Blog de wanda.cunha

Carlos Cunha e outros autores


26/04/2008


PUNHAL DE AURORA

 


Poesia de Carlos Cunha


 

Ainda escuto a fala do meu

Iluminando o silêncio de tapeçaria

Na nossa casa de telhado verde.

 

O rio que lavava a ruazinha estreita

Não vegetava mágoas.

Ainda escuto a canção de aurora

Que tocava o homem do realejo,

 

Saudade de Maria,

Com seu olhar umidecido de alvoradas.

 

Muitas e muitas vezes

Percorri as ruas, carregando sonhos nas mãos inocentes

Brincando com os meus irmãos

Que naquele tempo eram apenas anjos de porcelana

Num país sem memória.

 

Hoje,

Que Rominha tem outro nome

E outras as crianças que ali residem,

A perspectiva das casas tornou-se paralela.

 

Deuses tiranos caminham sobre a lama viva

E os jardins que sorriam, como as janelas,

Agora são de luto.

 

Como a infância corre depressa

Na terra grávida do tempo!....

 

Os meus sonhos já não são fantasias de papoulas,

Mas castelos de ventos.

 

 

 

Ah se o tempo voltasse

Talvez pudesse colher a flor de sede

Que deixei entre um prelúdio

Num santuário que nunca foi de súplica.

 

Ainda bem que as minhas ilhas continuam verdes

E as palavras do meu filho morto permanecerão desconhecidas

 

Só assim afasto da minha boca o gosto de luto

E continuarei povoando a minha alma de espelhos.

 

Distribuindo a minha quermesse de ternura entre os homens

Que não conheceram a rosa noturna

E que nunca foram vizinhos, como eu sou,

Do espírito de Deus.

 


(Do Livro "Cancioneiro do Menino Grande")


Escrito por wanda.cunha às 22h54
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Carlos Cunha

 

 

                                


 

                    Artigo de Ramiro Azevedo

 

  


 

Dentre esta plêiade nova de valores que enobrecem o Maranhão cultural de hoje, avulta a figura simples do poeta e professor Carlos Cunha. Do professor não vamos falar, pois hoje é a vez do homem de letras. (...) Para se ter uma idéia das imensas possibilidades do nosso amigo poeta, focalizaremos o soneto "Ponto final", um dos muitos poemas da bagagem poética de Carlos Cunha. (...) Nossas horas de amor já se escoaram/no relógio da vida que vivemos! Assim é a abertura triunfal do poema elegante, ardente, sem preciosismos literários, porém o 'enjabement' - escoaram no relógio... - é bem preciso, toque de sensibilidade polifônica. Não mintamos pra nós, se percebemos/que as grandes ilusões se estrangularam. Figura arrojada, a prosopopéia deve ser manejada com grande tato e nos dois versos acima temos brilhantemente. - as grande ilusões se estrangularam em que a força do vocábulo estrangularam confere ao verso grande efeito na tessitura do tema. Fingimos para quê Beijos passaram/E as promessas de amor que nós fizemos,/foram tantas mentiras que esquecemos/ e os ponteiros sequer nem registraram. Um quarteto sutilíssimo que retrata fielmente o descompasso do arrebatamento amoroso inicial, cedendo a vez a um futuro tédio envolvedor. Deixa-me só, sozinho pela estrada/Comecemos os dois nova jornada/Nosso amor afinal está perdido./Não se pode viver senão amando,/a ti, eu nunca amei, foi delirando/que em teus olhos eu vi o deus Cupido!. O 'fecho de ouro' sela o poema de maneira consagradora. Se observamos bem constataremos que o soneto permite, tal a sua riqueza de conteúdo, vários 'fechos de ouro', como bem gostaria de expressar se Guilherme de Almeida. São Trabalhos literários como este que nos fazem manter aquela confiança nos recursos da gente intelectual maranhense, na fibra dos moços de hoje, no talento dinâmico que enseja tão somente que saiamos de província à Metrópole. (Carlos Cunha, de Ramiro Azevedo).

 

 



 

 

Escrito por wanda.cunha às 22h33
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Exaltação


 

 

                  Artigo de Paulo Moraes

 

 


 

No autor de poesia de Ontem há o poeta das divagações, espírito liberto do balofo das academias e pseudo e efêmeras escolhinhas literárias, há o enamorado do Belo, alma inquieta no esbanjamento do talento. E se não encontramos nele o material amadurecido, a técnica desta poética submetida a determinadas exigências, o cuidado para as expressões refletidas, a lapidão escorreita, vigilante, nele, encontramos a poesia pura, banhada de luares, adubagem dos seus sentimentos em conflito, estonteamento de luz na paisagem das suas aspirações. Há também a seiva que alimenta o espírito e que robustece o caráter, identificação de sua formação moral e intelectual. Há nele o poeta expontânea, lírico, simbolista, romântico, mensagem da poesia que eterniza, que se imortaliza no tempo e se agasalha na alma do povo, do povo que gosto do simples, do simples que comove, que contagia e que enternece e eterniza.

A poesia sem atavios, é a poesia que traduz sentimentos mais íntimos e provoca emoções. Esta poesia é difícil porque não se submete, mas aflora da alma calcinada, afeita à dureza do tempo, da Vida em sacrifício, em luta, vencendo todas as dificuldades para atingir o aperfeiçoamento. É a poesia que se rebenta em luz, espraia-se e vai crescendo cada vez mais, atraindo para si a espontaneidade dos aplausos. Poesia humana, profundamente sentida, filosófica, social.. mistura desta sensibilidade que tem poder de envolvimento. É a poesia que fica na alma popular, que se demora nos meios acadêmicos das letras imortais, assinala a sua presença, arranca da crítica sisuda e irreverente a adjetivação árida, imprecisa às vezes, para logo depois, mas prazenteira, leve, assentar-se definitivamente na galeria delirante desta outra imortalidade onde se perpetua, galvanizando corações, se transformando em tradição, em corpo e alma da terra. Esta e não outra poesia de Poesia de ontem. São poemas vividos dum poeta impressionista, poeta nato, alma no transbordamento dos sonhos mais lindos, boêmia da Vida do poeta, sua nostalgia, suas revoltas, sua mensagem de paz, de amor numa exaltação sublime de Beleza e de Arte. Poeta Carlos Cunha, a festa é sua, tome conta da casa, da gente e do povo[1].

 

 

 

 

 

 

 

 


 



[1] Discurso pronunciado pelo colunista, professor e escritor maranhense Paulo Augusto do Nascimento Moraes, na noite de autógrafo do poeta Carlos Cunha e publicado em jornal, sob o título de “Exaltação”.


Escrito por wanda.cunha às 22h29
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Encontro com Carlos Cunha


                    

 

                    Artigo de Arlete Nogueira

 

 


 

 

Conheci Carlos Cunha em 1959, aproximadamente, quando eu fazia Filosofia Pura, ele História, na Faculdade de Filosofia, ali na Gonçalves Dias. Encontrávamo-nos sempre naquela aula, que ouvíamos juntos, de Introdução à Filosofia. Lembro-me muito de que foi ele quem provocou, para que eu escrevesse uma crônica, tendo uma "parede" como tema. Havia, naquela manhã, entre vários colegas nossos, a discussão de que existiam temas muito difíceis. Dia seguinte, levei-lhe uma crônica com aquele tema de "parede" e anos depois, dei-lhe um livro com o mesmo nome. Dei a ele a crônica, não porque duvidasse. Ele, de que eu fizesse a crônica, mas porque era exatamente ele quem acreditava em mim para fazê-la. Estou, portanto, por isso, presa a meu querido amigo Carlos Cunha.

Ele sempre foi esse magnífico irrequieto, esse lutador incansável, esse ardente apaixonado pela literatura e por tudo. Conhecendo-Ihe, assim, o espírito, nunca me espantei de que fosse continuando, enquanto lhe foi possível, uma Página Literária, nesta terra tão difícil, uma Página que durante dois anos seguidos foi o mais alto veiculo entre os intelectuais do Maranhão e o nosso povo tão merecedor.

Sexta-feira Próxima, a Galeria dos Livros e, esta Página promoverão uma Noite de autógrafos para o lançamento do 1° livro de poesia de Carlos Cunha - "Poesia de Ontem' - um livro onde o poeta transfigura uma infância com" muros pintados de miséria', num belo eternizar-se, nas figurações e rutilações de um livro impresso nas Oficinas da Tipografia São José, num milagre gráfico em São Luís e na confirmação de um talento e de uma tenacidade[1].”

 

 

 

 

 

 

 




[1] (Suplemento Literário do Jornal do Maranhão, Arlete Nogueira da Cruz, em Página Literária, sob os auspícios do Departamento de Cultura do Estado, dirigida pela escritora e intitulada Encontro com Carlos Cunha, 1967.


Escrito por wanda.cunha às 22h19
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08/04/2008


PLEBISCITO

 

 


 

ARTHUR AZEVEDO

 

 


 

A Família está reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigo palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Gurmercinda, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois: uma menina e um menino. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, sentado à mesa, lê jornal. Silêncio. De repente, o menina levanta a cabeça e pergunta.

-          Pai, o que é plebiscito?

O Sr. Rodrigo fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme:

-          Pai? (pausa) Pai?

Dona Gumercinda intervém:

-          Sr. Rodrigo, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal.

O Sr. Rodrigo não tem outro remédio senão abrir os olhos.

-          Que é? Que desejam vocês?

- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

-          Ora essa rapaz! Então tu vais fazer doze anos e ainda não sabes que o é plebiscito?!...

O Sr. Rodrigo volta-se para Dona Gumercinda que continua muito ocupada com o canário belga.

-          Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito.

-          Não admiro que ele não saiba, porque eu também não sei.

-          Que me diz? Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

-          Nem eu, nem você. Aqui nesta casa ninguém sae o que é plebiscito.

-          Ninguém, alto lá. Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante.

-          A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos! Se sabe, diga, diga o que é plebiscito! Então, a gente está esperando. Diga!...

-          A senhora o que quer é enfezar-me.

-          Mas, homem de Deus, para que você há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar que nada salva este País. Já outro dia foi a mesma coisa, quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, enrolou e o menino ficou sem saber.

-          Proletário – acudiu o Sr. Rodrigo – é o cidadão que vive do trabalho mal remunerado.

-          Sim, agora sabe, porque consultou um dicionário. Mas dou-lhe um doce se me disser o que é plebiscito sem arredar o pé dessa cadeira.

-          Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença dessas crianças!...

-          Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: “não, Manduca, não sei o que plebiscito. Vá buscar um dicionário, meu filho”

-          Mas se eu sei! E se não digo é para me não humilhar diante dos meus filhos. Não dou meu braço a torcer. Quero conservar o respeito que devo Ter nesta casa.

O Sr. Rodrigo, na maior zanga, deixa a sala de jantar. Adentra seu quarto. Lá havia o que ele mais precisava naquela ocasião: um chá de ervas e um dicionário sobre um criado-mudo. A menina toma a palavra:

-          Coitado do pai! Zangou-se logo depois de jantar. Dizem que é tão perigoso!...

-          Não fosse teimoso – observa dona Gumercinda – e confessasse que não sabia o que é plebiscito.

-          Pois sim – acode Manduce, muito pesadoros por Ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois, sim, mãe, façam as pazes...

Dona Gumercinda vai bater à porta do quarto:

-          Sr. Rodrigo, venha sentar-se, não vale a pena zangar-se por tão pouco.

Sr. Rodrigo esperava a deixa. Atravessa a sala, cheio de razão:

-          É boa! – brada Sr. Rodrigo – é muito boa! Eu! Eu ignorar a palavra plebiscito! Eu!...

Mãe e filho aproximam-se ele. O governo continua em tom alto para que todos pudessem aprender a lição:

- Plebiscito é, na Roma antiga, era um decreto do povo reunido em comícios. Modernamente, é uma resolução submetida à apreciação do povo. Uma palavra latina, percebem? E querem introduzi-la no Brasil. É mais um estrangeirismo. (o texto sofreu algumas reformas, porém, insignificantes).


Escrito por wanda.cunha às 20h37
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ALGUMAS POESIAS DE CARLOS CUNHA IV

 



COMPILADAS POR WANDA CUNHA

 



POEMA SEM NÓDOA DO TEMPO LIQUEFEITO (CARLOS CUNHA)

 

Eu procurava, no meu subúrbio colorido,

Acender o lume das auroras, mas as minhas manhãs

Eram desidratadas e, sempre que olhava o céu,

Sentia o gosto de azul na boca.

Com aquela rosa de alumínio batia à minha porta

Um trecho de órgão que procurava sufocar a minha infância. Eu cresci num sufrágio de porquês,

Mas, no horário dos sinos também.

A minha tristeza morreu servida numa taça

E, das grandes madrugadas sonolentas,

Roubei o brilho de um peixe

E fiz minha canção.

 



 

 

SONETO PARA CATEDRAL (CARLOS CUNHA)

 

Eu vi Tereza no teu altar rezando

 Preces de amor na festa do noivado.

Era um anjo, sereno, imaculado;

Ou, uma rosa em paixão se confessando

 

Depois, eu vi Tereza iluminando

 Teu simbolismo em ouro cravejado,

 Eu vi Cristo sorrir crucificado

 Vendo no altar Tereza se Casando.

 

Hoje, porém, a rosa já não brilha;

Já não sinto e ouço a voz da minha filha

Que tão cedo partiu para a eternidade

 

E o Cristo que sorriu para Tereza

No mesmo altar solução de tristeza

Procurando conter minha saudade.

 

 




 

CANÇÃO SEM RIMA PARA UMA ILHA (CARLOS CUNHA)

 

Sou Velha e moça ao mesmo tempo

pois nasci ontem

e continuo tão bela qual uma estrela.

Foi descoberta por portugueses, Franceses dominaram-me o coração

E hoje pertenço integralmente a brasileiros. Canhões antigos cantam hosanas seculares E dos seus musgos escorrem aleluias

De um passado que será perpétuo

E que será perene.

Nas noites de lua cheia,

Passeiam lendas pelas minhas calçadas,

Subindo e descendo as minhas ladeiras.

Eu sou o passado em harmonia com o presente

Eu sou a tradição em luta com os costumes modernos Eu sou o país dos azulejos,

A catedral dos vitrais,

A cidade dos sonhos, o reinado da poesia

Eu me chamo São Luís

 





Escrito por wanda.cunha às 20h10
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ALGUMAS POESIAS DE CARLOS CUNHA III

 



COMPILADAS POR WANDA CUNHA






 

 

BILHETE A PAPAI NOEL (CARLOS CUNHA)

 

Papai Noel, que vergonha! eu

confesso de você

Sonhei muito, mas quem sonha

não vive bem, já se vê.

 

Inda tenho os sapatinhos

que guardava pra você

Andei por muitos caminhos

não o vi, não sei por que...

 

Inda guardo os sapatinhos

empoeirados, tristonhos,

mas dentro deles sozinhos

os fantasmas dos meus sonhos!

 

Papai-Noel, que vergonha,

se você me visse agora:

alma cansada, tristonha, cheia

do nada de outrora

 

Quantos sonhos disfarçados

em seu saquinho, Noel,

castelos alicerçados

em colunas de papel J..

 

Papai-Noel, por favor,

não minta para as crianças

traga mensagens de amor

e um Natal só de esperanças!

 



 

CANÇÃO DE NATAL PARA O MENINO POBRE (CARLOS CUNHA)

 

 

Menino pobre, menino do meu subúrbio

Papai Noel não te quer.

Uma infância desenflorada

Balança tua espádua nua, dilacerando o silêncio

Esquece Papai Noel, menino pobre, menino do meu subúrbio. O carro

desse velhinho passou distante de ti.

Papai Noel nunca viu

O teto todo furado do teu casebre de tábua

Teu riso transfigurado, teu braço magro, comprido

Teu ventre pasto de verme.

Porque se viesse, menino,

Menino do meu subúrbio,

Não te daria um brinquedo.

Mas um pãozinho de trigo

E um minuto de sossego.



 

Escrito por wanda.cunha às 20h08
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ALGUMAS POESIAS DE CARLOS CUNHA II



 COMPILADAS POR WANDA CUNHA



 

DOZE DE JUNHO (Carlos Cunha)

 

Estes versos que fiz, assim, sonhando, brotaram

de minh' alma enamorada.

Versos cheios de ti, luar cantando,

ao som de uma festiva madrugada

Estes versos são teus, iluminada.

A hora em que os fiz te relembrando

são pedaços de mim que vão rimando,

escrevendo teu nome na alvorada.

Não sei se tu me amas. Pouco importa.

O amor é um viajante certamente

que procura indeciso a tua orta.

Guarda estes versos. Guarda-os bem guardados,

bem juntinho de ti, eternamente,

sonhando o sonho bons dos namorados.

 



 

SONETO PARA JACIMIRA (Carlos Cunha)

 

Olha, meu bem, que triste imensidão vazia

no lar, em mim, em ti, nos filhos que tivemos.

O pau-d'arco imponente e belo já não vemos,

aquele que entre nós de sonhos refloria.

Imensa a nossa dor, tamanha nostalgia

que retelha do luto a casa em que vivemos.

Um pedaço, bem sei, de vida nós perdemos.

E essa saudade em lenta sinfonia!

Angústia que não vai. Lembrança dolorida: coivara

Coivara que ficou na roça dos amores!

Mas, que tritura, meu bem! Que solidão enorme! E,

E, entre nós, está ausência presente, desconforme,

do pau-d'alho tombado na estação das flores.

 



 

POEMA SIMBOLISTA PARA UMA

ANGÉLICA MUITO MAIS (Carlos Cunha)

 

 

No teu aquário multicor

descansam as minhas ilhas de silêncio.

fossa hora amadurece, sem flores adolescentes

sinto que sou de névoa diante de ti.

e trazes o amor, na trança dos cabelos

e dos teus lábios brotam sons de aleluia.

Nada mais posso oferecer,

senão alguns instantes azuis e o sal da minha alma.

foge enquanto é tempo, pela espessura do escuro,

deixando no meu sangue vigília suicidadas.

foge depressa, eu te peço.

quero ficar só, como estátua inédita,

num mar sem praias, numa manhã incolor,

tirando a minha angústia do bolso

 


 

 

Escrito por wanda.cunha às 20h02
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ALGUMAS POESIAS DE CARLOS CUNHA I


COMPILADAS POR WANDA CUNHA


CONDOR FERIDO (Carlos Cunha)

 

Eu já fui forte, ousado, destemido,

um rochedo sem medo do oceano,

primavera durante todo o ano, uma

feliz vendaval sem ser vencido.

Eu fui condor, voando distraído, sem

receio ou temor, sem desengano,

conquistei corações qual um

tirano, fui mais forte no amor do

que Cupido. Mas, tu chegaste,

assim, na minha alma. E foste

entrando, em mim despercebida,

deitando lá no fundo da minha

alma. Pobre destino o meu, morrer

assim: um furacão vencido pela calma.

Foi tão-somente o que restou de mim.

 


 


EDITH (Carlos Cunha)

 

Se fecho os olhos, vejo os olhos dela,

qual facho de luz na minha estrada, luz

que torna segura a caminhada

e reflete a ternura de uma estrela.

Se a saudade me vem tentalizada

e em meu peito se agita e se encapela,

sua imagem sagrada se revela

na tela da minh'alma apaixonada.

Na infância distante e bem quieta, sem

perceber que eu nasci poeta, nem

pressupôs, se quer, meu triste fim. Eu

fiquei velho, muito mais que ela. Na dor

discreta, penso logo nela.

Eu carrego mamãe dentro de mim!

 



 

 

SONETO DA MINHA ANGUSTIA (Carlos Cunha)

 

 

Eu tenho filho, cujo olhar profundo penetra o

infinito da minha alma.

Esse olhar estrangula a minha calma.

E, em magoas e tristezas me fecundo. Finjo

aceitar em mim, lá bem no fundo, no

mistério da dor que em mim se espalma, a

mudez que meu filho traz encalma,

na rosa cor de rosa do seu mundo!

E esse olhar, qual lâmina me invade. Parece

até um triste fim de tarde

que se debruça sobre o meu viver.

Ah! se eu pudesse cessar esse absurdo... Não

sofreria se ficasse mudo,

vendo e sentindo a sua voz nascer!...

 



 

Escrito por wanda.cunha às 19h55
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12/03/2008


ENGRAXATEZINHA CHINESA, de Ronaldo Giusti


 

Meus olhos fotografaram

Teu rosto de adolescente,

Quando ainda ensaiávamos

O inglês imperialista do Tio Sam.

 

O que me ficou de ti

Foi o sorriso escovado

De tantas alegrias,

A  cara redonda de quem

Passeia no mundo

E os olhos do Oriente.

 

Virei bacharel e

Professor de inglês,

E acabei convencido

A ser poeta da minha geração

Que nem tu.

 

Mas a década do teu silêncio em mim

Fez os teus cabelos embranquecerem

E a barba esconder o rosto pequeno

Do menino tímido e desconfiado

Que já não lembras

Como se fosse amanhã...

 

Hoje eu vim engraxar o meu sorriso

Com a grax(ç)a da tua poesia.

E seria tão caro engraxá-lo

Não fosse tu engraxate

Do nosso tempo.

 

(Texto encontrado entre os meus alfarrábios, sem título.

Intitulei-o, sem a permissão do autor. É que sob o lusco-fusco das minhas lembranças,

reencontrei, em forma de saudade, o amigo que deixei em alguma esquina do passado)



 

Escrito por wanda.cunha às 22h07
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