PUNHAL DE AURORA
Poesia de Carlos Cunha
Ainda escuto a fala do meu
Iluminando o silêncio de tapeçaria
Na nossa casa de telhado verde.
O rio que lavava a ruazinha estreita
Não vegetava mágoas.
Ainda escuto a canção de aurora
Que tocava o homem do realejo,
Saudade de Maria,
Com seu olhar umidecido de alvoradas.
Muitas e muitas vezes
Percorri as ruas, carregando sonhos nas mãos inocentes
Brincando com os meus irmãos
Que naquele tempo eram apenas anjos de porcelana
Num país sem memória.
Hoje,
Que Rominha tem outro nome
E outras as crianças que ali residem,
A perspectiva das casas tornou-se paralela.
Deuses tiranos caminham sobre a lama viva
E os jardins que sorriam, como as janelas,
Agora são de luto.
Como a infância corre depressa
Na terra grávida do tempo!....
Os meus sonhos já não são fantasias de papoulas,
Mas castelos de ventos.
Ah se o tempo voltasse
Talvez pudesse colher a flor de sede
Que deixei entre um prelúdio
Num santuário que nunca foi de súplica.
Ainda bem que as minhas ilhas continuam verdes
E as palavras do meu filho morto permanecerão desconhecidas
Só assim afasto da minha boca o gosto de luto
E continuarei povoando a minha alma de espelhos.
Distribuindo a minha quermesse de ternura entre os homens
Que não conheceram a rosa noturna
E que nunca foram vizinhos, como eu sou,
Do espírito de Deus.

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