A reeleição dos buracos

Estou pensando seriamente em deixar de dirigir. Fa-lo-ei, se for o caso, por dois motivos: o primeiro é que já não se fazem motoristas como antigamente, que o diga a última quadrilha de vendedores de cartas de habilitação recém-descoberta; o segundo é que os buracos das ruas estressam quaisquer cristãos.
A cada dia, chego à conclusão de que o jornalista e escritor Carlos Cunha não era apenas um homem polivalente em suas atividades intelectuais e profissionais; era, também, um jornalista de todas as épocas que continua atualíssimo, apesar do esquecimento a que os seus contemporâneos e conterrâneos tentam deixá-lo. Em crônica datada de 1967, Carlos Cunha dizia o seguinte:
“Alguns motoristas da Ilha, meus amigos, ontem chamaram-me a atenção para o buraco da Rua José Bonifácio, em frente ao Instituto "Zoé Cerveira". Há mais de três meses, deixei o Jornal do Dia, mas recordo que muito antes mesmo de me afastar daquele matutino, já os repórteres davam em cima do Prefeito, chamando a sua atenção para o problema. Ingressei nas fileiras do Jornal Pequeno, e, aqui, também assisto, constantemente, sair na primeira ou última página, notícia sobre o buraco, dando a sua dimensão, a sua idade, os prejuízos que causa aos veículos, em suma, pela primeira vez, em toda a minha vida, leio a biografia de um buraco.
Mas meus amigos motoristas também me disseram que o buraco completou, recentemente, o seu primeiro aniversário de existência. Sendo assim, devo repetir aqui a célebre frase dos cronistas sociais, registrando o fato como ele deve ser registrado, porque não seria possível que um buraco tão popular, não gozasse o direito de ter o seu nome
A crônica de Carlos Cunha não é apenas um retrato vivo da São Luís de ontem. Muito mais que isso, é uma reprodução fidedigna da São Luís de hoje. O que me deixa dizer que, politicamente, no pulo de um século para o outro, São Luís não mudou. Os políticos continuam sendo os mesmos, pequeninos políticos, frutos de votos também pequenos, porque pequena ainda é a democracia. E tanto é verdade que se multiplicaram os buracos e já não há como acender a velinha da primeira primavera da existência de um buraco, se os inúmeros buracos vêem transcorrer, na nebulosidade de suas existências, a passagem de inúmeras primaveras das quais brotam, inclusive, gardênias que viram primeiras damas municipais. Mas os invernos, que vão e voltam, continuam levando a culpa pelos buracos, ainda que, há algum tempo, já não encontrem espaço para reconstruir novos buracos com suas chuvas. Por isso, os papagaios prefeitos comem milho e as periquitas chuvas levam a fama.
A Cidade Operária, por exemplo, com um número considerável de eleitores, com aproximadamente 200.000 habitantes, vive cheia de buracos há anos, igual à Rua José Bonifácio, ludibriada pelas cuspidelas dos serviços de obras públicas municipais. Se vivo fosse, Carlos Cunha assistiria a novos descasos, posto que a pessoa de Epitácio, agora, é a pessoa do Palácio que, literalmente, não consegue sair do palácio de sua vaidade e inoperância. Assim, em vez de colocar asfaltos nas ruas, vive a colocar bodoques no rosto para tapar os buracos que lhe causam as rugas da idade.
O governo fica sediado no palácio, mas foi Palácio quem assediou o Governo com a intenção de duas gestões que não levaram o município a progresso algum. E o pior é que os buracos não estão apenas nas ruas e ladeiras; os buracos estão por todo o canto. O povo, se assim o quisesse, até que poderia batizar os buracos, desta feita, em nome do epitáfio da esperança das pessoas que ainda se dão o luxo de votar nos fazedores de buraco. Por falar nisso, parabéns ao TSE pela feliz propaganda política: quem quer mais quatro anos de um ir-e-vir que não leva a lugar algum?
E, por falar em eleição, ontem (cinco de outubro de 2008, aniversário também da Carta Magna) foi o dia da “cidadania”, da “democracia”; o dia “D”. Eu particularmente acho que ontem foi o dia “D”eles. Quem pegou seu quinhão, está feliz da vida. Quem perdeu a mamata, não perdoa ao eleitorado. E quem foi para o segundo turno, espera o final da partilha. Quem será o novo prefeito? Alguns apostam no velho; outros apostam no novo. Eu, particularmente, aposto nos buracos. Eles conseguem ser tão novos quanto velhos. Sai prefeito e entra prefeito; e eles, os buracos, permanecem fiéis, constantes, perseverantes aos olhos e aos pés do povo.
Fotógrafo vê fantasma na Rua da Estrela

O fantasma da Rua da Estrela
Wanda Cunha
A Prefeitura de São Luís, por meio da secretaria municipal de Turismo promoveu, mês passado, o Concurso de Fotografia “Um Olhar sobre São Luís” . Podiam participar fotógrafos profissionais e amadores residentes e domiciliados em território nacional. Fiquei entusiasmada com a idéia e me predipus a fazer parte dos concorrentes. Não era o valor de R$ 1.000,00 que me seduzia. Era o amor exacerbado pela ilha. Filma-la era um pretexto para rodeá-la, paquerá-la, amá-la. Dar a volta ao redor do seu paisagismo, subir suas ladeiras, descer seus becos.... Assim, tirei um final de semana para namorá-la e me deixar seduzir pelos seus encantos.
O tempo estava temperamental: ora o sol brilhava radiante, ora o céu nublava. Na litorânea, uma carreata de um candidato a prefeito de São Luís. Driblei as filas de puxa-sacos e fui parar na Lagoa da Jansen, triste Lagoa da Jansen, esquecida em pleno domingo sob o silêncio do mau humor de um final de semana desocupado e o mau cheio dos esgotos. E, ao longe, uma canoa e um pescador, ambos também tristes, como se estivessem sobre uma lagoa de lágrimas, levados pelo remo do descaso e da exclusão.
Atravessei a ponte, vi a beira-mar, triste beira-mar no suplício da baixa-mar. Tudo era tão triste que até a maré era vazante, deixando uma solidão na ociosidade do cais. A cidade antiga estava vazia, o Reviver parecia viver ao léu pra não dizer que estava in extremis. Casarões esquecidos...e alguns turistas fazendo a ceia nas calçadas... Tirei foto das escadarias, dos prédios e azulejos. De repente, a câmera detectou a paisagem de um fantasma na rua da Estrela: era um prédio habitado por brenhas com a fachada sombria, o telhado de folhas verdes, como se ainda sobejasse a esperança de que seria restaurado, sem janelas, sem azulejos, quase também sem histórias...
Nas vésperas de seus 396 anos, vi, então, no foco da máquina, a minha São Luís largada, com uma área territorial de
Se concorri ao concurso de fotografia promovido pela Prefeitura de São Luís? Não, mas descobri que o fotógrafo é o poeta das imagens e das luzes que vira repórter, ou contador de histórias produzidas em estúdios para sobreviver; um profissional iluminado que, de sol a sol, de flash a flash, de luz a luz, de imagem a imagem, é o artista – altruísta - a revelar o outro, enquanto fica atrás das câmeras.
Letra da música Nossas Bodas
Em homenagem ao meu marido, Washington Menezes, que me atura há precisamente 24 anos (sem que eu fale nos 9 anos de namoro, quando eu o aturei)
BODAS DO NOSSO CASAMENTO (13 de junho, Dia de Santo Antônio)
Washington, eu e o nosso amor (beijos e beijos)
Minha pele pede a teu tato delírios do maracá
Matraco na tua boca toadas ao te beijar.
Minha pele pede a teu tato sussurros do maracá.
Matraco na tua boca toadas ao te beijar.
Por São Pedro, por São Paulo, por São Felipe, por São Tiago.
Jurei por todos os santos que serias meus afagos.
Santo Antônio é o sinônimo
das bodas do nosso casamento
Eu fiz de ti o homônimo
de todos os meus pensamentos.
Fogos, folguedos, fogos, fogueiras, fogos, foguetes...
tudo é teu corpo ardendo ao meu
tudo é teu corpo sobre o meu
tudo é teu corpo dentro do meu.
EM NOME DE MINHA ANGÚSTIA
Wanda Cristina
Sempre que a angústia bate à minha porta, lembro-me desta poesia de Cassiano Ricardo: “Diante da vida fugidia, conservemo-nos serenos. Cada minuto da vida nunca é mais; é sempre menos. Ser é apenas uma parte do não-ser e não, do ser. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer.” Lembro-me desses versos, porque eles traduzem a temporaneidade, a transitoriedade da espécie humana.
Essa história de viver é complicada, porque a vida é a causa da morte. Logo, a morte é uma conseqüência da vida. Morrer e viver são palavras intrinsecamente relacionadas. Assim, não podemos dizer onde começa uma e onde a outra termina. E isso muito me aflige, principalmente quando olho para o lado e vejo que as paredes já não são as mesmas, os muros já não são os mesmos; as janelas das casas mudaram; os carros que transitam nas ruas são diferentes dos de antes; as ruas já têm outra pavimentação e até as avenidas viraram enormes viadutos que levam a vários lugares, muitos dos quais, estranhos, quando até os lugares, antigamente, eram poucos, pequenos e conhecidos de todos nós.
São Luís, por exemplo, São Luís mudou demais. Antigamente era uma ilha grande, grande mesmo, porque cheia de verde. As praças eram verdadeiras ágoras, feitas para o encontro dos pássaros e dos poetas. Hoje, a Upaon-açu cresceu de tal forma que, dentro dela, sentimo-nos distantes, distantes de suas ladeiras, de sua aparência colonial, de seus sobradões antigos, os quais só encontramos no antigo centro. Tudo ficou descentralizado, inclusive os amigos, os conhecidos. Outrora, víamos com freqüência os nossos vizinhos. O que era uma ilha grande, agora é um arquipélago, porque ilhas são os homens que nela habitam, cercados de solidão por todos os lados.
Esta semana, quando li nos jornais a notícia da morte do eminente advogado Clineu Coelho, percebi que, com o passar dos dias, separamo-nos de nós mesmos, das pessoas com as quais mantivemos uma íntima relação de amizade e de convívio. Clineu Coelho era uma relíquia sentimental do meu passado... Um advogado brilhante e humanitário. Um intelectual que cultuava frases filosóficas e poesias memoráveis. Pensava como um causídico e sentia como um poeta.
Amigo da família, inúmeras vezes freqüentei sua casa. Nos meus tempos de meninice, meu pai, de vez em quando, tirava um pouco do nosso domingo para levar uma prosa com Clineu, naquela sua casa grande, abraçada por um jardim enorme, ali, perto do Lítero Recreativo Português. Lá, estava a nos esperar, com doces e sucos, dona Dina. Na verdade, ela era o melhor doce da casa, um doce de pessoa, que conversava com a minha Plácida. Eram duas plácidas trocando idéias, enquanto esperavam a prosa do Carlos e do Clineu acabar.
O escritório de Clineu ficava na rua do Sol, ao lado do Colégio “Nina Rodrigues”. Carlos Cunha e Clineu também proseavam no decorrer da semana. Ora na lanchonete do Almir, ora no seu próprio escritório advocatício, ora no Colégio, ora na João Lisboa, ora entre doses de luares e de estrelas nas noites boêmias do Hotel Central e Moto Bar... De quando em vez, eu ouvia um chamar o outro de irmão. Era uma amizade feita entre poesias e petições jurídicas, aulas e audiências, domingos e segundas. Antigamente, também, as amizades faziam parte do cotidiano, e as pessoas se respeitavam, até quando brincavam. Os amigos estavam presentes em todas as horas. Hoje, até as horas se ausentam, como se houvesse uma fenda no tempo pela qual passado, presente e futuro escapam sem deixar vestígios.
A morte de Clineu me angustia muito!... A morte de Clineu me angustia de tal forma que as minhas palavras saem secas de dentro de mim. Nem as lágrimas conseguem molhá-las. A aridez está no meu estado de espírito e no espírito deste Estado. O Maranhão perdeu um homem de valores profissional e humano. Perdeu também parte da autenticidade da história cultural de seu povo. Sim, a cultura do Maranhão, em sua dinamicidade, vai perdendo paulatinamente a sua identidade primitiva. Morreram Clineu, Waldelino Cécio, Alexandre Júnior e tantos e tantos outros maranhenses respeitáveis!... E o meu medo é ver exaurir da curta memória do povo as histórias que eles fizeram e as histórias que eles contavam. Enquanto cresce o número de jamaicanos, os nossos atenienses estão partindo em busca da Grécia de Deus. Sem muita delonga, não vai mais haver a lembrança do tempo em que o Maranhão ainda era Atenas Brasileira. Não haverá discursos nos bares, poesias nas praças, poetas nas ruas, livrarias nos becos, nem advogados como Clineu....
Quando li nos jornais a notícia da morte de Clineu Coelho, lamentei o tempo que perdi por não inventar prosa aos domingos para trocar com ele e encher minhas filhas dos doces de dona Dina... Era um amigo de verdade!.... Quando meus irmãos e eu ficamos órfãos, vi nossa tristeza no semblante dele. Tentando conter a ausência do irmão que perdera, criou palavras de resignação para nós - os filhos - que ficávamos nesta vida dissimulada...
Agora, foi a vez de Clineu partir. Não tenho uma palavra de resignação para dar a Dona Dina e ao seu filho!... Não tenho uma palavra de resignação para dar a mim mesma!...
O bêbado e outros poetas - 1ª parte
Wanda Cunha
Um bêbado entrou no Bar dos Poetas, um lugar noturno bem freqüentado pela nata literária da Cidade. Ali, havia saraus de que participavam os melhores artistas. Naquele dia, atores declamavam os poetas de que mais gostavam, sob o aplauso de uma sociedade cheia de salamaleques. Todos bem alinhados e comedidos, tentaram obumbrar a presença do bêbado, cabelos desgrenhados, com andar cambaleante e descomedido, que se refestelou numa mesa próxima do palco e gritou ao garçom uma dose de pinga. Foram muitas doses que o suor pingava. Começou o show. Um elenco, ao fundo musical de um piano, declamava grandes poetas do Brasil.
A primeira poesia era de João Cabral de Melo Neto:
- “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.
O bêbado, que parecia não ouvir coisa algum, interrompeu o espetáculo com um grito que soou no ouvido de todos:
- Galo que precisa de outro galo é fresco. Cadê as galinhas daqui, cara?
O ator ignorou a intromissão do bêbado e prosseguiu sua apresentação. A platéia permaneceu silente. Aplausos no final. Outro ator anuncia nova poesia do poeta
João Cabral de Melo Neto:
“catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar”.
E o bêbado tornou-se a intrometer:
o que boiar é merda.
Desta vez, a platéia fez um coro de chateação:
- ah!...
Mas o ator seguinte ignorou o intrometimento do alcoolizado e declamou
Mário Quintana:
“O cronista escolheria a palavra do dia: ‘Árvore’, por exemplo, ou ‘Menina’.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página...”
E o bêbado interrompeu:
- Cadê os pais dessa menina. Será que eles não sabem que o mundo está cheio de tarados?....
surge, trazendo à baila um poesia de Drummond:
- “lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.
E o bêbado conformado:
- melhor é o mudo, que não precisa lutar.
Outro poeta declamava Quintana:
“Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico:
‘Acabaram-se os bondes amarelos!’
Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros.
Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo:
‘Acabaram-se as tias solteironas...’
Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema...”
E o bêbado bradou:
- Nesse bar só tem prostituta!....
O Bêbado e os Poetas
Wanda Cunha Outro poeta declamava Marina Colasanti: “Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar. Nunca recebeu resposta. Mas tornou-se alcoólatra.” E o bêbado apoquentou-se: - alcoólatra é a mãe. Outro poeta declama Drummond: “gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro Inquieto, vivo. Ele está cá dentro E não quer sair.” E o bêbado sugere: - toma lacto purga, cara!... Um poeta declama Augusto dos Anjos: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!” E o bêbado é oportuno: - Já que tu ta dando o fósforo, dá também o cigarro que o meu acabou. Outro poeta declama Augusto dos Anjos: “Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! E o bêbado - na hora H, dizem que bêbado é que gosta de provocar. Um poeta declamara Oswald de Andrade: “que há por aí? Amor Chuva ao longe Jogo Mormaço Mentira Radar” E o bêbado responde: - só pinga, meu, só pinga. Um poeta declamava Manuel Bandeira: “Quando o enterro passou os homens que se achavam no café tiraram o chapéu maquinalmente saudavam o morto distraídos’...
O bêbado e os poetas
Wanda Cunha
O bêbado levantou-se zangado:
- por que não me convidaram para a sentinela?
O poeta declamava Cecília Meireles:
“Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar.
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
E o bêbado:
- depois dizem que eu é que sou o bêbado.
Outro poeta declamada a Modinha que inspirou Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias:
“Quando estava em minha terra
acompanhado ou sozinho
cantava de noite e de dia
ao pé dum copo de vinho”.
E o bêbado:
- Vinho só na Semana Santa.
Outro poeta declamava Bandeira:
“Vou-me embora pra Psárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei”.
E o bêbado:
- posso ir contigo, meu?
Outro poeta declamava Drummond:
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma...”
E o bêbado:
Isso é um caminho ou é uma pedreira?
Outro poeta declamava João Cabral de Melo neto:
“Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria unitária,
Maciçamento ovo, num todo.
E o bêbado interrompe:
Mas é o ovo cozido, frito ou estrelado?
MULHERES DE ATENAS DOMINAM OS DEUSES
Wanda Cunha
O que está acontecendo no Maranhão? É certo que, aqui - por questões etimológicas, maranhas nunca faltaram. Observam-se, todavia, as exonerações em massa dos ocupantes de cargos de confiança, que já não são confiáveis ao novo governo e o corte dos vales-transporte e das vantagens dos indefesos funcionários públicos. Logo, se enxugaram a folha de pagamento do funcionalismo público estadual, coisa pior está ocorrendo nos bastidores.
Dizem as más línguas que só há duas alternativas: ou o governo da rosa deixou um rombo tamanho, de tal forma que o marido da magna não está sabendo administrar o Estado, no estado em que as coisas estão; ou o problema é meramente político: estão aquecendo as asas de cera de todos os ícaros que se diziam adeptos da carnavalesca Alexandria.
Com a campanha dos candidatos à Prefeitura e à Câmara Municipal, por debaixo dos panos rola a grana que os pobres barnabés deixaram de receber. E a alta verba que foi cortada em Brasília deve ter tomado um outro rumo, que só se poderá perscrutar, ante os “favores” que alguns candidatos privilegiados fizerem ao povo, com seus ares de moços bons.
Os professores estaduais também estão entre a cruz e a espada: ou aceitam, calados, as retaliações que lhes são feitas pelo governo que rompe com a velha oligarquia, da qual já foi afilhado; ou resolvem colocar suas esperanças sobre o salamaleque do improvisado coração de leão que, no cargo de candidato da rosa, tenta convencer cidadãos e eupátridas, por meio de sua alegoria de palavras e mise-en-scène. E o único prejudicado será a classe estudantil que terá de esperar o dia 23 de agosto para continuar o ano letivo que, certamente, será letárgico.
Tudo são, como diz a música, palpites, pois há os que vêem o que a Veja diz e há os que dizem o que não se vê a olho nu, pois a verdade e a mentira podem estar em todo canto. Dizem amiúde, inclusive, que os outros candidatos querem tirar proveito da briga de titãs. E quem quiser, pode até acreditar em Prometeu, mas que não acredite em quem prometeu, sem nunca ter cumprido, e vai prometer de novo para continuar não cumprindo.
Na condição da Atenas Brasileira que já fomos, queremos crer que estamos em vésperas dos jogos gregos, não os que serão realizados na Grécia, sob o nome de olimpíadas, mas os que já se realizam no santuário da nossa Olímpia, em homenagem aos nossos deuses, que ora querem ser prefeitos, ora querem ser governadores, ora querem ser deputados, ora querem ser senadores. E todos eles pretendem apenas ser os donos do Maranhão, como se estas terras já não tivessem um dono.
O pior é que o espírito macedônio também baixou nestas plagas. Ainda assim, o antigo império de Alexandre, o Grande, foi tão-somente plagiado pelo da magna, que paulatinamente perde seu domínio, mediante sua própria insensatez. Enquanto Alexandre, após dominar o império persa, casou-se com a princesa Roxana, filha de Dario III, para garantir a boa relação entre persas e macedônios, a sua substituta, na história política do Maranhão, rompeu com todas as Roxeanas que cruzaram seu caminho.
O Farol da Educação, que hoje deveria ser Farol de Alexandria, não chega a ser nem uma coisa nem outra. É um candeeiro de penúria que só vai se apagar, quando surgirem as primeiras luzes de votos nas urnas. Antes disso, contudo, quem é de esquerda, ainda vai para a direita; quem é de direita, ainda vai para a esquerda; e quem é inimigo de seu pior inimigo, haverá de ser amigo do dito cujo ou até contraparente, conforme as conveniências. Cairão as máscaras, mas o teatro grego continuará sendo o mesmo, cheio de persona grata de araque.
É lamentável, entretanto, que o povo ainda não tenha percebido que o governo de Clístenes é coisa do passado, e que a democracia desta Atenas é um mar de lamas, cujo senhor fica a administrá-lo, em sua polis, como um eterno filo-basileu.
Destarte, devemos – a mercê de tudo que já foi dito - observar o exemplo dessas mulheres de Atenas, hoje, não mais excluídas. Afinal, paira no ar um único fato, verdadeiramente comprovado: tudo está acontecendo em nome da magna, tudo está acontecendo em nome da rosa.
(São Luís, 14/08/2004) - Esta crônica não pôde ser publicada em jornal algum, em razão dos comprometimentos políticos a que a imprensa no Maranhão está sujeita; ou melhor, em razão dos comprometimentos políticos a que os proprietários de jornais estão sujeitos.

Wanda Cunha
Talvez meu coração não sirva pra nada
Mas ele traz a fama de amar por mim,
Ainda que um dia me sujeite a um infarto.
Talvez meu coração não sirva pra nada
Mas ele me dá a utópica virtude
De ser um amante platônico
Que faz questão de rejeitar o cardiologista
Na hora de diagnosticar as doenças do coração
Sem os sintomas cardiovasculares.
Talvez meu coração não sirva pra nada
Mas é ele quem me diz
Que te amo e isso me basta para
Senti-lo pulsar no meu peito,
Como um relógio que marca diuturnamente a hora
Da tua chegada.
Mão que te dou
Wanda Cristina
Minha mão é um presente que te dou,
Cheia de tatos e calos,
Cheia de linhas e dedos,
Cheia de juntas,
Mas que quer estar junto à tua
Para dizer sem palavras
Que o amor existe
No encontro silencioso das palmas.
Minha mão é um presente que te dou
Para que eu te levante
E para que tu me levantes
Quando nós precisarmos, um do outro.
Ó, meu pai!...
Wanda Cunha em parceria com Wanda Cristina
Ó meu pai
Imagina a saudade!....
Nesta vida corrente,
Socorreram-me as lembranças
E a sábias lições que deixaste
E o silêncio precoce das palavras que levaste.
Ó meu pai,
Procurei escrever as poesias que tu sentirias
E fazer minha história sob a história que escreverias
Fiz um projeto dos sonhos que guardaste pra mim
Quis ser tua imagem, quis seguir os teus passos
Mas perdi-me na ausência dos teus abraços
Ó meu pai
Por tua causa acredito no amor,
no respeito, na paz, na dignidade,
Eu queria herdar tuas virtudes.
E herdar teus defeitos que
- hoje percebo - foram boas qualidades.
Eu queria ser um terço de ti
Mas sem ti não consegui ser eu mesma.
O amor que te dediquei foi pequeno demais
Para a tua grandeza
E quem ignora um amor tão grande e nobre
perde o direito de ser feliz pra ser pobre.
Mas
Nunca fui fraca por conta da lembrança da tua fortaleza
Por isso,
Ó meu pai, se eu chorar põe a culpa nos meus devaneios,
pois perdi minha imagem através dos espelhos
Nos quais eu me mirei à procura de ti.
A PACIÊNCIA DE JÓ
Wanda Cunha
Graças ao meu bom Deus, já vão longe os dias em que eu sentia na pele as tragicomédias a que estão sujeitos os passageiros dos ônibus intermunicipal e interestadual. As rodovias não são aquelas que aparecem nas propagandas de Governo, bem asfaltadas e devidamente sinalizadas. Contrariamente, sempre estão cheias de buracos, embora a culpa de tal fato recaia, comumente, não nas falhas das construtoras para as quais foram entregues os serviços; mas, nos “engenheiros” de São Pedro, que levam a fama de “construir” crateras em todos os invernos.
Mas isso é apenas um detalhe, considerando que os próprios coletivos ficam a desejar, desprovidos de condições necessárias para o seu bom desempenho funcional, colocando em risco o conforto e a tranquilidade dos passageiros. Nas BR’s, esses ônibus pregam mais do que Vieira pregou no Seiscentismo. Com a diferença de que Vieira deleitava os espíritos dos fiéis, e os coletivos denegrem a credulidade de qualquer cristão. Ora fura um pneu, ora é problema no carburador, ora tranca o motor, ora é a pastilha do freio, ora o motorista sai às pressas em direção ao mato...
O certo é que, quando se pega o ônibus da Progresso, ele não progride, enquanto está no Maranhão; se se pega o da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é um “Deus nos acuda!”; e, se um não-fumante pegar o da Continental, é provável até que ele fume, entre tiques nervosos, três maços de hollywood, do Quilômetro Zero a Santa Rita, lamentando a morosidade. Isso sem se contar que o da Timbira, segundo a voz do povo, é sinônimo de “te vira!...”
Contar-lhes-ei uma história que pode até parecer invenção de cronista, mas foi fato verídico que presenciei durante as minhas peregrinações laborais pelas bandas da região do Mearim, fato que só ratifica as assertivas aqui colocadas. Certa vez, um motorista de uma determinada empresa que fazia o trajeto Bacabal/São Luís, após ter parado o veículo no acostamento da BR, virou-se para um passageiro que insistia em ficar na porta do coletivo:
- onde o amigo vai ficar?
O passageiro, na gaiatice do seu bom humor, respondeu sem titubear:
- amigo, vou ficar no próximo prego.
E o motorista era tão equilibrado e paciente que não levou em conta a chacota do passageiro: deu um leve sorriso e arrancou o veículo, assoviando uma canção típica de caminhoneiro.
Quando chegou
- Chegamos onde o senhor queria ficar. – E continuou, dirigindo-se aos demais – Senhores passageiros, fiquem tranquilos, peguem suas bagagens, façam uma fila!... É pra descer um de cada vez, um atrás do outro, calmamente, que o ônibus está pegando fogo...
ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DE UMA TOADA, de Wanda Cristina
Wanda Cristina
CARLOS CUNHA, O CAÇADOR DA ESTRELA VERDE
Melodia: Chagas da Maioba
Letra: Wanda Cunha
Carlos Cunha,
Ó poeta, ó rouxinol,
Tu foste caçar estrelas,
Acender lâmpadas do sol.
Não voltaste da viagem
E a Maioba saudosista
Presta aqui esta homenagem
Ao professor e ao jornalista.
O Colégio “Nina Rodrigues”
E o “Jornal Posição”
São exemplos da cultura
Que deixaste ao Maranhão.
Trovador e declamador,
Membro da Academia,
Historiador e escritor,
Patrono da boemia.
Quem é imortal
Não deixa só a saudade
Deixa a obra e deixa a vida
Como herança pra Cidade.
FIGURAS DE LINGUAGEM ENCONTRADAS NA MÚSICA:
FIGURAS DE PENSAMENTO:
EUFEMISMO: Consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, consiste em suavizar alguma idéia desagradável.
PROSOPOPÉIA OU PERSONIFICAÇÃO: consiste em atribuir a seres inanimidados predicados que são próprios de seres animados.
GRADAÇÃO ou CLÍMAX: consiste na apresentação de idéias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax).
APÓSTROFE: é a invocação ou chamamento de alguém ou de alguma coisa. Corresponde estilisticamente ao vocativo.
METÁFORA: consiste no emprego de uma palavra fora do seu emprego próprio, tendo como base uma comparação subentendida, já que a conjunção comparativa como não aparece claramente.
PERÍFRASE OU ANTONOMÁSIA: É o emprego de uma expressão que identifica coisa ou pessoa, salientando suas qualidades ou um fato notável pelo qual ele é conhecida.
O presente trabalho objetiva fazer um estudo de uma música, tipicamente maranhense, por intermédio da qual, serão estudados os aspectos lingüísticos da letra, observadas as figuras de linguagem, da mesma forma que se preocupará em estabelecer o contexto histórico a que a música sob análise refere-se.
Esta autora escolheu como objeto de análise a toada de bumba-meu-boi de matraca, intitulada “Carlos Cunha, o Caçador da Estrela Verde”, de autoria melódica de Chagas da Maioba e de letra da escritora Wanda Cunha.
Antemão, no que tange ao contexto histórico, há de se dizer que a toada refere-se a um grande representante da cultura maranhense, Carlos Cunha, poeta, escritor, jornalista, educador, historiador, que, ao longo de sua vida profissional, prestou relevantes serviços à cultura do Maranhão, ora fundando instituições respeitáveis, como o Colégio “Nina Rodrigues”, escola de cunho socializado com a qual levava educação aos estudantes de baixa renda; ora fundando jornais, como o jornal posição, órgão de imprensa através do qual combatia o sistema e os malversadores do dinheiro público.
ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DA LETRA DE UMA TOADA, de Wanda Cristina
Cont...
A letra da toada estabelece esse perfil de Carlos Cunha, conforme se observa abaixo:
Ó poeta, ó rouxinol,
Tu foste caçar estrelas,
Acender lâmpadas do sol.
A estrofe acima, de começo, já estabelece um perfil de Carlos Cunha. Os versos trazem a primeira metáfora, através do vocativo ó rouxinol. Tem-se, nesse caso, um apóstrofe, a invocação ou chamamento do poeta Carlos Cunha. Dentro do ponto de vista figurado, rouxinol, ainda que, no seu sentido etimológico, seja a “designação comum de aves passeriformes”, no texto significa uma “pessoa que canta muito bem, que tem linda voz”. Essa metáfora foi usada para traduzir as belas poesias que o poeta fazia, muitas das quais cantadas por compositores como Oberdan Oliveira, por exemplo. Da mesma forma que traduz a facilidade que ele tinha de “Cantar”, ou seja, celebrar em poesia as emoções e realidades do povo com o qual conviveu Verifica-se que essa relação entre poesia e canto estabelece-se pela contigüidade que há entre o poeta e o rouxinol. Os apóstrofes ó poeta e ó rouxinol estão vizinhos para configurar exatamente essa relação entre poesia e canto.
No terceiro e quarto versos, “Tu foste caçar estrelas,/ acender lâmpadas do sol”, tem-se o início de um eufemismo que vai se concretizar na próxima estrofe (Não voltaste da viagem, para não dizer: morreste). Concomitantemente, esses mesmos versos trazem à baila duas obras literárias do poeta “O Caçador da Estrela Verde” e “As lâmpadas do Sol”, que deram alusão ao título da toada. Considerando que “O caçador da estrela verde” é uma perífrase do escritor Carlos Cunha, a autora da letra usou a expressão “Caçar Estrelas” para lembrar a perífrase e, ao mesmo tempo, demonstrar a suavidade da partida, da viagem que o poeta fez para a morte, usando expressões eufemísticas, também observadas em “acender as lâmpadas do sol”.
Essa análise é corroborada na segunda estrofe, conforme se vê:
Não voltaste da viagem
E a Maioba saudosista
Presta aqui esta homenagem
Ao professor e ao jornalista.
Tem-se, portanto, que o poeta não voltou da viagem na qual foi caçar estrelas e acender lâmpadas do sol. Na verdade, o poeta morreu. Algo que está literalmente entendido no adjetivo “saudosista”, dado à Maioba, É a super-estimação que o cantador Chagas, representante máximo do folguedo folclórico que é a Maioba, faz ao passado que traduz Carlos Cunha. As palavras professor e jornalista são usadas como antonomásia de Carlos Cunha.
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BRASIL, Nordeste, SAO LUIS, OLHO D AGUA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese, Livros, Arte e cultura, música, bumba-meu-boi
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