Blog de wanda.cunha

conto


26/04/2008


PAREDE TEM OUVIDO


 

Por Wanda Cunha

 


Tô de castigo. Sabe o que é castigo de mãe? É levar palmada no bumbum e ficar, assim, de cara pra parede. Tudo por causa de Antônio Filho. Sabe quem é Antônio Filho? Meu irmão menor. Eu não gosto dele só um pouquinho. Sabe por quê? Acho que só ele é filho do papai e da mamãe. E eu não sou...

Mamãe grita:

-        Vem cá, filho! – Ela chama o pequeno, toda  querendo dar um abraço nele.

Papai chama:

-        Filho, venha onde o papai – Com o óculos na ponta do nariz, o pai joga o jornal que tava lendo pro lado, só pra carregar o filhinho querido.

Mas, se a mãe ou  o pai quer falar comigo, lá vem o berro:

- Maria Antônia! Maria Antônia! Maria Antôôôôôôônia!...

 Pior é quando eles tão zangado e a gente tá com visita em casa... Além do olho deles ficar virado, todo torto e a boca também torta, com os dente de cima apertando os dente de baixo, eles me chamam assim: Maria Antônia Guerra dos Anjos!... Parece até que esse meu nome grandão é uma palmada, um castigo, um carão, é isso: um carão.

Minha vó, ela é a única que ainda me chama de um jeito carinhoso: Tonica ou princesa Tonica. Ela diz que nunca vou ficar no canto. (E tô aqui, no canto da parede). Ela diz também que eu tenho o sangue azul, que eu sou uma princesa. Eu sou a princesinha da vovó. Eu achava carinhoso quando ela me chamava assim: “Tonica”. Mas, depois que o tio disse que  “tá nica” é “tá com rabugice” e que rabugice é coisa de gente sem graça, deixei de gostar do apelido da vó. Acho que eu nunca tô nica, não!... Quer dizer, só quando Antônio Filho me irrita.

O pior é como o chato do Antônio Filho me chama: Nanica. Pai disse que nanica é coisa pequena. Pequeno é Antônio Filho, que não passa de uma criança mimada. Eu sou pré-adolescente. Assim como tem o prefeito, o presente, o presépio, o predeiro, tem a pré-adolescente: sou eu. E acho um saco uma pré-adolescente ficar, assim, de cara pra parede, com essa caneta que não escreve...

Sabe por que eu tô de cara pra parede? Por causa de Antônio Filho. Foi hoje cedinho. Quando levantei, a mãe já tava na cozinha passando o café. O pai dava mingau na boca do filhinho querido. (Vê se pode?...) Coloquei a mão na cintura e falei sem maldade:

-        Que merdomia, hem?

-        Quem é o merdomo aqui? – disse o pai, puxando meu nariz, com um riso na boca.

Falei na ponta do pé:

-        O merdomo é...

-        O nome é mordomia, não é merdomia, entendeu? – O pai cortou o que eu dizia e ficou explicando um troço que eu não entendi.  Merdomia ou mordomia? Acho que o certo era mordomia, porque o Antônio Filho mordia a mamadeira e dormia, mas não era o que eu queria dizer. Eu usei aquele nome porque eu achava ele bonito e pensava que todo mundo dizia ele, quando alguém tava sendo paparicado por outro.

A conversa do pai ficou tão chata que a palavra merdomia, que eu achava legal, ele jogou fora, e eu queria continuar usando ela. Ai, saí correndo. Foi quando dei um escorregão na escada...Fui parar no médico. O médico disse a mãe que eu tinha de tirar uma tal de radi... radio... Isso!... ra-di-o-gra-fia.

Eu sempre via a babá falar em rádio FM, rádio AM... Mas radio...radiocaligrafia, não! Essa palavra era nova. Aí mamãe falou que eu ia bater um raio. Eu não sei como. Não tava chovendo. Mas eu tinha que tirar um raio da cabeça, um raio v, x ou z, não lembro a letra. A mãe ficou preocupada comigo.

Desde que Antônio Filho nasceu, que a mãe só fica carinhosa comigo quando eu tô doente. Então, eu quis saber o que tava acontecendo com  minha doença. Se era um raio que tava dentro da minha cabeça e podia estourar meu miolo; ou, se o raio vinha pra minha cabeça, assim, como  ele vem em direção de um espelho e quebra o espelho, quando a gente não tampa ele. Perguntei pra mãe o que era o raio-z. Ela disse:

-        é a fotografia da cabeça da minha filha – mamãe disse passando a mão no meu cabelo.

E quando chegou o tal do retrato e que eu vi o retrato... Tá louco!? Eu descobri que tava era morta. Eu tava horrorosa naquela foto. O médico olhou, olhou, olhou....E ainda disse que eu tava bem. Nessa hora, tive que falar:

-        O Senhor é médico mesmo? Porque essa foto minha tá horrorosa!.. Eu só posso tá doente demais. Tô muito preocupada, doutor. Essa aí não sou eu, não. Se eu tô assim, já morri.

Escrito por wanda.cunha às 12h23
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CONTINUAÇÃO DE PAREDE TEM OUVIDO

O médico riu do meu jeito preocupado, mas mamãe se irritou e ainda me deu um beliscão escondido

-        Cala a boca, Maria Antônia Guerra dos Anjos – mamãe falou nervosona.

Ela sempre tava nervosona quando dizia meu nome grandão, tipo eu, agora, tô nervosona, com essa caneta na mão que não escreve. A tinta dela já sujou toda a parede....

 Mas eu sei por que mamãe ficou daquele jeito. Ela ficou daquele jeito, porque eu disse pro doutor que ela tinha dito que aquele tal de raio era o meu retrato.

Da sala do doutor pra casa, a mãe foi brigando comigo:

-        Maria Antônia, tu é isso. Maria Antônia, tu é aquilo. Maria Antônia, pra lá. Maria Antônia, pra cá...

Quando chegou em casa, a primeira coisa que ela fez foi ligar pro papai e fazer fuxico de mim pra ele. Ela ria e falava mal de mim. Falava mal de mim e ria.

Antônio Filho tava na cozinha com a babá. A babá tava dando suco pra ele. Ela era, como disse o pai, a mordoma dele, mas  ela não viu e não limpou a merdomia fedida de Antônio Filho que tava perto do fogão. Era uma merdomia porque o gato miava perto dela e quase comia ela.

Eu quis fazer uma boa ação. Fui no banheiro. Peguei um pedaço de papel higiênico e juntei a merdomia. Fui lá na sala, onde mamãe tava. Coloquei a merdomia enrolada no papel em cima da poltrona. Falei cheia de razão:

-        olha aqui, mãe, o teu filho querido fez uma merdomia na cozinha e a mordoma dele não ajuntou. Agora, eu trouxe a prova do crime pra ti. Tá em cima da poltrona, já sujou a poltrona, porque a merdomia tava tão fedida que nem o papel quis ela: o papel higiênico saiu correndo pra debaixo da mesa e deixou a merdomia em cima da tua poltrona.

Mamãe deu tanta palmada no meu bumbum que eu chorei. Antônio Filho também chorou. Acho que ele pensava que, depois que mamãe me batesse, fosse bater nele. Que nada! Só deu pra mim. Ela me colocou aqui, de cara pra parede. E eu, pra não ficar sozinha de cara pra parede, trouxe a caneta da mamãe sem ela olhar. O problema é que a tinta da caneta caiu toda na parede.

Por isso, Parede, que eu tô te contando essa minha história. Eu acho que depois que Antônio Filho nasceu, papai e mamãe não gostam mais de mim. Ficam todo o tempo me recriminando. Eu tô com o ouvido ardido de ouvir todo o tempo a mesma história: “cuidado com teu irmão”, “ele é pequenino”, “não bate no teu irmão”, “não vai machucar teu irmão”, “não  faz isso, não faz aquilo.... Tudo por causa de Antônio Filho.

Antes de Antônio Filho nascer, eu era a queridinha do papai, a filhinha linda da mamãe. Agora eu só vivo no canto... no canto da parede.

Sempre, de noite, papai e mamãe me davam a bença e um beijo. Eu dormia com o Senhor do céu e com os anjos. Já o Antônio Filho só dorme  com papai e mamãe, no quarto deles. Pode? Ele faz pipi na cama, chupa dedo e, mesmo depois que começou a andar,  ainda toma mingau. Isso é outra coisa: depois que ele aprendeu a falar, eu tenho que ficar calada e rir das graças sem graças que Antônio Filho diz.

Outro dia chegou uns amigo do pai aqui. A mulher do homem fez logo carinho para Antônio Filho, dizendo que ele era lindo.  Papai feliz disse assim:

-        filhão, diz pra moça que você é tímido.

Antônio Filho falou com cara de puxa-saco:

Eu xou...  time do...  Vaco!

Só porque o pai é vascaíno...  Eu queria ser flamenguista como a mãe, mas ela disse que eu sou Botafogo, só porque eu ia, um dia desse, botando fogo na casa. A culpa foi de Antônio Filho. Ele tava chorando, dizendo que queria mingau. A mãe e a babá tavam no quintal, então, eu coloquei o papeiro no fogão e fui botar fogo debaixo dele... Mas isso já faz tempo e eu já até esqueci qual foi o meu castigo.

Agora eu tô de cara pra  parede, mas ainda não consegui ver o teu rosto, Parede. E a caneta que eu tirei da bolsa da mãe já não tá escrevendo de tanto eu empurrar ela em ti pra descobrir onde tá teu ouvido. Será que tu tá me escutando, Parede?.

Quando penso que a mãe pode tá escutando nós, me dá uma dor de barriga no meu coração. Ela pode não gostar e me dar novo castigo. Tu é testemunha que eu tô quietinha aqui no meu canto. Mas quando ela vier lá da cozinha, ainda vai dizer que eu fiz alguma  malcriação.

Ainda bem que quando ela chegar e te olhar toda suja de tinta azul e me olhar com as mão suja de azul, ela vai pensar que eu cortei o dedo e que essa tinta é meu sangue. Vai me tirar do castigo e me levar pro médico, carinhosa, como sempre fica, quando eu tô doente. Ainda bem que meu sangue é azul. Foi a vó quem disse....


 

Escrito por wanda.cunha às 12h21
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14/03/2008


TEXTO E CONTEXTO

 


Por Wanda Cunha

 


Entrei na sala de aula. Havia uns quinze guris fardados. Pareciam anjos esvoaçantes. Dei-lhes uma “boa tarde” estridente para trazê-los de volta às carteiras e ao silêncio. Olharam-me curiosos. Eu era a nova “tia”. Expliquei-lhes que a professora estava doente e que eu iria substituí-la provisoriamente. Era uma turma de crianças em fase de alfabetização. Não poderia dizer que elas não sabiam ler. Já liam o mundo, as pessoas... Eva, uma aluna franzina e sapeca, leu-me assim que cheguei. Disse que eu era uma “tia braba”, porque eu tinha uma voz “altona” e uma “cara zangada”. Em resposta, dei-lhe um sorriso e um beijo sobre os cabelos, como se eu quisesse ser relida, dentro de um contexto diferente do anterior...

Terminada a aula, todos saíram. Eva permaneceu na sala. Guardava meticulosamente as letras do seu alfabeto, feitas à cartolina. Antes de sair, deu-me três letras soltas do seu alfabeto desmontado: V-A-E.. Isoladas, as letras não tinham significado algum. Imaginei que a letra V representasse  vitória. Lembrei-me, contudo, que V também é o início da vaidade, da vergonha, do vazio...Depois de uma longa tentativa de leitura dinâmica, fiz o que qualquer professora já o teria feito; articulei os fonemas: Eva. Ali estava seu nome. Deduzi, então: Eva releu-me.Gostou de mim Por isso, presenteou-me com sua amizade, através de um signo verbal. O seu presente era muito significante e, dentro dele, havia um significado enorme...

Mas quem era Eva? Na Secretaria, encontrei seu dossiê. Ela era órfã de pai e mãe. Morava com uma tia numa invasão. Já tinha dez anos e se alfabetizava tardiamente por mero descaso de terceiros. Estudava num colégio particular de classe média, porque ganhara uma bolsa de estudos durante o período eleitoral. Era conhecida na escola pelas suas traquinagens. Estudava no turno vespertino, porque em todas as manhãs ajudava a tia a vender aves abatidas na feira.

Na sala dos professores, mais precisamente na porta do meu armário estreito e alto, colei verticalmente as três letras: E-V-A No dia seguinte, pedi aos alunos que formassem palavras a partir da palavra A – M – A - R. Dentro de uma metodologia aplicável às suas idades, fi-los entender que aquelas letras representavam sons articulados que, numa relação sintagmática, interagiam de tal forma, que delas fluíam outras palavras dotadas de novos significados. E foi assim que as crianças recriaram o seu vocabulário: Rama, arma, Mara, aram... Eu queria que elas entendessem que a relação entre as palavras era tão forte que mexia com a interação do ser humano. Por isso,  ama-se a Deus, Ama-se o próximo, ama-se o sexo oposto, ama-se... E cada aluno foi colocando o verbo amar dentro do seu próprio contexto: “eu amo meu cachorro”, “eu amo um picolé de abacate”, “eu amo brincar”, “eu amo estudar”, “eu amo comer”, “eu amo minha coleguinha”, “eu amo o pai e a mãe”, “eu amo a vovó”, “eu amo  a professora”...

Até então, Eva  não havia dado exemplo algum. O pequeno Ricardo  fez dela um exemplo. Ele disse em seu convencimento: “Eva não ama ninguém...” Percebi, então, que Eva era um texto mal interpretado, porque estava fora do seu contexto. Se as palavras, para  traduzirem um significado, dependem de um contexto, imaginem o ser humano!... Quantas vezes o homem não se sente um  estranho no ninho, uma palavra solta, escrita num quadro-negro? Era assim a pequena Eva. E, até então, ninguém havia feito uma análise de seu discurso travesso. Tentei explicar ao pequeno Ricardo que Eva era uma criança igual a ele.

Era cedo para aqueles alunos entenderem a complexidade do verbo.Guardei, dentro das minhas convicções, que o verbo amar não é intransitivo; amar é um verbo essencialmente transitivo, porque se transmite e se transforma. Numa relação de amor, ora somos sujeitos ativos, ora sujeitos passivos. A gramática não consegue impor a regência verbal, quando o verbo é o sentimento. O verbo está dentro do homem e é regido conforme os seus valores.

Ricardo entendeu que Eva era uma criança igual a todas as outras da classe, quando lhe disse pausadamente:  “Eva ama, mas também quer ser amada”... Nesse ínterim, a menina, finalmente, deu seu exemplo:  “eu me amo, professora”.  Aquela frase ratificou minha tese de que também temos nossos sujeitos reflexivos de que dependem os nossos sujeitos ativos e passivos.

O barulho da sirene desconcentrou as crianças. Mas concluí a lição, dizendo, à luz da receita bíblica, que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Enquanto a turma se despedia alegre e esvoaçante, percebi que eles só entenderiam o resto da lição, ora silente nas minhas reflexões filosóficas, quando crescessem,  época em que descobririam que dentro de nós há muitas vozes: a voz ativa, a voz passiva, a voz reflexiva, das quais somos agentes.

Eva foi a última a sair da classe. Deu-me novamente as três letras, desta vez, ordenadas: E – V – A. E segredou-me que aquela A/V/E que me havia dado no dia anterior, era uma, entre as poucas amigas que tinha, as quais eram colocadas no seu quintal para serem abatidas na feira. Interpretei  que Eva amava as aves.

Quando cheguei à sala dos professores, um colega perguntou  por que eu havia colocado uma dupla palavra na porta do meu armário. Ele não sabia se lia de cima para baixo: Eva; ou se lia de baixo para cima: Ave. Mas foi incisivo na sua interpretação: “ou esta escola é tua gaiola, ou é teu paraíso”. Aquela leitura do meu colega era mais um  campo semântico desconhecido, envolto às palavras geradas a partir das três letras que Eva me dera. E ele estava certo. Ele poderia entender as palavras conforme o seu repertório. Afinal, todo leitor é co-autor do texto que lê, porque todo leitor é capaz de gerar interpretações em conformidade com o seu entendimento, ainda que as interpretações não se esgotem numa única leitura e não correspondam à intenção do verdadeiro autor. Por isso, existem a denotação e a conotação.

Foi então que descobri que não podemos expor nossos textos sagrados a qualquer leitor. E não caberia a mim expor a pequena e sagrada Eva, na porta do meu armário. Por esse motivo, falei instintivamente: “é ave! Mas não é a ave sinônimo de pássaro. É a interjeição! Ave! Uma saudação. Eu só queria saudar os colegas.”

Quando fiquei sozinha na sala dos professores, arranquei a palavra do armário. Guardei-a Afinal, as palavras dizem o que o homem sente e o que o homem não sente; o que o homem pensa e o que o homem não pensa; o que o homem quer ouvir e o que ele não quer ouvir; o que o homem quer dizer e o que ele não quer dizer. O signo verbal tem dupla face, e essa dicotomia cria situações inusitadas. Entrementes, o não-dito também é deveras  significativo. Mas isso é um outro texto....

Escrito por wanda.cunha às 17h40
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13/03/2008


ENQUANTO AS LETRAS BRIGAM, OS FONEMAS SE REALIZAM


Por Wanda Cunha


Parte I


 

 

A letra Jota falou com provocação à letra Agá:

- Agá, tu não representas fonema alguma. Tu não eras nem para fazer parte do alfabeto. Tu só atrapalhas. Tu és uma letra que só se mantém em algumas palavras em decorrência da etimologia ou tradição.

Agá queixou-se à Ortografia:

- Ortografia, Jota disse que eu não sirvo para nada.

- Não liga, filha – ponderou a Ortografia – você é muito importante no final das interjeições Ah!... Oh!... Ninguém consegue se admirar sem usar você no final dessas interjeições.

Agá continuou:

- Diz para Jota que eu também sou importante no idioma, em palavras como hálito, hiato, hipoteca, hélice.

- Sim, sim, Agá – confirmou a Ortografia – você é muito importante no idioma, principalmente em razão da origem das palavras. Se a palavra originariamente tem ága, ela será escrita com agá.

- Também, se não fosse eu não haveria os dígrafos ch, nh, lh, não é? – questionou a letra Agá.

Ortografia confirmou:

- Exato! É também muito importante no interior de vocábulos compostos, quando o 2º elemento com H etimológico se une ao primeiro por hífen como em Pré-História, anti-higiênico.

Jota intrometeu-se outra vez:

- Mas não vale nada em palavras como desonra, reaver, desabitado, lobisomen.

Agá altercou:

- Tu já viste honra sem mim? Existe alguma Habitação sem mim? Não há homem sem agá, e todos os homens querem ser homens com H maiúsculo. Até o verbo haver precisa de mim.

Letra GÊ  interveio:

- Jota, tu só queres ser o tal e tens mania de querer ser eu em algumas palavras.

Jota não deixou por menos:

- Tu, sim, queres ser eu. Meu som é sempre /jê/, mas tu, que também faz o som em /guê/ vive se metendo em palavras que me pertencem.

Gê debochou:

- Ora! ora!  Nos substantivos terminado em  –agem, -igem, ugem, eu sou o dono do pedaço Por isso garagem, viagem, origem, vertigem, ferrugem, todas se escrevem com Gê.

Jota lembrou:

- Mas esqueceste que em pajem, lambujem e viajem (verbo da 3ª pessoa do plural) sou eu que apareço.

Gê não deixou por menos:

- Porque tu és metido. Essas  palavras são meras exceções. Eu também apareço em palavras terminadas em –ágio, égio, ígio, -ógio e –úgio, como em contágio, prodígio, relógio, refúgio, egrégio.

 

Jota bradou:

- esqueceste que as palavras de origem tupi são escritas com jota. Em biju, canjarana, jacaré, jaguar, todas são escritas com Jota.

- Mas Sergipe é com GÊ, seu bobo.

Agora foi a vez de Jota contra-argumentar:

- Mera exceção!.... Ademais, os verbos terminados em –jar e -jear são escritos, em todas as formas verbais com Jota: viajar, engajar, esbanjar, sujar, trajar, grajear – E continuou – Até as palavras derivadas de outras, terminadas em J, são escritas com Jota: Loja/lojista.  Sarja/sarjeta. Gorja (garganta) gorjeio, gorjeta.

Escrito por wanda.cunha às 18h55
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ENQUANTO AS LETRAS BRIGAM, OS FONEMAS SE REALIZAM, Por Wanda Cunha

  

GÊ também fez suas alegações:

- em vocábulos derivados de outros já grafados com g, também são escritos com g, como em mugir – mugido; fingir – fingimento; agitar - agitação.

Nesse ínterim, a letra X chega cheia de dedos:

- Vocês gostam de um ruge-ruge. Parem de brigar. Pior sou eu que tenho que aturar o CH, que é um mero dígrafo despeitado.

Novamente Jota intrometeu-se:

- Não fosse a letra agá, CH não existira para te atormentar.

Gritou CH:

- Epa! Alto lá! Sou conhecido na praça. Quem faz a chave, sou eu. Não há chaveiro sem mim. Ninguém fica descalço porque de mim vem o chinelo. A chuteira de jogador só existe por conta de mim, até o chute de Ronaldinho Gaúcho; a chuva só existe porque eu existo; o chifre, o chimarrão, o chinfrim, o chuchu...

X defendeu-se:

- Mas na hora da fome, sou eu quem trago o peixe; a ameixa vem de mim. Depois de ditongo, sou eu quem faço a festa. Por isso, caixa, faixa, eixo, todas essas palavras são escritas com X. E mais: depois da sílaba EN, eu também sou usado para grafar as palavras: enxada, enxame, enxaqueca, enxuto, enxoval, enxurrada.

O CH contestou:

- Mas não és usado nos derivados de ENCHER. Todos são escritos com este lindo CH: preencher, enchente. Também nos derivados de Charco e chouriço: encharcar, enchouriçar.

O X apelou:

- CH, a única coisa que   tu sabes fazer é encher, encher o saco. Eu estou até nas palavras de origem tupi: abacaxi, xará, pixaim.

CH falou em tom vaidoso:

- Eu estou no churrasco, no chalé

O X falou ironicamente:

- Tu estás no chulé, no cochicho, na chantagem.

CH revidou:

- Tu estás no mexerico, na luxúria, na bruxaria.

X prosseguiu:

- põe na tua cabeça que eu estou até em palavras cuja sílaba inicial é ME-. Mexer, mexilhão, mexicano.

CH retrucou:

- Mas mecha (substantivo) e seus derivados são escritos com CH.

A Ortografia gritou:

- Chega!...

CH lembrou:

- Viu, até a palavra Chega é escrita com Ch.

X arrematou:

- CH, não é por menos que também estás na palavra chatice. Na verdade, tu és um chato, um chato de galochas.

A Fonologia que, até então apenas observava, indagou:

- Ortografia, por que as letras brigam tanto?

- Porque elas pensam que uma quer tomar o lugar da outra. – Respondeu a Ortografia.

Fonologia falou resoluta:

- São tão bobas as letras!... Enquanto elas brigam, os fonemas se realizam.

 


 Obs: Escrevi o conto "Enquanto as letras brigam, os fonemas se realizam..." com o objetivo de, a partir de uma atividade de dramaturgia, permitir que os alunos aprendessem Ortografia de maneira prazerosa. Cada aluno incorporou uma letra. As letras eram personagens, e os alunos eram atores. O resultato foi sensacional! 


 

Escrito por wanda.cunha às 18h48
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