A ESTRUTURA SIMBOLISTA NOS TÍTULOS DA OBRA DE CARLOS CUNHA - Por Wanda Cristina
Parte II
Quando arrolada a Rosa de Alumínio, cai-se no vislumbre da natureza através da rosa, denotando ternura e feminilidade, enquanto alumínio é algo másculo e resistente, de natureza química. Há a antítese do que é frágil enquanto rosa e do que é durável como alumínio. Dois extremos que se permeiam e se completam para formar o sentido escultural de um discurso poético, feito em forma de título. Ainda, retoma-se a condição do duelo entre a naturalidade que vem da rosa e a artificialidade que vem do alumínio. A primeira, produto do Deus; o segundo, produto do homem, como a sugerir que o homem modifica a natureza. Por isso a rosa não é apenas rosa.
Considerando que a predominância, nesse trabalho, são palestras sobre a Universidade Maranhense, dir-se-ia que tal entidade de ensino superior, sujeita aos problemas por que passa, mas em resistindo a eles, acaba sendo uma rosa de alumínio.
Também em A Páscoa das Gaivotas, o título sugere a música, que bem se expressa através da palavra páscoa, que sinonimiza festas: a dos pastores nômades, na época pré-mosaica, a da saída dos hebreus do Egito ou a da ressurreição de Cristo. Mas, no caso, a música vem atrelada às gaivotas, que também são cobertas de penas coloridas, mormente brancas e cinzas. Também se observa que, se há festa., e se a festa é das gaivotas, elas cantam e dançam em vôos ritmados, dando mais ênfase à musicalidade sugerida. Interessante notar que, nesse livro, a capa é toda azul contrastando com uma afirmação de Picasso, cuja tipologia é feita em branco, dando mais singeleza ao cenário no qual se edificou o título (v. Anexo 5.2). As gaivotas seriam os artistas plásticos maranhenses, na festa de suas produções artísticas, reunidas por Carlos Cunha.
Em Pesadelos da Ilha, há a presença da personificação, da prosopopéia. A Ilha vê-se diante dos maus sonhos, que fazem a ciranda da obscuridade, do ininteligível e da névoa, trazidos à tona por Mallarmé. "Sugerir, eis o sonho". A sugestão, neste título, é de pesadelos, que são névoas dos fatos produzidos pela sociedade de uma ilha, os quais conotam maldade, maldição, razão por que ela não consegue dormir feliz. Aqui o título é mais mallarmeico, mais nebuloso. No livro, enquanto ratifica a frase de James Joyce, que a "história do homem é feita de pesadelos" (Op. cit.), Carlos Cunha acaba por acrescentar que os homens, em desempenhando mal os seus papéis na história, transferem os seus pesadelos à ilha em que vivem.
Moinhos da Memória são lembranças espicaçadas, trituradas que estão em constante processo de rotatividade. É como se os fatos ocorridos fossem cereais que jogados nos moinhos das memórias se transformassem em farinhas das idéias. Moer memória é lembrar sempre; é nunca esquecer. Os moinhos da memória são máquinas de lembranças. Aqui, também, a preocupação do artista em deixar sempre vivo algo que poderia ter sido esquecido e que deve continuar existindo, mesmo que seja nas lembranças. Quando, nesse livro, faz um estudo crítico dos escritores nacionais, fá-lo no sentido de registrar e deixar para a posterioridade a literatura brasileira do seu tempo.
Em No Porão da Eternidade, há, em primeiro momento, uma idéia de escuridão e solidão, trazida sob a túnica da palavra porão, que remete ao lugar entre o chão e o assoalho ou entre o convés mais baixo de um navio e o teto do duplo-fundo ou o fundo, onde residem a solidão e as coisas esquecidas ou em desuso. Conquanto, em parceria com a palavra eternidade, o porão passa a ser um lugar que guarda o imperecível. A eternidade parece oculta ou resguardada num local sombrio, melancólico, fúnebre. Não lembra a morte, mas lembra um outro lado da vida, cheio de espiritualidade, na qual ficam guardadas as coisas etéreas, distantes, longínquas da matéria. Como Moinhos da Memória, a proposta é eternizar, deixar para a posteridade aqueles que tão bem representaram o seu tempo.
O Lado Visível traduz a idéia de que, se existe um lado visível, deve haver um outro que o complete. Não pode existir uma metade sem uma outra para que, juntas, formem o todo. Assim, também é o lado, algo partido, fragmentado, desinteiro. E se existe um lado e este lado está visível, deve haver um outro lado que ninguém vê, e este lado é o espírito. Então, o lado visível dá idéia do conhecido, do claro, do óbvio. E o que é visível, está no plano material, no plano terreno, no plano social, econômico, no plano político vigentes. E é só através da existência, da percepção deste lado visível, que se tem conhecimento de que há o outro lado: o espiritual. Essa percepção do lado visível é uma característica simbolista, porque foi a partir da percepção de um mundo conhecido e que já o não satisfazia, que o poeta simbolista foi à cata de sua espiritualidade. No livro, dentro de uma proposta jocosa, aponta alguns aspectos folclóricos da vida política maranhense, visivelmente observáveis no cotidiano.
Cancioneiro do Menino Grande inspira novamente a canção, a musicalidade; traz de volta a idade média, a lira que era cúmplice das cantigas; também, traz de volta Orfeu. O menino grande é um fazedor de cantigas, mas o fato de ele ser menino e de ser grande é que cria o fenômeno do paradoxo e esse paradoxo, por ser paradoxo, tem duas faces. E a primeira seria o fato de, embora passados os anos, ele cresceu, mas não envelheceu, continuou menino. A segunda seria o fato de o menino ser grande, por ser bom. A estrutura semântica da segunda face do paradoxo é que toma verdadeira a primeira face. Grande seria sinônimo de bom, porque grandeza é sinônimo de generosidade. O menino era bom, tão bom, que cresceu, mas não envelheceu, não mudou, não se corrompeu. Por isso, a vida do menino, sempre foi feita de cantigas, de canções, de música; a vida do menino sempre foi um cancioneiro.
Carlos Cunha, em entrevista a Jorge Nascimento (1983, p. 45), em reportagem poética publicada sob o título de Carlos Cunha: um homem dominado por forças estranhas, aponta as suas origens simbolistas, dentro de um patamar eminentemente espiritual:
Sou espiritualista. Sinto, exercendo poder sobre todas as coisas, uma força superior. O homem sempre teve necessidade de acreditar em alguma coisa. Eu acredito e respeito esta força absolutamente transcendental, desconforme, infinita, que criou o homem e todas as coisas conhecidas e desconhecidas ainda dentro do universo. Amo a vida e respeito profundamente a morte.
Sobre a música existente na poesia de Carlos Cunha, assim se pronuncia o jornalista e escritor Walbert Pinheiro (1968, não paginado):
Cheguei a pensar, certa época, que Carlos Cunha de poesia soubesse apenas dizê-la. Julguei que Carlos Cunha fosse apenas o melhor declamador do Maranhão e um dos melhores que já ouvi. Mas ele se revelou, pouco depois, o poeta. Sua poesia, é certo, ainda não está definida, mas ele já é um maravilhoso encantador de serpentes. A música de seus versos sabe domar e encantar. Também seria demais que um declamador daqueles fosse apenas um declamador. É preciso ser poeta para dizer assim, com tanto sentimento, com tanta força, com tanta alma, com tanta comunicabilidade.
Não me causou, assim, tanta surpresa, o poeta que Carlos Cunha estava tirando do tabuleiro de sua alma, mas, positivamente, não pensei que esse poeta surgisse tão marcadamente espontâneo.