãs

Eram desidratadas e, sempre que olhava o céu,

Sentia o gosto de azul na boca.

Com aquela rosa de alumínio batia à minha porta

Um trecho de órgão que procurava sufocar a minha infância. Eu cresci num sufrágio de porquês,

Mas, no horário dos sinos também.

A minha tristeza morreu servida numa taça

E, das grandes madrugadas sonolentas,

Roubei o brilho de um peixe

E fiz minha canção.

 

Constitui-se a poesia em um poema em prosa, onde não há nenhuma preocupação com a métrica. Contudo, dentro de uma avaliação semântica, está carregado de significados, a derramar expressões sugestivas de grande valor e consistência metafórica.

Nesse mundo textual, o poeta volta ao passado, sem cultuá-lo com a pieguice característica dos românticos. Os três primeiros versos denotam a condição humilde do eu-poético, que se manifesta através da palavra subúrbio e do adjetivo desidratadas. Já o adjetivo colorido é a palavra de efeito, que encharca de sugestão o sentido visual da infância. A infância está caracterizada pelos verbos no passado e em expressões como auroras, não no sentido astronômico[1], mas aquele que, na linguagem figurada, significa o início da vida; a infância, conforme usou Casimiro de Abreu em Meus Oito Anos. E manhãs, por seu turno, não é o sentido do nascer do sol ao meio-dia, mas retrata o figurativo de princípio, começo, desabrochar. Assim, auroras e manhãs fazem a mixórdia de um momento escuro do qual se extrai a tênue luz de um acendedor de anseios, porque o poeta intencionava acender as auroras, mesmo que as manhãs fossem desidratadas.

A degustação que o eu-poético faz do céu, através do azul, é uma sinestesia que conota a religiosidade e que, ao mesmo tempo, desmascara a fome e desmascara a fragilidade da matéria. A perda de água, sugerida pelo adjetivo desidratadas era imposta pela causalidade da fome. A fome induz à ociosidade do paladar, mas quando o eu-lírico sentia o gosto de azul na boca, ao olhar o céu, dava à fome uma compensação espiritual. Vê-se a coloração dada ao paladar.

O alumínio desmente a rosa (que é a espécime natural do eu lírico, com suas necessidades biológicas), que, por sua vez, vê-se corroída pelo alumínio que resiste à corrosão. Não se pode também deixar de ver que esse mesmo alumínio é a metonímia da panela onde não houve a cocção da comida, razão por que a infância assistiu às desigualdades sociais.

Se o eu-lírico sofria as perseguições impostas pelas necessidades orgânicas e materiais, também compensava essas perseguições com a espiritualidade e a religiosidade com que fora agraciado, ao crescer, também, no horário dos sinos (que lembram o bronze, as igrejas, a musicalidade, as horas). Eis a razão para o poema não ter nódoa nem denotar mágoas.

O fato de a tristeza ter nascido da circunstância de um não-ter, a mesma tristeza morreu, sob o requinte do ter, e a taça é o tropo das mudanças, da vitória, e nela o poeta bebeu o seu tempo liquefeito.

Mesmo das circunstâncias nebulosas, das madrugadas em que esteve acordado, o eu-poético soube roubar o brilho de um peixe, pescando entre o céu e o mar, a sua resistência. O eu-lírico poderia roubar o peixe para alimentar-se fisiologicamente, mas preferiu roubar-lhe o brilho a continuar na escuridão, preso às coisas fúteis, passageiras e materiais, pois acreditava no transcendental. Assim, a partir desse brilho ele fez a canção que daria ritmo à sua vida futura.

 

 

 



[1] “Período antes do nascer do sol, quando este já ilumina a parte da superfície terrestre ainda na sombra”. (Dicionário Aurélio Buarque – eletrônico).

Escrito por wanda.cunha às 00h30
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