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cronica


07/10/2008


A reeleição dos buracos


Foto de buracos localizados na Cidade Operária, em 05/10/08, dia de eleições e aniversário da Constituição brasileira.


Por Wanda Cunha

 


Estou pensando seriamente em deixar de dirigir. Fa-lo-ei, se for o caso, por dois motivos: o primeiro é que já não se fazem motoristas como antigamente, que o diga a última quadrilha de vendedores de cartas de habilitação recém-descoberta; o segundo é que os buracos das ruas estressam quaisquer cristãos.

 

A cada  dia, chego à conclusão de que o jornalista e escritor Carlos Cunha não era apenas um homem polivalente em suas atividades intelectuais e profissionais; era, também, um jornalista de todas as épocas que continua atualíssimo, apesar  do esquecimento a que  os seus contemporâneos e conterrâneos tentam deixá-lo.  Em crônica datada de 1967, Carlos Cunha dizia o seguinte:

 

“Alguns motoristas da Ilha, meus amigos, ontem chamaram-me a atenção para o buraco da Rua José Bonifácio, em frente ao Instituto "Zoé Cerveira". Há mais de três meses, deixei o Jornal do Dia, mas recordo que muito antes mesmo de me afastar daquele matutino, já os repórteres davam em cima do Prefeito, chamando a sua atenção para o problema. Ingressei nas fileiras do Jornal Pequeno, e, aqui, também assisto, constantemente, sair na primeira ou última página, notícia sobre o buraco, dando a sua dimensão, a sua idade, os prejuízos que causa aos veículos, em suma, pela primeira vez, em toda a minha vida, leio a biografia de um buraco.

 

Mas meus amigos motoristas também me disseram que o buraco completou, recentemente, o seu primeiro aniversário de existência. Sendo assim, devo repetir aqui a célebre frase dos cronistas sociais, registrando o fato como ele deve ser registrado, porque não seria possível que um buraco tão popular, não gozasse o direito de ter o seu nome em Jornal. Pois bem, amigos, leitores, o buraco da Rua José Bonifácio assiste a passagem do seu primeiro aniversário, vê transcorrer no jardim florido de sua existência, a passagem de sua primeira primavera. Os fãs do buraco da José Bonifácio já compraram uma velinha e estão mandando preparar o bolinho. Antes de julho passar, será celebrada missa em ação de graça e o buraco também será batizado com o nome de Epitácio, numa homenagem ao maior desarrumador de cidades que é o Senhor Epitácio Afonso Pereira.”

 

A crônica de Carlos Cunha não é apenas um retrato vivo da São Luís de ontem. Muito mais que isso, é uma reprodução fidedigna da São Luís de hoje. O que me deixa dizer que, politicamente, no pulo de um século para o outro, São Luís não mudou. Os políticos continuam sendo os mesmos, pequeninos políticos, frutos de votos também pequenos, porque pequena ainda é a democracia. E tanto é verdade que se multiplicaram os buracos e já não há como acender a velinha da primeira primavera da existência de um buraco, se os inúmeros buracos  vêem transcorrer, na nebulosidade de suas existências, a passagem de inúmeras primaveras das quais brotam, inclusive, gardênias que viram primeiras damas municipais. Mas os invernos, que vão e voltam, continuam levando a culpa pelos buracos, ainda que, há algum tempo, já não encontrem espaço para reconstruir novos buracos com suas chuvas.  Por isso, os papagaios prefeitos comem milho e as periquitas chuvas levam a fama.

 

A Cidade Operária, por exemplo, com um número considerável de eleitores, com aproximadamente 200.000 habitantes, vive cheia de buracos há anos, igual à Rua José Bonifácio, ludibriada pelas cuspidelas dos serviços de obras públicas municipais. Se vivo fosse, Carlos Cunha assistiria a novos descasos, posto que a pessoa de Epitácio, agora, é a pessoa do Palácio que, literalmente, não consegue sair do palácio de sua  vaidade e inoperância. Assim, em vez de colocar asfaltos nas ruas, vive a colocar bodoques no rosto para tapar os buracos que lhe causam as rugas da idade.

 

O governo fica sediado no palácio, mas foi Palácio quem assediou o Governo com a intenção de duas gestões que não levaram o município a progresso algum. E o pior é que os buracos não estão apenas nas ruas e ladeiras; os buracos estão por todo o canto. O povo, se assim o quisesse, até que poderia batizar os buracos, desta feita,  em nome do epitáfio da esperança das pessoas que ainda se dão o luxo de votar nos fazedores de buraco. Por falar nisso, parabéns ao TSE pela feliz propaganda política: quem quer mais quatro anos de um ir-e-vir que não leva a lugar algum?

 

E, por falar em eleição, ontem (cinco de outubro de 2008, aniversário também da Carta Magna) foi o dia da “cidadania”, da “democracia”; o dia “D”.  Eu particularmente acho que ontem foi o dia “D”eles.  Quem pegou seu quinhão,  está feliz da vida. Quem  perdeu a mamata, não perdoa ao eleitorado. E quem foi para o segundo turno, espera o final da partilha. Quem será o novo prefeito? Alguns apostam no velho; outros apostam no novo. Eu, particularmente, aposto nos buracos. Eles conseguem ser tão novos quanto velhos. Sai prefeito e entra prefeito; e eles, os buracos, permanecem fiéis, constantes, perseverantes aos olhos e aos pés do povo.

 

 


Escrito por wanda.cunha às 00h30
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05/09/2008


Fotógrafo vê fantasma na Rua da Estrela

 

O fantasma da Rua da Estrela


Wanda Cunha


A Prefeitura  de São Luís, por meio da secretaria municipal de Turismo promoveu, mês passado, o Concurso de Fotografia “Um Olhar sobre São Luís” . Podiam participar fotógrafos profissionais e amadores residentes e domiciliados em território nacional. Fiquei entusiasmada com a idéia e me predipus a fazer parte dos concorrentes. Não era o valor de R$ 1.000,00 que me seduzia. Era o amor exacerbado pela ilha. Filma-la era um pretexto para rodeá-la, paquerá-la, amá-la. Dar a volta ao redor do seu paisagismo, subir suas ladeiras, descer seus becos.... Assim, tirei um final de semana para namorá-la e me deixar seduzir pelos seus encantos.

O tempo estava temperamental: ora o sol brilhava radiante, ora o céu nublava. Na litorânea, uma carreata de um candidato a prefeito de São Luís. Driblei as filas de puxa-sacos e fui parar na Lagoa da Jansen, triste Lagoa da Jansen, esquecida em pleno domingo sob o silêncio do mau humor de um final de semana desocupado  e o mau cheio dos esgotos. E, ao longe, uma canoa e um pescador, ambos também tristes, como se estivessem sobre uma lagoa de lágrimas, levados pelo remo do descaso e da exclusão.

Atravessei a ponte, vi a beira-mar, triste beira-mar no suplício da baixa-mar. Tudo era tão triste que até a maré era vazante, deixando uma solidão na ociosidade do cais.  A cidade antiga estava vazia, o Reviver parecia viver ao léu  pra não dizer que  estava in extremis. Casarões esquecidos...e alguns turistas fazendo a ceia nas calçadas... Tirei foto das escadarias, dos prédios e azulejos. De repente, a câmera detectou a paisagem de um fantasma na rua da Estrela: era um prédio habitado por brenhas com a fachada sombria, o telhado de folhas verdes, como se ainda sobejasse a esperança de que seria restaurado, sem janelas, sem azulejos, quase também sem histórias...

Nas vésperas de seus 396 anos, vi, então, no foco da máquina, a minha São Luís largada, com uma área territorial de 831,7 km 2 de abandono. E aquele prédio era apenas um entre tantos outros, muitos dos quais transformados em estacionamento com a capacidade de tirar de São Luís o título de patrimônio histórico e cultural da humanidade. Situada entre as Baías de São José e São Marcos, verifiquei que São Luís  estava mesmo era entre a baia do prefeito que saía e a baia do prefeito que chegava. E nada pude fazer, senão permitir que a melancolia invadisse a minha alma são-luisense, enquanto eu guardava a minha máquina fotográfica e as imagens produzidas na algibeira desta crônica.

Se concorri ao concurso de fotografia promovido pela Prefeitura de São Luís? Não, mas descobri que o fotógrafo é o poeta das imagens e das luzes que vira repórter, ou contador de histórias produzidas em estúdios para sobreviver; um profissional iluminado que, de sol a sol, de flash a flash, de luz a luz, de imagem a imagem, é o artista – altruísta - a revelar o outro,  enquanto  fica atrás das câmeras.

 


Uma homenagem aos 396 anos da Cidade de São Luís


Escrito por wanda.cunha às 20h17
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10/06/2008


EM NOME DE MINHA ANGÚSTIA

 

 

Wanda Cristina

 

 

Sempre que a angústia bate à minha porta, lembro-me desta poesia de  Cassiano Ricardo: “Diante da vida fugidia, conservemo-nos serenos. Cada minuto da vida nunca é mais; é sempre menos. Ser é apenas uma parte do não-ser e não, do ser. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.” Lembro-me desses versos, porque eles traduzem a temporaneidade, a transitoriedade da espécie humana.

Essa história de viver é complicada, porque a vida é a causa da morte. Logo, a morte é uma conseqüência da vida. Morrer e viver são palavras intrinsecamente relacionadas. Assim, não podemos dizer onde começa uma e onde a outra termina. E isso muito me aflige, principalmente quando olho para o lado e vejo que as paredes já não são as mesmas, os muros já não são os mesmos; as janelas das casas mudaram; os carros que transitam nas ruas são diferentes dos de antes; as ruas já têm outra pavimentação e até as avenidas viraram enormes viadutos que levam a vários lugares, muitos dos quais, estranhos, quando até os lugares, antigamente, eram poucos,  pequenos e conhecidos de todos nós.

São Luís, por exemplo, São Luís mudou demais. Antigamente era uma ilha grande, grande mesmo, porque cheia de verde. As praças eram verdadeiras ágoras, feitas para o encontro dos pássaros e dos poetas. Hoje, a Upaon-açu cresceu de tal forma que, dentro dela, sentimo-nos distantes, distantes de suas ladeiras, de sua aparência colonial, de seus sobradões antigos, os quais só encontramos no antigo centro. Tudo ficou descentralizado, inclusive os amigos, os conhecidos. Outrora, víamos com freqüência os nossos vizinhos. O que era uma ilha grande, agora é um arquipélago, porque ilhas são os homens que nela habitam, cercados de solidão por todos os lados.

Esta semana, quando li nos jornais a notícia da morte do eminente advogado Clineu Coelho, percebi que, com o passar dos dias, separamo-nos de nós mesmos, das pessoas com as quais mantivemos uma íntima relação de amizade e de convívio. Clineu Coelho era uma relíquia sentimental do meu passado... Um advogado brilhante e  humanitário. Um intelectual que cultuava frases filosóficas e poesias memoráveis. Pensava como um causídico e  sentia como um poeta.

 Amigo da família, inúmeras vezes freqüentei sua casa. Nos meus tempos de meninice, meu pai, de vez em quando, tirava um pouco do nosso domingo para levar uma prosa com Clineu, naquela sua  casa grande, abraçada por um jardim enorme, ali, perto do Lítero Recreativo Português. Lá, estava a nos esperar, com doces e sucos, dona Dina. Na verdade, ela era o melhor doce da casa, um doce de pessoa, que conversava com a minha Plácida. Eram duas plácidas trocando idéias, enquanto esperavam a prosa do Carlos e do Clineu acabar.

O escritório de Clineu ficava na rua do Sol, ao lado do Colégio “Nina Rodrigues”. Carlos Cunha e Clineu também proseavam no decorrer da semana. Ora na lanchonete do Almir, ora no seu próprio escritório advocatício, ora no Colégio, ora na João Lisboa, ora entre doses de luares e de estrelas nas noites boêmias do Hotel Central e Moto Bar... De quando em vez, eu ouvia um chamar o outro de irmão. Era uma amizade feita entre  poesias e petições jurídicas, aulas e audiências, domingos e segundas. Antigamente, também, as amizades faziam parte do cotidiano, e as pessoas se respeitavam, até quando brincavam. Os amigos estavam presentes em todas as horas. Hoje, até as horas se ausentam, como se houvesse uma fenda no tempo pela qual passado, presente e futuro escapam sem deixar vestígios.

A morte de Clineu me angustia muito!... A morte de Clineu me angustia de tal forma que as minhas palavras saem secas de dentro de mim. Nem as lágrimas conseguem molhá-las. A aridez está no meu estado de espírito e no espírito deste Estado. O Maranhão  perdeu  um homem de valores profissional e humano. Perdeu também parte da autenticidade da história cultural de seu povo. Sim, a cultura do Maranhão, em sua dinamicidade, vai perdendo paulatinamente a sua identidade primitiva. Morreram Clineu, Waldelino Cécio, Alexandre Júnior e tantos e tantos outros maranhenses respeitáveis!... E o meu medo é ver exaurir da curta memória do povo as histórias que eles fizeram e as histórias que eles contavam. Enquanto cresce o número de jamaicanos, os nossos atenienses estão partindo em busca da Grécia de Deus. Sem muita delonga, não vai mais haver a lembrança do tempo em que o Maranhão ainda era Atenas Brasileira. Não haverá discursos nos bares, poesias nas praças, poetas nas ruas, livrarias nos becos, nem advogados como Clineu....

Quando li nos jornais a notícia da morte de Clineu Coelho, lamentei o tempo que perdi por não inventar prosa aos domingos para trocar com ele e encher minhas filhas dos doces de dona Dina... Era um amigo de verdade!....  Quando meus irmãos e eu ficamos órfãos, vi nossa tristeza no semblante dele. Tentando conter a ausência do irmão que perdera, criou palavras  de resignação para nós - os filhos - que ficávamos nesta vida dissimulada...

Agora, foi a vez de Clineu partir. Não tenho uma palavra de resignação para dar a Dona Dina e ao seu filho!... Não tenho uma palavra de resignação para dar a mim mesma!...

 

Escrito por wanda.cunha às 20h47
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O bêbado e outros poetas - 1ª parte

Wanda Cunha

 

 

 

Um bêbado entrou no Bar dos Poetas, um lugar noturno bem freqüentado pela nata literária da Cidade. Ali, havia saraus de que participavam os melhores artistas. Naquele dia, atores declamavam os poetas de que mais gostavam, sob o aplauso de uma sociedade cheia de salamaleques.  Todos bem alinhados e comedidos, tentaram obumbrar a presença do bêbado, cabelos desgrenhados, com andar cambaleante e descomedido, que se refestelou numa mesa próxima do palco e gritou ao garçom uma dose de pinga. Foram muitas doses que o suor pingava. Começou o show. Um elenco, ao fundo musical de um piano, declamava grandes poetas do Brasil.

A primeira poesia era de  João Cabral de Melo Neto:

-         “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.

O bêbado, que parecia não ouvir coisa algum,  interrompeu o espetáculo com um grito que soou no ouvido de todos:

-         Galo que precisa de outro galo é fresco. Cadê as galinhas daqui, cara?

O ator ignorou a intromissão do bêbado e prosseguiu sua apresentação. A platéia permaneceu silente. Aplausos no final. Outro ator  anuncia nova poesia do poeta

 

João Cabral de Melo Neto:

“catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na da folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar”.

E o bêbado tornou-se a intrometer:

o que boiar é merda.

Desta vez, a platéia fez um coro de chateação:

-         ah!...

Mas o ator seguinte ignorou o intrometimento do alcoolizado e declamou

 

Mário Quintana:

“O cronista escolheria a palavra do dia: ‘Árvore’, por exemplo, ou ‘Menina’.

Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.

Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página...”

E o bêbado interrompeu:

-         Cadê os pais dessa menina. Será que eles não sabem que o mundo está cheio de tarados?....

 

 

 

 

surge, trazendo à baila um poesia de Drummond:

-         “lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

E o bêbado conformado:

-         melhor é o mudo, que não precisa lutar.

 

 

 

 

 

 

Outro poeta declamava Quintana:

“Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico:

‘Acabaram-se os bondes amarelos!’

Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros.

Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo:

‘Acabaram-se as tias solteironas...’

Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema...”

 

E o bêbado bradou:

-         Nesse bar só tem prostituta!....

 

 

 

Escrito por wanda.cunha às 20h37
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O Bêbado e os Poetas

Wanda Cunha

 

Outro poeta declamava Marina Colasanti:

 

“Todos os dias esvaziava

uma garrafa, colocava

dentro sua mensagem, e a

entregava ao mar.

Nunca recebeu resposta.

Mas tornou-se alcoólatra.”

 

E o bêbado apoquentou-se:

 

- alcoólatra é a mãe.

 

 

Outro poeta declama Drummond:

“gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro

Inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

E não quer sair.”

E o bêbado sugere:

- toma lacto purga, cara!...

 

Um poeta declama Augusto dos Anjos:

 

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!”

E o bêbado é oportuno:

-         Já que tu ta dando o fósforo, dá também o cigarro que o meu acabou.

 

Outro poeta declama Augusto dos Anjos:

 

“Homem, carne sem luz, criatura cega,

Realidade geográfica infeliz,

O Universo calado te renega

E a tua própria boca te maldiz!

 

E o bêbado

-         na hora H, dizem que bêbado é que gosta de provocar.

 

Um poeta declamara Oswald de Andrade:

 

“que há por aí?

Amor

Chuva ao longe

Jogo

Mormaço

Mentira

Radar”

E o bêbado responde:

-         só pinga, meu, só pinga.

 

Um poeta declamava Manuel Bandeira:

“Quando o enterro passou

os homens que se achavam no café

tiraram o chapéu maquinalmente

saudavam o morto distraídos’...

 

Escrito por wanda.cunha às 20h36
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O bêbado e os poetas

Wanda Cunha

O bêbado levantou-se zangado:

-         por que não me convidaram  para a sentinela?

 

O poeta declamava Cecília Meireles:

“Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar.

-         depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

E o bêbado:

-         depois dizem que eu é que sou o bêbado.

 

Outro poeta declamada a Modinha que inspirou Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias:

“Quando estava em minha terra

acompanhado ou sozinho

cantava de noite e de dia

ao pé dum copo de vinho”.

 

E o bêbado:

-         Vinho só na Semana Santa.

 

Outro poeta declamava Bandeira:

“Vou-me embora pra Psárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei”.

 

E o bêbado:

-         posso ir contigo, meu?

 

Outro poeta declamava Drummond:

 

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma...”

E o bêbado:

Isso é um caminho ou é uma pedreira?

 

Outro poeta declamava João Cabral de Melo neto:

 

“Ao olho mostra a integridade

de uma coisa num bloco, um ovo.

Numa só matéria unitária,

Maciçamento ovo, num todo.

 

E o bêbado interrompe:

Mas é o ovo cozido, frito ou estrelado?

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por wanda.cunha às 20h32
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26/05/2008


MULHERES DE ATENAS DOMINAM OS DEUSES

 


Wanda Cunha

 


                                                 O que está acontecendo no Maranhão? É certo que, aqui  - por questões etimológicas, maranhas nunca faltaram. Observam-se, todavia, as exonerações em massa dos ocupantes de cargos de confiança, que já não são confiáveis ao novo governo e o corte dos vales-transporte e das vantagens dos indefesos funcionários públicos. Logo, se enxugaram a folha de pagamento do funcionalismo público estadual, coisa pior está ocorrendo nos bastidores.

Dizem as más línguas que só há duas alternativas: ou o governo da rosa deixou um rombo tamanho, de tal forma que o marido da magna não está sabendo administrar o Estado, no estado em que as coisas estão; ou o problema é meramente político: estão aquecendo as asas de cera de todos os ícaros que se diziam adeptos da carnavalesca Alexandria. 

Com a campanha dos candidatos à Prefeitura e à Câmara Municipal, por debaixo dos panos rola a grana que os pobres barnabés deixaram de receber. E a alta verba que foi cortada em Brasília deve ter tomado um outro rumo, que só se poderá perscrutar, ante os “favores” que alguns candidatos privilegiados fizerem ao povo, com seus ares de moços bons.

Os professores estaduais também estão entre a cruz e a espada: ou aceitam, calados, as retaliações que lhes são feitas pelo governo que rompe com a velha oligarquia, da qual já foi afilhado; ou resolvem colocar suas esperanças sobre o salamaleque do improvisado coração de leão que, no cargo de candidato da rosa, tenta convencer cidadãos e eupátridas, por meio de sua alegoria de palavras e mise-en-scène. E o único prejudicado será a classe estudantil que terá de esperar o dia 23 de agosto para continuar o ano letivo que, certamente, será letárgico.

Tudo são, como diz a música, palpites, pois há os que vêem o que a Veja diz e há os que dizem o que não se vê a olho nu, pois  a verdade e a mentira podem estar em todo canto. Dizem amiúde, inclusive, que os outros candidatos querem tirar proveito da briga de titãs. E quem quiser, pode até acreditar em Prometeu, mas que não acredite em quem prometeu, sem nunca ter cumprido, e vai prometer de novo para continuar não cumprindo.

Na condição da Atenas Brasileira que já fomos, queremos crer que estamos em vésperas dos jogos gregos, não os que serão realizados na Grécia, sob o nome de olimpíadas, mas os que já se realizam no santuário da nossa Olímpia, em homenagem aos nossos deuses, que ora querem ser prefeitos, ora querem ser governadores, ora querem ser deputados, ora querem ser senadores. E todos eles pretendem apenas ser os donos do Maranhão, como se estas terras já não tivessem um dono.

O pior é que o espírito macedônio também baixou nestas plagas. Ainda assim, o antigo império de Alexandre, o Grande, foi tão-somente plagiado pelo da magna, que paulatinamente perde seu domínio, mediante sua própria insensatez. Enquanto Alexandre, após dominar o império persa, casou-se com a princesa Roxana, filha de Dario III, para garantir a boa relação entre persas e macedônios, a sua substituta, na história política do Maranhão, rompeu com todas as Roxeanas que cruzaram seu caminho.

O Farol da Educação, que hoje deveria ser Farol de Alexandria, não chega a ser nem uma coisa nem outra. É um candeeiro de penúria que só vai se apagar, quando surgirem as primeiras luzes de votos nas urnas. Antes disso, contudo, quem é de esquerda, ainda vai para a direita; quem é de direita, ainda vai para a esquerda; e quem é inimigo de seu pior inimigo, haverá de ser amigo do dito cujo ou até contraparente, conforme as conveniências. Cairão as máscaras, mas o teatro grego continuará sendo o mesmo, cheio de persona grata de araque.

É lamentável, entretanto, que o povo ainda não tenha percebido que o governo de Clístenes é coisa do passado, e que a democracia desta Atenas é um mar de lamas, cujo senhor fica a administrá-lo, em sua polis, como um eterno filo-basileu.

Destarte, devemos – a mercê de tudo que já foi dito - observar o exemplo dessas mulheres de Atenas, hoje, não mais excluídas. Afinal, paira no ar um único fato, verdadeiramente comprovado: tudo está acontecendo em nome da magna, tudo está acontecendo em nome da rosa.

 


(São Luís, 14/08/2004) - Esta crônica não pôde ser publicada em jornal algum, em razão dos comprometimentos políticos a que a imprensa no Maranhão está sujeita; ou melhor, em razão dos comprometimentos políticos a que os  proprietários de jornais estão sujeitos.

Escrito por wanda.cunha às 21h20
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20/05/2008


A PACIÊNCIA DE JÓ

 

Wanda Cunha


 

    


                                           

                                               Graças ao meu bom Deus, já vão longe os dias em que  eu sentia na pele as tragicomédias a que estão sujeitos os passageiros dos ônibus  intermunicipal e interestadual. As rodovias não são aquelas que aparecem nas propagandas de Governo, bem asfaltadas e devidamente sinalizadas. Contrariamente, sempre estão cheias de buracos, embora a culpa de tal fato recaia, comumente, não nas falhas das construtoras para as quais foram entregues os serviços; mas, nos “engenheiros” de São Pedro, que levam a fama de “construir” crateras em todos os invernos.

Mas isso é apenas um detalhe, considerando  que os próprios coletivos ficam a desejar, desprovidos de condições necessárias para o seu bom desempenho funcional, colocando em risco o conforto e a tranquilidade dos passageiros. Nas BR’s, esses ônibus pregam mais do que Vieira pregou no Seiscentismo. Com a diferença de que Vieira deleitava os espíritos dos fiéis, e os coletivos denegrem a credulidade de qualquer cristão. Ora fura um pneu, ora é problema no carburador, ora tranca o motor, ora é a pastilha do freio, ora o motorista sai às pressas em direção ao mato...

O certo é que, quando se pega o ônibus da Progresso, ele não progride, enquanto está no Maranhão; se se pega o da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é um “Deus nos acuda!”; e, se um não-fumante pegar o da Continental, é provável até que ele fume, entre tiques nervosos, três maços de hollywood, do Quilômetro Zero a Santa Rita, lamentando a morosidade. Isso sem se contar que o da Timbira, segundo a voz do povo, é sinônimo de “te vira!...”

Contar-lhes-ei uma história que pode até parecer invenção de cronista, mas foi fato verídico que presenciei durante as minhas peregrinações laborais pelas bandas da região do Mearim, fato que só ratifica as assertivas aqui colocadas. Certa vez, um motorista de uma determinada empresa que fazia o trajeto Bacabal/São Luís, após ter  parado o veículo no acostamento da BR, virou-se para um passageiro que insistia em ficar na porta do coletivo:

-        onde o amigo vai ficar?

O passageiro, na gaiatice do seu bom humor, respondeu sem titubear:

-        amigo, vou ficar no próximo prego.

E o motorista era tão equilibrado e paciente que não levou em conta a chacota do passageiro: deu um leve sorriso e arrancou o veículo, assoviando uma canção típica de caminhoneiro.

Quando chegou em pleno Campo de Perizes, o carro deu pane. O motorista desceu, abriu a tampa do motor... Demorou um pouco até que voltasse... Após subir todos os degraus do ônibus, disse ao passageiro gaiato:

- Chegamos onde o senhor queria ficar. – E continuou, dirigindo-se aos demais – Senhores passageiros, fiquem tranquilos, peguem suas bagagens, façam uma fila!... É pra descer um de cada vez, um atrás do outro, calmamente, que o ônibus está pegando fogo...

Escrito por wanda.cunha às 19h54
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08/04/2008


A PARÓDIA DO PLEBISCITO


POR WANDA CUNHA


A cena passa-se em 1993. O país está todo reunido na sala do Poder Judiciário. O Senhor Governo palita os dentes, repimpado num palácio de balanço. Acabou de roubar como um rato. Dona Corrupção, sua companheira, está muito entretida a “limpar” os cofres públicos. Os pequenos são dois: o Povo e a Esperança. Ela distrai-se a olhar para os cofres públicos vazios. Ele, encostado à desventura, braços cruzados, vê com desânimo o último papel dos governantes. Silêncio. De repente, o Povo levanta a cabeça e pergunta:

- Sr. Governo, o que é honestidade?

O Senhor Governo fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme:

- Sr. Governo? (pausa) Sr. Governo?

Dona Corrupção intervém:

- Ó Sr. Governo, o Povo está lhe chamando. Não durma depois de roubar que lhe faz mal.

O Senhor Governo não tem outro remédio senão abrir os olhos.

- Que é? Que desejam vocês?

- Eu queria que o Sr. Governo me dissesse o que é honestidade.

- Ora essa, rapaz! Então tu és governado desde 1500 e não sabes ainda o que é honestidade?!...

O Senhor governo volta-se para Dona Corrupção que continua muito ocupada com os cofres públicos.

- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é honestidade!

- Não admiro que ele não saiba, porque eu também não sei.

- Que me diz? Pois a senhora não sabe o que é honestidade?!...

- Nem eu, nem você. Aqui neste país ninguém sabe o que é honestidade.

- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de ser honesto.

- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos! Se sabe, diga, diga o que é honestidade! Então, a gente está esperando! Diga!...

- A senhora o que quer é ridiculizar-me.

- Mas, homem do povo, para que você há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar que nada salva este País. Já outro dia foi a mesma coisa, quando o Povo lhe perguntou o que era o impeachment. Você falou em CPI, e o menino ficou sem saber.

- Impeachment – acudiu o Senhor Governo – é, no regime presidencialista,  um ato através do qual se destitui, mediante deliberação do Legislativo, um ocupante de cargo governamental, que pratica crime de responsabilidade; é impedimento. Serviu para botar o Collor fora do Poder.

- Sim, agora sabe, porque o Itamar tomou posse. E aí, os culpados foram punidos? Mas dou-lhe um doce se me disser o que é honestidade, sem se arredar desse Poder.

- Que gostinho tem a senhora em tornar-me desacreditado diante destes governados!...

- Oh! Desacreditado é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: “Não sei, Povo, não sei o que é honestidade. Vá buscar uma providência nas urnas, meu filho!...

- Mas se eu sei! E se não digo é para me não humilhar diante dos meus eleitores. Não dou a mão à palmatória. Quero conservar a mordomia que devo ter neste País.

O Senhor Governo, no maior cinismo, deixa a sala do Poder Judiciário. Adentra suas fraudes. Lá, havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas verbas para colocar nos bolsos e umas CPI’s furadas. A Esperança toma a palavra.

- Coitado do Governo! Foi descoberto logo depois de roubar. Dizem que é tão perigoso!

- Não fosse mentiroso – observa a Corrupção – e confessasse que não sabia o que é honestidade.

- Pois sim – acode o Povo, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela anarquia – pois, sim, Corrupção, desfaçam as bases...

Dona Corrupção  vai bater à porta do Governo:

- Seu governo, venha roubar, não vale a pena ser honesto por tão pouco.

O Governo espera a reeleição. Atravessa a crise do país deixando o rasto da sua incompetência e roubalheiras entre os três poderes:

- É boa! – brada o Governo – é muito boa! Eu! Eu ignorar a palavra honestidade! Eu!...

O povo e a Esperança aproximam-se dele. O Governo continua em tom irônico:

- Honestidade é uma palavra decretada pelas eleições, estabelecida apenas em comícios. Uma palavra “grega”, percebem? E querem introduzi-la no Brasil. É mais um ficcionismo!....

 

 

 

Escrito por wanda.cunha às 20h43
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CAROL E ANA TEREZA: A MÚSICA

Por Wanda Cunha


Como disse Verlaine, “Antes de tudo, a música”. E assim nasceram Carol e Ana Tereza, de cromossomos que definiram as moléculas de sua musicalidade.

As infâncias de Carol e Ana Tereza traziam uma instrumentação de emoções que foi se desenvolvendo no percurso de suas idades.

Suas primeiras primaveras viveram o enlevo do solo saudoso  da avó Jacimira, tão plácida, acalentando-as sob o acompanhamento musical do armador que rangia no embalar da rede, entre o dó,ré,mi de “Tango para Tereza”, música com a qual ela adormecia as duas netas e com a qual afinava a saudade da filha que já havia subido aos céus.

 Em meio à orquestra sinfônica da casa grande do Conjunto Radional, por vezes, elas despertavam ouvindo o tenor do avô Carlos Cunha, que cantava a música “Laura”, em momentos em que o condor se sentia feliz, esvoaçando-se à mercê dos versos; outras vezes, era o soprano da mãe que as acordava, como uma patativa, ensinando-as o tom do amor através da música Cinderela.

Na sala, o piano alemão foi o brinquedo de estimação das meninas, que ensaiavam desordenadamente as suas pequeninas mãos sobre os teclados, na traquinagem dos bemóis e sustenidos, exatamente na hora em que a mãe Isabel dedilhava Beethoven.

O encantamento da música e da poesia foi ocupando o espaço acústico da sensibilidade de Carol e Ana Tereza.

Ao lado das primas, as cantigas de roda foram paulatinamente substituídas pelos musicais deixados pelos ancestrais.

No quarto das tias Cristinas, elas chegaram a contemplar o semblante sombrio e taciturno de um acordeom do passado e lá também mantiveram o primeiro encontro com o samba, do qual ouviram atentas as interferências que o cavaquinho fazia ante o diálogo entre o tambor surdo e o pandeiro.

As partituras das lembranças foram lidas e relidas entre os solfejos do talento e da determinação. E Carol e Ana Tereza finalmente chegaram ao primeiro CD. A viagem foi um espetáculo musical de sangue, suor e arte. Chegaram da infância, da adolescência; mas, antes de tudo, chegaram da música, sob os aplausos e abraços de Orfeu, chegaram para cantar, encantar e decantar o mundo.  

Escrito por wanda.cunha às 18h47
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19/03/2008


PEGUEM O LADRÃO!...


 

Wanda Cristina

 


Na era dos celulares, dona Telemar Norte Leste S.A faz as vezes do ladrão. E não é em vão que ela resguarda a sua característica de sociedade anônima. Ninguém tem acesso às informações mais elementares. E ainda que se precise de um detalhamento de contas para comprovar débitos exorbitantes, ela se trancafia nas vozes pálidas de suas telefonistas, que foram instruídas para não tirar as dúvidas do usuário.

Chegam, com precisão, as contas, as cobranças, mas um detalhamento de contas, uma solicitação de reparo, uma vistoria de rede, esses são serviços que chegam a passos lentos, quando chegam.

O atendimento ao cliente é um labirinto de chateações. Até que você consiga falar com o atendente, já esqueceu o que queria dizer. A taxa pelos serviços do 104 é um absurdo. Entretanto, o pior é ter que aguardar na linha para ouvir quinhentas vezes a mesma lengalenga: “Telemar 31. Bom dia!. Para solicitar conserto de telefone, tecle 2; informar pagamento de conta em atraso ou desbloqueio, tecle 3; saber o valor e vencimento de sua conta, tecle 4; solicitar segunda via de conta, tecle cinco; solicitar linha Telemar e prazo de atendimento de nova linha, tecle seis; qualquer outra solicitação tecle sete”. E tecle dez, dez vezes, se possível, tecle mil, mil vezes, para reivindicar seus direitos, ainda que tenha de perder a paciência.

Do jeito que os serviços telefônicos estão sendo cobrados, ou a gente entra na justiça contra a Telemar, ou a gente entra pelo cano. Antes, a desculpa para cobrar conta com valores altíssimos estava amparada  pelos chamados pulsos excedentes, hoje denominados pulsos além da franquia. Agora, dona Telemar arranjou nova maneira de ganhar dinheiro: as chamadas ligações para celular. Assim, para não assumir suas infrações, ela põe a culpa nos concorrentes.

Depois que os governos resolveram privatizar todos os serviços de que o cidadão precisa, este ficou privado de exercer a sua cidadania.  É um saco de gatos. E vejam que as reformas governamentais continuam a subir a rampa do Palácio do Planalto para açoitar, com a conivência do Legislativo, o bom brasileiro que paga impostos.

Pensando bem, na época dos meus avós, telefone fixo  era uma luxaria, um direito de uma minoria privilegiada. Ninguém precisava teclar coisa alguma, nem dizer alô para alguém  com quem iria se encontrar brevemente. Na época dos meus avós, nem havia telefone celular. As conversas eram  tête-a-tête, e todos se comunicavam muito bem. Nos tempos dos meus avós, as pessoas tinham necessidade de estar juntas. Com o telefone, todos têm um motivo para ficarem longe em longe  de quem gostam. E a frase célebre do “te ligo” é repetida várias vezes, sem que se perceba que ela quebra o encantamento da convizinhança. 

Na época dos meus avós a palavra encontro era repetida amiúde. “Te encontro na praça”, “Te encontro lá em casa”, “Te encontro” no cinema. O verbo ver, na época dos meus avós, era deveras significativo. “Te vejo logo mais”, “Te vejo mais tarde”, “Quero te ver”. Hoje ninguém mais vê ninguém. Tornamo-nos invisíveis para os nossos semelhantes. Estamos em todos lugares ao mesmo tempo e, na verdade, não estamos em lugar algum. Nossos amigos vão perdendo, pouco a pouco, a lembrança do nosso rosto, e  ficamos reduzidos a uma voz esbaforida que sai por um aparelho insensível que nos desumana.

Os nossos olhos vão virando nossos ouvidos. A sinestesia pode parecer uma hipérbole, mas todos hoje vêem com os ouvidos. E esse “ver com os ouvidos” logo, logo, também vai entrar em desuso, porque, na era digital, o barato é ver com os dedos. O real torna-se apenas uma imaginação. Por conta da modernidade, o amor hoje é virtual. A amizade é  uma tecla de atalho que não leva a lugar algum. Falamo-nos por e-mail, perdemo-nos em links e hipertextos que reproduzem a nossa solidão. Sim, a cada dia que passa, vamos ficando mais sozinhos. Apenas a máquina é a nossa companheira inseparável.

Logo, dona Telemar não tem motivos para fazer a festa com o dinheiro alheio. Ela mesma já não faz tanta falta diante da modernidade. Telefone fixo é coisa do passado. A bem da verdade, nem “oi” ela soube dizer, quando resolveu prestar serviços na área da telefonia celular.

Por conta disso, quero que todos os meus amigos não se assustem, quando ligarem lá pra casa e ouvirem aquela voz enfadonha dizer que meu telefone está temporariamente programado para não receber chamadas. E acreditem todos: meu telefone estará programado para não receber chamadas, até que o Poder Judiciário dê um jeito nessa moça telemartirizante. Em compensação, enquanto a voz enfadonha persistir, eu terei a oportunidade de conviver com as pessoas de que gosto, sem ter que lhes mandar beijos por um aparelho telefônico que, em não dispondo da capacidade humana de amar,  desconhece que eu sou uma amante à moda antiga.

 


Escrito por wanda.cunha às 00h18
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CONFUSÃO ACENTUADA



Wanda Cunha

 


A Acentuação Gráfica resolveu fazer uma festa, e a Gramática Normativa ficou responsável pelo cerimonial. Foram convidadas as mais elegantes famílias do vocabulário da Língua Portuguesa: os Oxítonos, os Paroxítonos, os Proparoxítonos, os Hiatos, os Ditongos, os Monossílabos Tônicos...Contudo,  dona Gramática cometeu um grande pecado: ela só convidou as palavras de sílabas tônicas acentuadas. As demais ficaram de fora. Hum!... Foi uma confusão!...

Os primeiros que chegaram à festa foram os oxítonos terminados em A, E e O. Alguns deles vieram acompanhados de S; outros, não. ALIÁS, muitos deles empanturraram-se de VATAPÁ. Por sua vez, VOVÔ e  VOVÓ detiveram-se a tomar CAFÉ, enquanto, de TRAVÉS, admiravam o BALANCÊ dos que ainda não eram AVÓS.

Os monossílabos tônicos, também com terminação em A, E  e O, acompanhados ou não de S,  foram na carona daqueles oxítonos. Quando colocaram os PÉS no salão, estavam em ritmo de dança. As músicas  eram tocadas apenas em DÓ, RÉ, FÁ, LÁ, porque o MI e o SI estavam ausentes, já que os monossílabos e  vocábulos oxítonos terminados em I e U, por falta de acento, não foram convidados. Assim, no cardápio, não havia CARURU nem torta de SURURU. Nas saladas de verdura faltou o CHUCHU.  Também, não serviram os famosos licores de CAJU e SAPOTI.

Em contrapartida, oxítonos terminados em I e U, que formam hiato, estavam na festa, porque devidamente acentuados. Assim, os sucos de AÇAÍ sobejavam nas jarras armazenadas em BAÚS. Líquidos havia em abundância inclusive água, mas era proibido ir ao banheiro, ainda que lá houvesse assento, porque o XIXI não foi convidado por causa da falta de acento.

Os verbos no infinitivo, sem a terminação –R, acompanhados dos pronomes oblíquos nas formas –LO, -LA, -LOS, -LAS, são acentuados, caracterizando oxítonos terminados em A, E e O. E foi por isso que  dona Gramática resolveu CONVIDÁ-LOS, RECEBÊ-LOS bem, PÔ-LOS em mesa VIP.

As Palavras oxítonas terminadas em -EM e -ENS estavam de PARABÉNS, dada a elegância com que adentraram o baile. Houve, entrementes, um  PORÉM: elas levaram a tiracolo os monossílabos e os paroxítonos terminados em –EM E –ENS, mas eles foram barrados, pela falta de acento. Apesar de JOVENS, os monossílabos e paroxítonos terminados em -EM e -ENS entenderam que SEM convite não poderiam entrar e, se FOSSEM brigar, a confusão seria pior. Assim, eles voltaram pra casa, mas ficaram BEM, SEM os BENS que poderia lhes fazer a tal festa.

Contrariamente, as formas verbais de terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos TER E VIR entraram na festa, por conta do acento circunflexo, que as diferencia das formas verbais de terceira pessoa do singular do presente do indicativo dos mesmos verbos. E era a própria Gramática quem alardeava antecipadamente: -“eles TÊM convite, mas ele não TEM, logo eles VÊM à festa, mas ele não VEM”.

As paroxítonas, oriundas de formas verbais da terceira pessoa do plural dos verbos CRER, DAR, LER E VER, também estavam presentes, porque levam acento circunflexo sobre o primeiro –E da terminação –EEM. E não é pra menos que elas LÊEM todas as colunas sociais, CRÊEM nos socialites e ainda que DÊEM alguma puxação,  VÊEM que são respeitadas no território da língua nacional. Outras palavras paroxítonas, por sua vez, não gostam de protocolos. As terminadas em R-X-N-L, por exemplo, chegaram atrasadas e cantando como se fossem as consoantes de um RouXiNoL. Uma veio a CARÁTER; alguma se sentia privilegiada como uma FÊNIX; outra pensava que estava no jardim do ÉDEN. Para elas, era FÁCIL participar do evento, já que estavam acentuadas.

Os paroxítonos terminados em –I (S), -US, -UM, -UNS, -AO(S), -Ã(S), -EI(S) – PS chegaram em bando. Teve até quem desse BERIBÉRI. Muitos estavam de TÊNIS; outros, com BÔNUS pela participação no evento; alguns levaram até ÁLBUM, ou melhor, vários ÁLBUNS nos quais colocariam as fotografias da festa. Os ÓRFÃOS tocaram ÓRGÃO, os JÓQUEIS foram AFÁVEIS. Houve de tudo: ÍMÃ E FÓRCEPS...

Em seguimento, apresentaram-se ao baile as palavras paroxítonas, terminadas em encontros vocálicos átonos, seguidos ou não de S. –EA(S), -EO(S), -IA(S), -IE(S), -IO(S), -AO(S), -UA(S), -EU(S), -UO(S).Todas fizeram uma verdadeira BOÊMIA, com direito a ÁUREAS gargalhadas.

Na festa, os mais empavonados eram os proparoxítonos. Todos estavam presentes: do FÚNEBRE ao LÉPIDO; do MONOGÂMICO ao BÍGAMO; do CÂNDIDO ao BÁRBARO.

Compareceram também à festa os HIATOS, cujos –I ou –U, formando sílaba sozinhos ou com –S-, ficam em sílaba diferente da vogal anterior. O VIÚVO  veio do PIUAÍ  só para soltar FAÍSCA dos olhos diante de tanta maravilha de festa.    

Mas a RAINHA foi barrada na festa, porque os –I  e   –U de um hiato que precede o dígrafo NH não podem ser acentuados. Também não são acentuados –I e  –U tônicos da base dos ditongos –IU  e –UI, quando antes deles vier uma vogal. Assim, a gramática ATRAIU muita gente para a festa, mas não CONTRIBUIU para o sucesso do evento. Ora!... A RAINHA, que é nobre, foi barrada, imaginem os plebeus!...

As palavras paroxítonas terminadas em hiato –OO entraram na festa, porque o penúltimo –O sempre é acentuado. A gramática normativa foi generosa e disse: ABENÇÔO a presença de tais paroxítonos. Contrariamente, os paroxítonos terminados em OA e OE não tiveram BOAS notícias. Dona Gramática, por não abrir mão do acento, disse-lhes: “VOA tu, VOE você, VOEM vocês. Xô da festa!...”.

Entrementes, os ditongos abertos -ÉI, ÓI E ÉU foram convidados e ainda levaram TROFÉUS, ANÉIS,  e JÓIAS para as  anfitriãs.  Os grupos –GUE, GUI, QUE, QUI fizeram GUERRA, porque só foram aqueles, cujo U poderia ser pronunciado, pelo uso do trema. Logo, tudo poderia ter sido TRANQÜILO, ELOQÜENTE, se dona Gramática não tivesse feito distinção entre os vocábulos.

Foi por isso que a coisa pegou fogo, e o incêndio se alastrou com a chegada das palavras que possuíam ACENTO DIFERENCIAL. PARA (preposição) não PÔDE entrar, mas PÁRA (verbo), como sempre PODE tudo, entrou tranqüilo, PÉLA (substantivo) e PÉLA (verbo) também entraram, mas PELA (preposição), não. PÉLO (verbo) entrou e PELO (preposição) ficou de fora. Foi uma zorra total. Briga na portaria. PÔR (verbo) entrou galhofando de POR (preposição) que foi humilhado na portaria. O PORQUÊ (substantivo) entrou numa boa, enquanto a conjunção PORQUE teve que voltar pra casa desiludida. Eu sei que foi um deus-nos-acuda entre os homógrafos imperfeitos. Até a polícia chegou. Mas a POLÍCIA pôde entrar, por conta de ser uma paroxítona terminada em ditongo crescente, motivo pelo qual os que não eram acentuados foram parar na DELEGACIA.

E ao final, quando tudo parecia sossegado, imaginem quem aparece!...  Mr. Coco. Será que havia água de coco na festa? Disse-lhes anteriormente que havia ÁGUA na festa. Mas esqueci de dizer que o COCO não pôde entrar. Coitado!... Ele berrava entre os braços fortes dos seguranças: “quero minha água, quero minha água!....”. Dona Gramática Normativa mandou um representante até a portaria para saber o que estava acontecendo. E quem seria o ilustre representante? Ilustríssimo senhor  COCÔ. Quando viu o COCO, senhor COCÔ falou cheio de pose:

- Eu sou um OXÍTONO terminado em O, logo sou acentuado, o que me deixa dizer que sou um convidado especial. Agora tu, paroxítono de meia tigela, bem sabes que, se eu sou acentuado, tu não o és. Logo não insistas que não entrarás na festa.

Diante de tanto desaforo, o COCO saiu tristonho, mas muito conformado. E falou com o peito aberto e o nariz empinado para o lado contrário do COCÔ:

- Tudo bem!.... Já vi muitos letreiros assim: “vende-se água de cocô, como já vi muita gente metida à grã-fina beber dessa água. Dona Gramática que se dane, a festa que se dane!.... Onde tu estás, COCÔ, eu não quero estar. “Antes só do que mal acompanhado”.


Escrito por wanda.cunha às 00h10
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13/03/2008


SOLDADO MANDADO NÃO MERECE CASTIGO

 


Por Wanda Cristina

 


A criança é o supra-sumo das vontades, sempre predisposta a querer e a pedir. Por isso, nesse seu jogo astucioso, usa de todos os lances para conseguir o desejado, embora chorar seja o seu xeque-mate dileto.

Levar filho a circo, por exemplo, é prova incontestável de querer bem, posto que circo é uma empresa que existe tão-somente para faturar em cima dos bons propósitos dos pais. Da pipoca aos binóculos, tudo é pago, motivo pelo qual o real, que subsiste no bolso, durante o transcurso da sessão, vira sarapatel de centavos. Assim, enquanto os filhos riem do palhaço no picadeiro, os pais “choram”, porque fazem as vezes do palhaço no sistema capitalista do toma-lá-dá-cá.

Já saíste com teus filhos à Rua Grande, caro leitor? O “Pai-Nosso” é uno: “eu quero isso, eu quero aquilo, eu quero aquilo outro...” Nos shoppings há exatamente o que eles mais querem: tudo. E não passa pelas suas cabeças questionar o preço das coisas, porque o valor do querer é incontestável dentro da concepção infantil.

Na praia, o rito é o mesmo, com a especificidade de que o picolezeiro ou similar faz questão de parar o carrinho no rol dos guris.

Os fantasmas publicitários dos Dias das Crianças, do Natal, do Ano Novo, do Professor, do Estudante fazem parte da nossa previsão orçamentária, bem como os Dias dos Pais e Das Mães, nos quais somos levados a darmos presentes a nós próprios, mesmo que não queiramos, porque há – como diz a música – um “lado carente dizendo que sim e esta vida da gente gritando que não”. Conquanto, se fizéssemos uma análise mais detalhada dos fatos, verificaríamos que os nossos filhos são os mais vulneráveis aos abusos do merchandising, a começar pelas novelas mexicanas importadas; pelas frementes aparições da Xuxa, agora mais chata com Sacha, e as demais sucessoras, esnobando suas griffes que levam os baixinhos às vontades mais perdulárias. E, para completar, são alvos das publicidades de um “tchan”, que traz, no bojo de suas apresentações, uma intenção muito mais indecente, que é incitar as crianças a uma despersonalização, capaz de robotizá-las através de um rebolado, de certa forma, erótico, colocando em risco, inclusive, o bom desempenho de suas formações.

À base de tudo isso, lembrei-me que, em nossas remotas férias de julho, sob os auspícios do sol da praia, firmava-se, constantemente, uma fila ante o nosso banho. Eram carros de picolé, de sorvete, de cachorro-quente e outros. Parecia que as nossas filhas eram um ímã a atrair todas aquelas guloseimas.

A propósito de tudo, certa vez disse meu marido:

                                                         - Hoje faremos um piquenique na praia. Levaremos tudo de casa..

Wanessa, àquela época com cinco anos, virou-se peremptoriamente:

                                                  - E o sorvete? O Picolé? Também ‘tão levando?

                                                         - Nada de sorvete e picolé – retruquei – vocês comem tantas baboseiras que, quando chegam em casa, não se alimentam direito.

                                                          - Não vai ter sorvete, nem picolé? – insistia a caçula.

                                                          - Não, filha, não vai haver. Vamos evitar os resfriados. As amígdalas de vocês não resistem a tanto descaso, já basta o tempo em que vocês passam dentro dos olhos d’água. E, assim que o vendedor parar perto de vocês, digam que não querem, para que ele não insista.

  Em tons compreensivos, Wanessa deu-me um beijo:

                                                    - Tudo bem, mãezinha, nada de picolé.

Na praia, Wanessa ia cumprindo à risca a determinação materna. Em dado momento, deixou de brincar com o seu balde de areia. Ao longe, reconheceu o vulto do picolezeiro. A pequena pressionou as bochechas com as mãos, direcionando o som, a deduzir que sua voz seria levada pelo vento. E gritou decisiva:

                                                  - Picolezeiro, ê, picolezeiro!...

Certos de que – pela distância -  o vendedor ambulante não ouviria o seu chamamento, olvidamos os gritos de Wanessa. Todavia a silhueta, aos poucos, aproximava-se. E Wanessa insistia em sua evocação:

                                                   - Picolezeiro, picolezeiro!....

                                                          Quando imaginávamos que a menina gritava em vão, o picolezeiro estacionou seu veículo à nossa frente.

A caçula deu um sorriso de vitória, um sorriso prazeroso e sem pecado. E falou  cheia de silepse:

- Senhor Picolezeiro, a gente não queremos picolé.



Escrito por wanda.cunha às 17h58
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12/03/2008


POESIA DEU À LUZ, de Wanda Cristina

 

Na hora do parto, foi um alvoroço. Poesia, no começo, fez um escândalo  tamanho, que eu pensei que seria necessária uma cesariana. Sua idade avançada suscitava uma gravidez de alto risco. Há bem pouco tempo ela havia tido um aborto espontâneo. Mas tudo transcorreu bem, depois do pasmo de dor. Estava ali uma bela quintilha,  cinco pequeninos versos que ela foi entregando, quase pari passu, ao mundo. Apenas o primeiro verso saiu em delongado espaço de tempo em relação aos outros. Pensei até que daquela gestação fosse fluir apenas um verso monossilábico. Mas, na medida em que vi verso por verso sair de dentro de Poesia, percebi que ela me daria uma estrofe em  redondilha maior, maior do que sua infrutífera primeira gestação.

O primogênito era, sem dúvida, um verso branco, igual  ao caçula, com traços da mãe. Os três do meio, esses, sim, saíram ao pai. Traziam uma aparência singular do estilo de Omar Khayyam, ainda que não fossem descendentes do Rubaiyat. Ela e um persa  acasalaram-se por um curto período de tempo. Ele, por ironia do destino, supria um amor ao vinho e à música, sempre dormindo sobre as mesas do bar em que morava. Os recém-nascidos ainda não conheciam o pai. Por isso, eu queria dar-lhes nomes, antes que o conhecessem, mas eles eram pequenos demais para que se pudesse definir o gênero de cada um. Não obstante, fiz uma lista de nomes, muitos dos quais as minhas filhas não gostaram: Écloga,  Elegia, Ode, Sáfico, Epopéia. Pensei até em Mahabárata,  Ramáiana e Sacuntala.

Entretanto, Poesia não estava preocupada com o nome que eu daria aos seus filhos. Seu primeiro momento de parturiente foi de inteira dor, seguida de preocupação e responsabilidade maternais. E foi sob esse clima que se deitou ao lado dos quíntuplos e deixou que eles disputassem seu leite, para depois dormitarem sobre suas tetas...

Em frente da televisão, eu assistia à notícia da mãe que, em Imperatriz,  matara o próprio filho. Poesia, ao meu lado, assistia à reportagem sem fazer comentários, entregue ao momento singelo do aleitamento. Ela nem piscava. Silente,  exibia um olhar azul, como os seus olhos...

Foi, então, que percebi o contraste da natureza. Mães que amamentam, diante de outras que matam... E  lembrei que nunca ouvira a notícia de que algum bicho cometesse tamanha atrocidade. Li, entretanto, há pouco tempo, na Super Interessante, que a constituição física do porco é muito parecida com a do homem. E reconheci, diante do noticiário, que não é apenas a constituição física que define essa similaridade. Afinal, os atos humanos chegam a ser mais  torpes e abjetos; os sentimentos, mais obscenos e vis.

Algumas mulheres sentem-se insultadas quando a denominam de vaca. Denominar de vaca uma mãe que mata seu filho,  é, sem dúvida, insultar a vaca, que dá de mamar a seus novilhos e propicia ao homem inúmeros produtos utilitários, como   a cola e a vacina, extraídas do seu sangue; como o sabão e a tinta, derivados do seu sebo; como os cosméticos e remédios, originados dos tendões de suas patas; como os filmes fotográficos, oriundos de seus ossos; como o fertilizante, de seu estrume. (V. Super Interessante, edição 192, Setembro, 2003).

(...)

O certo é que o menor está sendo açoitado amiúde em todo o Brasil, enquanto a maioria cruza os braços. Em cada semáforo de São Luís, por exemplo, há inúmeras crianças e adolescentes jogados à marginalização. E no intervalo de uma limpeza que fazem, com uma flanela suja, a um pára-brisa de carro, eles aproveitam para cheirar  cola diante de guardas, cegamente obstinados, que só se preocupam em multar aqueles que furam o sinal. Nos seus silvos alongados, eles não querem saber se o motorista pisou o acelerador com medo de um menor, ou com raiva de um maior que permitiu tamanho vilipêndio. Tudo fica por conta do descaso. E, depois, chegam as multas para os motoristas e para os menores, que são, aos olhos das autoridades e da sociedade hipócrita, os que cometem as maiores infrações no trânsito da vida.  Até os pais  escondem suas responsabilidades e transferem sua culpa a terceiros.

Enquanto isso, Poesia deu à luz. E não permite que ninguém chegue perto de seu leito para assustar seus filhotes. Depois que pariu, nunca mais deu uma volta sobre o muro. Se fosse humana, não seria tão dedicada. Entretanto, é apenas uma gata siamesa, que não cobra pensão alimentícia pelo desinteresse do gato persa, aquele que lhe deu tão grande  prole. Assim, na medida em que leio reportagens sobre pessoas que matam seus semelhantes, descubro que o homem alcança de tal forma seu estágio de imperfeição, que os bichos estão, a cada dia, melhores  do que ele. Por conta disso, passo a mão sobre os pelos da minha gata. Ela nem precisa miar. Seu silêncio traduz amor e fidelidade aos filhos. Seu olhar esboça uma prece de carinho jamais ouvida em língua alguma dos homens.  Sim, em meio a tantas notícias de infanticídio e de violência contra o menor, Poesia deu à luz.  Ainda bem que Poesia não é humana!...

Escrito por wanda.cunha às 21h19
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